
Estudantes manifestam na sala que abriga acervo
Desde a última segunda-feira, vigias contratados pela UFJF fazem plantão na porta do Museu de Arqueologia e Etnologia Americana (Maea) da instituição, localizado no Arquivo Histórico e Geográfico, na Avenida Rio Branco 3.460. O motivo é permitir somente a entrada de pesquisadores e bolsistas que atuam no local. Há uma semana, discentes da UFJF fazem manifestação contra o possível fechamento do museu, erguendo cartazes na entrada do espaço. Segundo informações da superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em Belo Horizonte, uma série de possíveis irregularidades teria desencadeado o processo que pode levar ao encerramento temporário das atividades do museu.
"Na análise dos procedimentos levados ao Iphan há mais de um ano, constatamos indícios de irregularidades no recebimento de peças", justifica o superintendente do Iphan/MG, Leonardo Barreto, ao informar que o órgão solicitou à UFJF o fechamento temporário do museu para que se inicie a apuração dos fatos.
Em nota enviada por e-mail, a secretária de Comunicação da UFJF, Christina Musse, devolveu a responsabilidade sobre o caso, declarando que "a UFJF não tomará providência, aguardando os encaminhamentos a serem definidos pelo Iphan". A averiguação, ainda de acordo com Barreto, vem sendo acompanhada pelo Ministério Público Federal (MPF) e pela Procuradoria Geral da República.
A promotora de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural, Zani Cajueiro, do Ministério Público Federal, disse que a superintendência estadual do Iphan procurou o MPF em agosto e recebeu orientação para não liberar a autorização para o recebimento de 170 mil peças. "Mas, nesse meio tempo, o Centro de Arqueologia do Iphan, em Brasília, autorizou. Não posso precisar a quantia de dinheiro envolvida, mas posso afirmar que se trata de irregularidade administrativa", diz a promotora.
Defendendo o não fechamento do Museu de Arqueologia e Etnologia Americana, cinco alunos do curso de História da UFJF lacraram, na noite da última quinta-feira, com fita crepe, as portas da sala onde está o acervo em ato de protesto. "Para que ninguém nos acuse de ter contato com o arquivo a ser analisado, optamos por lacrar a entrada", explicou Jamilli Mendes Silva, aluna do primeiro período. Ela contou ainda que, junto aos outros, dormiu no local de quinta para sexta-feira da semana passada. Os estudantes afirmaram que permanecerão por lá até que a situação seja resolvida.
"Não temos um quantitativo das peças guardadas no museu, mas não queremos tomar o que pertence à UFJF e nem o material bibliográfico utilizado pelos discentes da instituição", garante o superintendente Leonardo Barreto, com o objetivo de dissolver a tensão criada entre o Iphan e os discentes da UFJF.
Atualmente à frente da coordenação do museu, o professor Cezar Henrique Barra Rocha critica a falta de preocupação com o acervo guardado no local. "O principal de todo esse ‘jogo’ de empurra é que, além de outros acervos importantes guardados em condições inapropriadas, como parte do etnográfico numa sala do RU Centro, peças do Museu de Arqueologia, importantes para a pesquisa acadêmica, encontram-se reféns de goteiras e excesso de umidade, o que pode causar sérios danos ao material", alerta Rocha, no cargo desde 2010.
O coordenador conta ainda que foi convocado pelo gabinete da Pró-reitoria de Cultura da UFJF na última semana, quando teria sido informado do documento enviado pelo Iphan à UFJF solicitando a interdição do espaço para averiguação dos indícios de irregularidades. "O pró-reitor de Cultura, verbalmente, nos pediu para desocupar o imóvel e levar nossos pertences, mas continuamos no local até que o Iphan apareça. Inclusive, gostaria que o Iphan aparecesse o mais urgente, já que (técnicos do Iphan) vieram duas vezes esse ano para falar com a UFJF."
Em resposta ao conflito, o pró-reitor de Cultura, José Alberto Pinho Neves, confirma o recebimento da solicitação do Iphan. "Comuniquei sobre o caso ao Iphan, e eles me disseram que fariam contato com a Procuradoria Federal para executar um mandado de busca e apreensão no museu", diz. Segundo ele, a UFJF estaria, de fato, aguardando a decisão do Iphan.
Para Cecília Porto, bolsista do CNPQ, mestranda e pesquisadora do acervo arqueológico do museu, o problema teria começado há dois anos, na época da transferência do material etnográfico Maxakali (grupo indígena do Nordeste de Minas) do Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) para uma sala do RU Centro. "Doado pela professora Nely Nascimento (departamento de Ciências Sociais da UFJF) em 1980, esse acervo está trancado onde não é permitido o acesso de pesquisadores" assegura Cecília, que, há dois anos, estuda os instrumentos musicais produzidos pelos Maxakalis. "Nosso medo é que façam com o Maea o mesmo que fizeram com o acervo etnográfico (Maxakali), fechando as portas e nunca mais abrindo."

