
Nunca dá para saber qual vai ser a próxima música. Tudo, na verdade, depende do público e da energia do local. Se estão dançando ou se estão parados. É por isso que cada set realizado pelo DJ Kalango é diferente do outro. Completando 20 anos de atuação como DJ de forró, Danilo Oliveira compartilha inspirações e influências em seu nicho musical e celebra sua trajetória.
O forró surgiu em sua vida por conta de uma tradição de família: todo mês de junho, sua avó paterna, D. Conceição, rezava um terço para seu filho e, depois, o forró começava. Natural de Almenara, no Vale do Jequitinhonha, Danilo passou a infância conhecendo o gênero que, mais tarde, guiaria grande parte da sua vida.
Música nas teclas
Danilo chegou a Juiz de Fora no ano de 1992, justo na década que marcou o boom do forró eletrônico no Brasil, com o surgimento de bandas e artistas como Calcinha Preta, Limão com Mel, Magníficos e Mastruz com Leite.
Na época, ele já estava tendo mais contato com o gênero, frequentando casas noturnas como a ABCR. Danilo também já estava conhecendo mais da área da tecnologia, que também experienciava um boom no país e no mundo. Esse conhecimento mais tarde guiaria sua escolha de carreira e sua formação como DJ.
Foi justamente pela união entre as duas paixões – tecnologia e forró – que possibilitou o surgimento do DJ Kalango. Danilo já chegou a Juiz de Fora com o apelido calango, que recebeu na adolescência, mas foi aqui que o transformou em identidade artística.
Já no início dos anos 2000, munido de um notebook e o conhecimento de como baixar músicas em uma época em que o acesso à informação ainda não era tão facilitado, Danilo começou a ser chamado para fazer a sonorização de alguns eventos com suas playlists.
“Em 2006, tinha um forró na Rua Halfeld, perto da Igreja São Sebastião, e o produtor do evento me chamou quando a banda que tocaria ao vivo não conseguiu ir”, conta. Ele explica que, na época, não tinha pretensão nenhuma de se tornar DJ, mas acabou tomando gosto pela coisa.
Os eventos foram aparecendo e Danilo começou a buscar cursos on-line sobre mixagem e a profissão de DJ. Foi em um curso sobre a carreira do DJ que ele entendeu que precisaria criar uma identidade própria.
Mixagem própria
No início, ser um DJ de forró causava estranhamento: nos eventos, as pessoas pediam outros estilos e não entendiam muito bem o nicho. Danilo, então, assumiu o título de primeiro DJ de forró de Juiz de Fora com o DJ Kalango. Por isso, buscou criar uma identidade visual marcante, que pudesse comunicar o que faz.
Munido de um chapéu no estilo Gonzaguinha e uma imagem de Luiz Gonzaga, o DJ Kalango chega para os eventos com uma mensagem clara: aqui vai ser só forró. Danilo explica que essa definição foi um divisor de águas em sua carreira e o ajudou a explorar melhor seu nicho.
O DJ realiza tudo sozinho, desde artes para as redes sociais, fechamento de contratos e, claro, a discotecagem. “Vai tudo meio embolado”, confessa. Porém, as diversas funções não parecem pesar para o DJ Kalango, mas, sim, o motivar.
Antes da pandemia, por exemplo, ele conta que chegava a realizar 120 eventos por ano, principalmente entre junho e julho, época dos arraiás. Atualmente, ele realiza menos eventos por ano e de menor escala, mas, mesmo assim, compõem uma agenda de respeito: recentemente, abriu o show de João Gomes em Juiz de Fora, um dos maiores nomes atuais da música brasileira.
O DJ Kalango também já abriu para outros nomes que admira, como Alceu Valença, Elba Ramalho, Zé Ramalho e tantos mais. Dessas experiências, ele lamenta apenas a correria: “É um dia muito corrido e eu fico focado no público e na discotecagem, então nem dá tempo de tietar com os artistas direito, ou de trocar uma ideia”.
O foco no público é uma marca registrada de seu estilo de discotecagem, que é dividido, para Danilo, em dois cenários: no primeiro, utiliza discos de vini – o que requer uma certa preparação antecipada e é preciso imaginar o público. Já no segundo, quando utiliza ferramentas digitais, não há preparação: ele vai de acordo com a energia que recebe do público.
Quando está nas pistas, o DJ Kalango foca completamente no público, criando um set novo na hora de sua apresentação. Com inspirações em DJs como Fabrício Bravim, Vini, DJ Black e outros, Danilo cria um universo próprio com seu imenso repertório de quem entende de forró.
“Não podem faltar Elba Ramalho, Falamansa, Alceu Valença, Trio Dona Zefa e João Gomes”, enumera.
Danilo balanceia, atualmente, sua atuação como DJ, a profissão na área da tecnologia e a família. “Eu só torço para dar certo”, brinca. Com um malabarismo próprio, ele concilia suas diferentes responsabilidades. E nos meses de junho e julho, já há um combinado: “Eles sabem que vão me ver menos”.
*Estagiária sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy

