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Décadas de encontros

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Houve um tempo em que os instrumentistas eruditos precisavam esconder seu interesse pela música popular. Pseudônimos eram adotados quando "ousavam" interpretar o repertório das ruas, dos bares. Quando os irmãos Sérgio e Odair Assad iniciaram a carreira como violonistas, já havia um esboço de cenário na direção da mistura de estilos. Embora ainda houvesse receio e crítica dos conservadores, o Duo Assad despontou como pioneiro de um repertório rico e eclético e, hoje, prestes a completar cinco décadas de dedicação à música, forma um dos mais importantes duos de violões do mundo.

O Duo Assad encerra, nesta sexta (8), no Teatro Pró-Música, o primeiro ano da turnê comemorativa, que já passou por São Lourenço, Mococa (terra natal de Sérgio), Belém, Campos do Jordão e Goiânia. Os concertos continuarão em 2014, ano em que completam 50 anos de carreira, incluindo capitais como Rio de Janeiro e São Paulo. Ao todo, o duo percorrerá 26 cidades brasileiras, em turnê contemplada pela seleção pública do Petrobras Cultural.

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"Atualmente é até imprescindível que se interprete música em vários idiomas, que se aprenda a falar essas diferentes línguas, ou pelo menos duas ou três delas, já que é muito difícil executar todas bem", avalia Sérgio Assad, destacando a grandeza do choro brasileiro, estilo do qual saíram para se lançar ao erudito. "Até mesmo dentro do universo das seis cordas, temos violões diferentes, e para executá-los com destreza é preciso mergulhar profundamente em sua escola", diz.

Para Sérgio, muitos músicos perdem anos de experiência ao se privar do contato com as manifestações musicais populares. "Tais músicos podem ter a técnica, mas lhes falta a fluidez que só o contato com as pessoas de outros meios – que não o erudito – pode dar."

Residindo nos Estados Unidos e na Bélgica, os irmãos paulistas têm se apresentado ao redor do mundo em recitais, com orquestras e ao lado de grandes nomes internacionais como Yo Yo Ma e Paquito D´ Rivera.

O programa do Duo Assad cobre mais de três séculos de música criada especialmente para o violão ou adaptada, apresentando grandes compositores como Fernando Sor, Rameau, Nazareth, Torroba, Radamés Gnatalli e Egberto Gismonti e encerrando com Tahhiia li Ossoulina, de Sérgio Assad, ganhadora do Grammy Latino de composição de 2008.

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Lugares e pessoas certas

 

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Nas décadas de carreira, o Duo Assad, desenvolvendo uma abordagem particular dos estilos musicais, esteve em países diversos, dividiu o palco com artistas consagrados, gravou discos que reforçam a arte de se tocar violão em duo, ganhou prêmios importantes – a exemplo da obra "Sérgio e Odair Assad tocam Piazzolla" (2001), que rendeu ao duo um Grammy Latino – e é referência para as novas gerações. Eleger os momentos mais marcantes da trajetória é tarefa das mais árduas para Sérgio, que, ainda assim, cita três deles como essenciais à formação dos violonistas que se apresentam nesta sexta na cidade. "O primeiro deles foi quando tocamos com Jacob Bittencourt (o Jacob do Bandolim), no Teatro Record, em 1965. Outra passagem marcante foi o concerto em Paris, em 1981, no qual estava presente na plateia Andrés Segovia, o papa do violão erudito. Por fim, o encontro com o Piazzolla, em 1983", diz. "O fato é que tivemos muita sorte de cair nos lugares certos e encontrar as pessoas certas."

O famoso compositor argentino Astor Piazzolla foi um dos músicos – ao lado de nomes como Terry Riley, Radamés Gnattali, Francisco Mignone e mais recentemente o cubano Leo Brouwer – que escreveram músicas especialmente para os Assad. "Nos anos 70, havia muita pressão para que fosse feita uma música contemporânea no Brasil, mas era algo que não tínhamos exatamente vontade de fazer. Procuramos então, outras alternativas, como interpretar a música de Piazzolla, uma música difícil de ser rotulada", conta Sérgio, gabando-se que, embora nos anos 1990 muitos artistas clássicos decidiram gravar peças do argentino, eles já sabiam da riqueza de suas composições há anos.

"Tivemos a felicidade de encontrá-lo em um evento em Paris, tocamos para ele, e ele ficou encantado. Escreveu peças próprias para tocarmos e acabou nos levando a outras pessoas", conta. "Ele virou moda, e nós viramos também, pois era algo diferente, original. Temos o prazer de dizer que sabíamos disso antes", brinca.

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Nas palavras de "The Washington Post", o Duo Assad foi descrito como "o melhor duo de violões que já existiu, talvez em toda a história… nenhuma antecipação poderia preparar para a impressionante flexibilidade e completa unanimidade dos irmãos brasileiros".

"A natureza da música brasileira faz do músico nacional versátil", constata Sérgio, que credita a desenvoltura dos instrumentistas do país, cada vez mais presentes em grandes orquestras e salas de concerto pelo mundo, à relação estreita com a musicalidade latina. "A maioria dos brasileiros tem essa experiência de ir a lugares aonde todos cantam, muitos tocam violão, por prazer, mesmo os que não são profissionais. Ainda que Estados Unidos e França sejam casas da música, não acontecem por lá experiências como essas", diz. Com isso, toda a bagagem acumulada transparece quando os brasileiros aprofundam seus estudos. "Os repertórios tradicionais, de Bach e Beethoven, são executados, muitas vezes, de maneira ‘igual’ por todos, mas basta colocar algo diferente, mais latino, para conferir essa vantagem."

A atualidade aparece como um momento de resgate para o violão, na opinião de Sérgio. Até o século XIX, segundo o músico, era muito frequente a escola de intérpretes compositores, algo que sofreu uma ruptura nas décadas seguintes. "O compositor desapareceu, apenas interpretavam o que já existia", observa. O intérprete, ainda tímido e atuando mais na área popular, volta a compor para o instrumento apenas na segunda metade do século XX, para, a partir de 1960 e 70, as composições serem retomadas por uma série de artistas. "O violão também passou a ser respeitado como um instrumento sério, de concerto. O repertório de composições na área só tende a crescer", projeta.

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DUO ASSAD – Nesta sexta-feira (8), às 20h, no Teatro Pró-Música

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