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Poéticas do corpo

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Em seus Poemas inconjuntos, Alberto Caeiro, uma das inúmeras vozes de Fernando Pessoa, justifica sua presença no mundo por meio da corporeidade, asseverando Sim: existo dentro do meu corpo. Já como ele mesmo, Pessoa atribui ao corpo um papel poético, ao dizer Meu corpo é uma máquina de sonhar/Todos os meus gestos, palavras e olhares/são extensões deste sonho. Materialidade, poesia, instrumento ou arte em si, o corpo, como bem observa o poeta português, sempre foi objeto de reflexão e inspiração artística e é uma questão central na compreensão da contemporaneidade. É esta multiplicidade de leituras e potencialidades que o Festival de Artes do Corpo (FAC), do Instituto de Artes e Design (IAD) da UFJF, pretende debater, de hoje a domingo, em vários suportes e linguagens, no Museu de Arte Moderna Murilo Mendes (Mamm).

Segundo a artista e professora Priscilla de Paula, idealizadora do festival, a ideia é inserir Juiz de Fora neste campo específico da arte contemporânea, já que a cidade possui forte tradição na dança e no teatro – expressões que flertam com as poéticas do corpo -, além de ter órgãos de ensino superior dedicadas a este estudo. Atualmente a performance, uma das vertentes das artes do corpo, tem estado muito em evidência nas rodas de discussão, nas mostras e até em feiras de arte contemporânea. Ouso afirmar que estamos vivendo o grande momento desta linguagem que, a partir dos anos 1990, passou a usar as novas tecnologias (vídeo, fotografia e internet principalmente), com políticas e elementos relacionais bem distintos dos utilizados nos anos iniciais.

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Neste ano, o evento tem o tema Corpo ampliado, e uma das novidades em relação à primeira edição é a inclusão de trabalhos teóricos na programação, ampliando o espectro do debate. Uma das pesquisas apresentadas na manhã de hoje é Omnibus pela democracia direta, da pesquisadora alemã Eva Brandt e da mestranda do IAD Elisiana Candian, que aborda a ideia de democracia a partir da concepção de cada cidadão, em referência à afirmação do artista Joseph Beuys, de que cada pessoa é um artista.

Para Eva, o tema do festival é uma metáfora para uma das abordagens da arte na atualidade. Na medida em que a arte se torna não apenas um trabalho material, mas um processo dinâmico que pode envolver cada cidadão igualitariamente em um sistema criativo, ela se torna ampliada, dando origem a um novo campo de discussão e criação, diz ela em entrevista à Tribuna.

Já Naitan, aberta às 20h de hoje, transita entre linguagens, batizando tanto a mostra fotográfica de Gui Galembeck quanto a apresentação de dança de Adilson Nascimento. No espetáculo do bailarino, Naitan é um cavalo que, picado por uma serpente, a pisoteia, mas seu corpo, já tomado pelo veneno, desfalece. O olhar do fotógrafo Gui Galembeck conseguiu captar minúcias do movimento da dança como mãos alongadas, músculos tensionados e sobressaltados, que ilustram a força e a leveza de Adilson.

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Arte que não se repete

Entre as performances, um dos destaques é a do bailarino, artista e aluno do IAD, René Loui, no sábado, às 18h. Pesquisador das relações entre corporeidade, artista, obra e espectador, René explora, em Carne, as reações do corpo frente a situações extremas, em uma intervenção que mescla audiovisual com a presença física do artista. Me propus a trazer para a obra as minhas reais sensações pessoais: o ‘sentir’ seria elevado até seu ponto mais alto. O objeto final da proposta é sensibilizar o outro para que suas sensações dialoguem com a obra para, assim, concluí-la. Não esteticamente, mas sensorialmente. Ainda nesta edição, René apresentará um trabalho acadêmico sobre a performance no ambiente escolar e terá exibida a projeção Casa da costureira, proposta coletiva que mescla videodança e instalação.

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Também pondo a mão na massa, Priscilla de Paula apresenta Com olhos bem abertos, em que a imagem de seu corpo, ao vivo e projetada em vídeo, aparece com uma veste de crochê, uma grande máscara tecida pela artista especialmente para a ocasião. Questões como o tempo, o amadurecimento e o desapego a antigas emoções e paradigmas serão tratadas de forma simbólica, com o crochê e o vermelho, muito emblemáticos em meu trabalho. Será uma performance especial, algo que não pode ser repetido, adianta.

Multitalentoso, Lúcio Agra, que já se enveredou por teatro, desenho, música e é doutor em comunicação e semióticas, descobriu que todas estas vertentes encontram-se na arte performática e dá uma amostra de sua experiência no último dia do evento, domingo, apresentando Inventário de personas. Persona é a máscara para o teatro clássico, através da qual soava a alma do ator que a encarnava. Mas aqui não há atores e personagens, senão situações que aparecem através de figuras físicas que misturam elementos da cultura de consumo, elementos autobiográficos e que evocam mitologias urbanas e suburbanas. O trabalho é uma espécie de catálogo dessas personas, apresentadas na sua precariedade de existência feita a partir de fragmentos, explica Lúcio.

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II FESTIVAL DE ARTES DO CORPO

Dias 8, 9 e 10 de novembro

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Mamm

(Rua Benjamin

Constant 790)

Programação completa em www.festivaldeartesdocorpo.blogspot.com

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