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Mar de músicas

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Ela transita entre o jazz e o blues, mas quando se junta ao projeto de banda resvala em rock. Compositora de mão cheia, ela lançou em 2012 o disco solo "Bang", segundo na carreira. Como um livro de poemas, o CD disponível para download gratuito reserva os seguintes versos, da faixa "Jaz": "Eu vi de tudo / o futuro me veio / me botou de joelhos / riscou meu seio / me deixou entrar / agora jaz, não és mais / não és mais nada / estou na calçada / a porta trancada / voltar nem pensar". Para alguns, a potiguar Simona Talma surgiu na última quinta, com a estreia do programa global "The voice Brasil", quando cantou "Tango para Nancy", de Chico Buarque, e foi selecionada para o time de Carlinhos Brown. Para outros, já agrada ouvidos há mais de uma década. Como muitos outros cantores e cantoras que se espalham pelo país, a vocalista da banda Talma & Gadelha é fruto da atual geração, é um dos peixes de um mar de melodias, harmonias e ritmos.

"Hoje tem de tudo. É um panorama superdisforme, cada um do seu jeito, com suas verdades e maneiras de fazer. Uns fazem coisas muito boas, e outros, sem nenhuma relevância. Esse mar de gente vem dessa possibilidade de cada um fazer seu próprio disco. É um mar de gente boa, um mar de gente ruim, um mar de gente sem graça, um mar de gente legal. Está tudo misturado. Cabe ao ouvinte pescar qual peixe ele quer", comenta o jornalista, crítico e pesquisador musical Marcus Preto, que tem no currículo a crítica do jornal "Folha de S. Paulo" e a curadoria do site "Música de bolso".

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Dessa semana até o próximo mês, deságuam em Juiz de Fora quatro peixes de peso no cenário atual. Emicida faz show na próxima sexta, 11, João Cavalcanti, vocalista do Casuariana e filho do cantor Lenine, apresenta seu trabalho solo no dia 17, dois dias antes da apresentação da banda Móveis Coloniais de Acaju. O Vanguart chega à cidade em novembro. Presentes em muitas listas que versam sobre a "nova música brasileira" ou sobre a "nova geração da música", esses artistas têm em comum um início independente e o grande número de fãs na internet, local onde estão presentes com toda potência e possibilidade que as novas tecnologias permitem.

Segundo Marcus Preto a terminologia usada para o presente musical é bastante controversa. "Não é uma nova música. Música é música desde sempre. O que mudou é o jeito de fazer, divulgar e ser artista", ressalta. Para a apresentadora do "Cultura livre" (TV Cultura) Roberta Martinelli, os rótulos são frágeis demais. "Não gosto quando dizem esta safra, esta geração, nova MPB, velha MPB. Quando me perguntam que tipo de música toca no programa, respondo: ‘a música brasileira que acontece hoje’." Responsável por trazer os jovens músicos à Juiz de Fora, a socióloga e promotora de cultura Virgínia Strack prefere utilizar o termo "nova música brasileira", que para ela não carrega julgamentos estéticos, mas amplia o horizonte atual.

"O que define essa nova música é muito mais uma questão de ‘modus operandi’ do que uma questão propriamente estética. Aliás, é uma característica desses novos artistas uma fusão, uma antropofagia. Acho que é uma certa perda de tempo ficarmos tentando definir esteticamente essa nova geração. É rock, é ska, é folk, é rap, é samba, é instrumental, é tudo", analisa Virgínia. "Muita gente faz uma música com cara mais antiga, mas de uma forma diferente, porque não existe mais uma grande indústria por trás, existe a internet e a possibilidade de iniciativas completamente diferentes", completa Preto.

"A internet é uma ferramenta fundamental para a música, para a divulgação do trabalho. Você grava em casa sozinho e coloca tudo disponível para streaming, download. Tudo ficou mais próximo, inclusive a relação público-artista. Hoje os artistas se ouvem, e parcerias são feitas. O espaço é infinito, cabe tudo", afirma Roberta. "O artista vira um pouco empresário, designer para colocar as coisas no ar e um pouco estrategista também. Ele não fica mais sentado fazendo música e esperando inspiração", complementa Preto.

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Independência ou morte

De acordo com Virgínia Strack, a internet confere autonomia ao trabalho do artista e, em consequência, proporciona a originalidade. "Na internet não tem patrão, não tem jabá, não tem aquela noção restritiva de ‘propriedade’", observa, para logo completar: "Acredito que o que faz uma banda é o show. A banda precisa circular. As pessoas não ficam na frente do computador procurando novos grupos ou com uma postura self-service, ‘deixa eu ver o que tem e aí escolho’. Elas vão direto ao ponto, sabem muito bem o que estão procurando".

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Dessa forma, independência torna-se um imperativo, onipresente numa cena que vai do Oiapoque ao Chuí. "O termo independente quase não faz sentido hoje, está datado, uma vez que Chico Buarque, Maria Bethânia, Djavan e Nando Reis são artistas independentes. Ou eles estão em gravadoras que são praticamente selos, ou fazem o próprio disco, sozinhos. Os independentes dos anos 2000 ensinaram para esses caras maiores", reflete Marcus Preto, elencando nomes como os de Criolo, Emicida, Karina Buhr, Passo Torto, Metá Metá, Mallu Magalhães – "Já é um fruto da internet que rendeu muito bem" -, Tulipa Ruiz, Siba, Felipe Cordeiro, Gaby Amarantos – "Acho muito legal essa coisa de fazer bem popular, para acabar com isso de que música dessa turma tem que ser para ninguém" -, Tatá Aeroplano, O Terno, Vanguart, Trupe Chá de Boldo e muitos outros.

Para Roberta Martinelli, música independente é quando o projeto é todo comandado pelo artista, do início ao fim. "A independência é uma dependência enorme de um coletivo de artistas que ‘compra’ tua ideia", acrescenta, confirmando o que Preto também enumera como uma característica da nova geração, que se dispõe a trabalhar um no disco do outro, ou faz formações diferentes para estéticas diversas. Kiko Dinucci, por exemplo, atua com a cantora Juçara Marçal e com o saxofonista Thiago França no grupo Metá Metá, além de integrar o Bando Afromacacorrônico e o grupo Passo Torto.

 

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Onde está o centro?

Em coro, a apresentadora Roberta Martinelli, a promotora cultural Virgínia Strack e o crítico musical Marcus Preto defendem o vigor do tempo presente. Porém, divergem quanto à centralização dessa atualidade. Para Virgínia, a atuação está completamente descentralizada. "Não existe um lugar em ascensão. Macaco Bong e Vanguart vieram de Cuiabá, Porcas Borboletas tem origem em Uberlândia, Móveis Coloniais de Acaju é de Brasília, Cascadura é da Bahia, Pata de Elefante vem do Sul. Enfim, estes novos artistas vêm de toda parte. São Paulo é só mais uma cidade", exemplifica.

De acordo com Preto, São Paulo é, indiscutivelmente, um polo. "Quem queria fazer música nos anos 1980 e 1990, e morava fora do eixo RJ-SP, mudava-se para o Rio de Janeiro. Mas lá começou a ficar muito caro. No final dos anos 1990, principalmente os pernambucanos do Nação Zumbi e os cearenses do Cidadão Instigado, mais o China, o Otto, começaram a vir para São Paulo. Por aqui já ter uma tendência aos negócios, faz mais sentido que esses artistas morem próximo a isso", afirma. "Recebo bandas de todos os lugares. Muita gente de São Paulo, Recife, Belém, Rio de Janeiro. A maioria mora em São Paulo, e ainda vejo muitas bandas sentindo a necessidade de se transferirem para cá", acrescenta a paulista Roberta.

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O crítico e a promotora concordam com as facilidades que uma cidade como São Paulo oferecem, atraindo vários nomes da nova cena."Os aparelhos culturais disponíveis diferem de estado para estado, de cidade para cidade. O que não tem nada a ver com o artista", pontua Virgínia. Retornando à Simona Talma, seu público está completamente estabelecido no Rio Grande do Norte. Basta pesquisar no Google, e aparecerão torcidas acaloradas pela vitória da cantora. Inspiração para ela e seu parceiro Luiz Gadelha, com quem divide o Talma & Gadelha, a turnê na capital paulista fez surgir o recém-lançado disco da banda, "Maiô", que sugere a grandiloquência de uma cidade grande demais. Talvez, o que Simona deseja ao participar do reality show global é apenas atrair mais atenção, ter mais espaço no mar.

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