Especialistas em educação infantil apontam que dos 3 aos 4 anos de idade as crianças entram na fase dos porquês, quando tudo e todos precisam de explicações para existir. São inerentes ao crescimento os questionamentos. Mas aos adultos também faz-se fundamental não deixar com que as coisas passem incólumes. Atento a essa fresta, o argentino radicado em Lisboa Claudio Hochman escreveu Saudade: um conto para sete dias (Companhia das Letrinhas, 38 páginas). Originalmente em espanhol, a obra acaba de chegar ao país, com ilustrações do português João Vaz de Carvalho.
Dividido em sete capítulos, um para cada dia da semana, o livro revela a estreita relação entre os nomes dos dias e dos astros, que em algumas línguas são quase evidentes. A segunda-feira é dedica à Lua. Por isso, em espanhol ela é chamada lunes, conta o narrador logo no início, para em seguida falar de um rei que, aparentemente, sabe tudo.
Mas são só aparências mesmo. O tal rei, que come batatas fritas e veste um moletom listrado de branco e vermelho, achava que sabia tanto que foi capaz de destinar o primeiro dia da semana às perguntas feitas por quaisquer pessoas. Sóbrio em seu pequeno bigode e seus óculos de aros redondos, um tal Fernando – uma referência direta ao poeta português Fernando Pessoa – decide lhe questionar sobre o significado da palavra saudade.
Está formada, então, uma imensa confusão. Sem respostas, o rei ficou devendo ao tal homem uma definição que lhe satisfizesse em seis dias. Nessa noite, o rei não conseguiu dormir. Sentou-se na cama e ficou olhando para a Lua pela janela enquanto pensava e repensava, narra. Desconfortável ele reuniu sua equipe e pediu ajuda. Nenhum dicionário lhe dava a resposta. Num livro de português, encontrou uma definição inquietante: saudade significa saudade.
Seus assessores resolveram lhe enviar para longe da família. Em um outro clima, o rei passa mal e decide voltar, considerando que seu mal-estar já lhe indicava uma possível descrição para a palavra. Nada. O que Fernando queria lhe mostrar é que nem tudo se explica. Há palavras que não têm definição, que se sentem ou não se sentem e ponto final, concluiu o rei.
Para aquietar o coração
Para as crianças, Saudade: um conto para sete dias pode representar o desafiador lugar humano das ausências de sentido. Mesmo que de maneiras diversas, aprende-se ainda na infância que nem tudo é perfeito, nem tudo consegue ser explicado de maneira completa. Há muitas incompletudes. O rei é essa figura, cuja maturidade e poder ainda não haviam lhe permitido aprender e constatar suas impotências.
Para os adultos, é justamente a impotência que salta aos olhos e toca fundo através da forma poética que Claudio Hochman lança mão para falar de uma palavra tão cara aos falantes da língua portuguesa. Afinal, o que sentimos? Utilizando-se da figura de Pessoa, um dos maiores poetas da virada do século XIX para o XX, o autor joga luzes sobre a força das palavras e, ao mesmo tempo, sugere o vigor, ainda maior, do universo sentimental.
Vê de longe a vida. / Nunca a interrogues. / Ela nada pode / dizer-te. A resposta / está além dos deuses., escreveu, sob o pseudônimo de Ricardo Reis, o poeta Pessoa. O tal Fernando foi o único homem capaz de rever a postura do rei, capaz de mudar a rotina de um reinado, fazendo brotar a sensibilidade. Como no livro de Hochman, e nas palavras do poeta português, a vida deve ser, mais que apenas vivida, sentida.
