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Crônicas de bastidores

atualmente no grupo victor dusseau exibe figurino de zico de o senhor dos papeis marcelo ribeiro

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Atualmente no grupo, Victor Dusseau exibe figurino de Zico, de
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Atualmente no grupo, Victor Dusseau exibe figurino de Zico, de “O Senhor dos Papéis’ (Marcelo Ribeiro)

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Alice Freesz foi Mercês na primeira montagem de “Girança”, de 1985 (Marcelo Ribeiro)

Paulo Moraes, no Chicotinho, com spot de iluminação (Marcelo Ribeiro)

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Léa Lignani lembra do figurino usado em “Mary Stuart”, de 1971 (Marcelo Ribeiro)

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Não é só no palco que o Grupo Divulgação tem histórias para contar. Os 50 anos foram escritos também nos bastidores, durante as longas produções que começam cedinho e não têm hora para acabar. Depois que cruza a porta do casarão do Forum da Cultura, cada membro tem uma obrigação a cumprir, seja na confecção do figurino, na construção de cenários, na montagem da iluminação e até mesmo na limpeza. Há quem, inclusive, tome tanto gosto pelas múltiplas funções e se torne tão íntimo do lugar que acaba cultivando um cantinho especial no Chicotinho, um espaço para armazenamento de ferramentas, adereços, spot de iluminação e muitos outros materiais. De tempos em tempos, é preciso partir para a organização do lugar. Para o caso de algum item estar perdido, tem um caderninho que funciona como uma espécie de mapa localizador, mas vale sempre recorrer a José Luiz Ribeiro.

“Ele tem uma memória incrível”, conta a atriz Márcia Falabella, que, na última terça-feira, véspera do início das comemorações, encontrava com velhos e atuais “GDnianos” que lá estavam, a convite da Tribuna, para reviver os momentos em que fizeram parte desse legado construído com os mais de 180 espetáculos e uma rica coleção. Reunidos, estavam Léa Lignani, Alice Freesz, Paulo Moraes, e Victor Dousseau.

O que um

vestido tem para contar

Léa Lignani entrou no teatrinho, espaço que abriga, nos fundos, a sacristia (local reservado para parte dos figurinos), e foi logo lembrando do Balaio de Gato. Esse era um espaço inaugurado lá nos idos da década de 1960, na casa da dona Mariquita, mãe de Malu Ribeiro, para guardar o acervo ainda incipiente, mas que só crescia a cada montagem. Da sua época para cá, quase nada estava igual. O vestido que usou em “Mary Stuart”, peça em que deu vida à protagonista e que a fez ganhar o prêmio de melhor atriz, em 1971, parecia o mesmo, no entanto. Confeccionado com feltro, manga bufante e detalhes dourados, o vestido só não tinha a mesma cor branca.

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“Aquela manga deu muito trabalho para a gente. Ele ficou pronto quase no dia de eu estrear. O pai da Malu era alfaiate, e a mãe, costureira. Eles trabalhavam até às 17h e depois davam o lugar para costurarmos à noite. Todo mundo pegava no pesado. Mas havia aqueles que fugiam do serviço também”, brinca ela, que não escolheu ser atriz. Era bailarina e foi “convencida” por José Luiz. E nos palcos ficou por quase dez anos, de 1968 a 1977. Só deixou de fazer teatro quando Letícia, a primogênita dos três filhos, nasceu.

Para iluminar a carreira

Para cada um, uma função ou um papel. Sempre seguindo as afinidades. Às vésperas de uma estreia, era comum ver Paulo Moraes em cima de uma escada fazendo os ajustes na luz. O Chicotinho, onde convivem spots mais novos e peças adquiridas em 1972, era um espaço sempre familiar a ele. Lugar de aprendizado, como o palco.” Além de eu ter passado pela fase de vencer a timidez, existe o momento de quando me deparei com toda estrutura: iluminação para fazer, cenário para montar, martelar e depois ver tudo pronto. É uma magia contínua de estar criando com todo esse aparato”, conta, em tom saudoso.

“Tive que sair do Divulgação para estudar e trabalhar”, diz ele, que se afastou do Forum da Cultura apenas como ator. Para a sede da companhia, o hoje ator do Grupo T.O.C, produtor e diretor de curta-metragem, sempre retorna como espectador. “O Divulgação é uma escola e carrego a bagagem que adquiri aqui para a vida. Essa bagagem faz diferença quando você se aventura no mundo.”

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Em cartaz,

um marco

Alice Freesz não quis pegar um figurino que seja preferido. Nem pensou num canto cativo do Forum da Cultura. Escolheu o quadro de “Girança”. Com a peça de José Luiz Ribeiro, montada em dois momentos e com elencos diferentes neste meio século, a intérprete de Mercês ganhou o prêmio de melhor atriz em São José de Rio Preto, em 1985. “O Zé estava escrevendo esse texto para o Grupo Magister de Teatro. O elenco era de adolescentes, e eles não se empolgaram com a peça. Ele ficou decepcionado. Lembro como se fosse hoje. Cheguei ao teatro mais cedo, o Zé estava cabisbaixo, não queria falar o que tinha acontecido, mas eu insisti até que ele contou. Fiquei curiosa para ler e o convenci de deixar o Divulgação fazer a leitura”, rememora.

“É um texto visceral, e a aprovação foi unânime. Não teve quem não se comovesse”, destaca Alice, garantindo que, apesar da aparente extroversão, chegou ali extremamente tímida. “Vim até o portão umas quatro vezes e não entrei”, diz ela, então uma menina secundarista, de 17 anos, imbuída de cuidar da sonotécnica. “Não sou perita nisso, sou ruim. Exige muita concentração, conhecimento profundo do espetáculo, e as pessoas acham que é só botar o dedo e pronto. Confesso que não fui feliz ali. Não sei se é por isso ou porque eu era melhor aproveitada no palco que o Zé Luiz nunca mais pensou em nada para mim nesse sentido.”

Assim como Léa, Alice por pouco não completou uma década de Divulgação. “Vi que o tempo estava passando, minha mãe estava envelhencendo, e eu estava muito distante dela. Saí para curtir a família”, diz, trazendo as recordações até mesmo das constantes reprimendas que levava e das produções regadas a pão com salame ou com salpicão. A propósito, ao que se sabe, o lanche inúmeras vezes saboreado nas escadas que levam ao teatro sempre foi disputadíssimo por lá. “Se tinha um pão sobrando e dez pessoas para comer, ele era dividido em dez.”

Produzindo para se produzir

Aos 17 anos, ainda cursando o ensino médio, Victor Dousseau, hoje estudante de jornalismo, ingressou no núcleo de adolescentes do Grupo Divulgação. Ainda estava fresco no grupo quando foi convidado por José Luiz Ribeiro para fazer a sonoplastia de um espetáculo infantil. “Não conhecia nada, mas ter aceitado foi a decisão mais acertada da minha vida”, sentencia o protagonista de “Romeu e Julieta”, apresentado neste sábado, às 20h30, no Forum da Cultura. “Aqui a gente passa por todas as etapas, roda muito, não fica só fazendo palco. Faz bilheteria, produção, recebe o público, atende telefone, e isso é muito humano. Você faz porque gosta, porque tem um carinho, um envolvimento com o que está fazendo”, comenta Dousseau.

“Era um adolescente cheio de certezas e no teatro minhas certezas foram desconstruídas. O teatro me trouxe tudo, principalmente, confiança. Aprendi a errar e acertar, e isso vai nos deixando mais fortes.” Certo de que pertence a uma geração que cada vez mais deixa o Divulgação mais cedo por motivos profissionais e pessoais, Dousseau prefere não pensar na despedida. “Sou tão feliz aqui dentro, tão agraciado com o que o teatro me dá, que não consigo pensar na saída.”

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