Conversa musicada no botequim
Quadriculado como o piso dos bares de Vila Isabel, o chão do palco do Municipal recebeu importantes nomes relendo clássicos deixados por Noel, como Feitio de oração (Marisa Monte) e Com que roupa (Wilson das Neves e Tantinho da Mangueira). A importância não é só a premiação, mas o resgate de artistas que fizeram e fazem esta história, que, hoje, vive um momento ímpar, com tantas discussões a respeito de direitos autorais e divulgação, ressaltou o diretor geral da festa, José Maurício Machline, antes do início da cerimônia, por volta das 21h30.
Um videoclipe para Conversa de botequim recebeu Débora Bloch e Regina Casé que, no tom certo – e quatro trajes cada -, souberam suavizar a formalidade da noite. Noel colaborou muito com a década de 30, deixando mais de 230 composições que são como um pequeno dicionário carioca suburbano, disse Débora. Uma obra sem prazo de validade. Ele é o selo da crônica carioca, refutou Regina.
Noel Rosa, que tinha o sério problema de ser feio mas charmoso, era inteligentemente capaz de estraçalhar corações, como fez com seu grande amor, Ceci, lembrada na canção Último desejo, na voz de Dori e Nana Caymmi. Inspiração do compositor, Ceci é o alvo dos versos da melodia acompanhada pela banda orquestrada por João Carlos Coutinho. Entre tantos outros casos de boemia do astuto rebelde, Regina lembrou da relação que Noel manteve com seu avô, Ademar Casé, com quem o poeta deixou de ser um contra-regra para se tornar uma estrela do rádio.
Completo ainda com um telão no fundo do palco com ilustrações do Rio dos anos 30 e 40, o simples cenário traduziu a maneira despojada com que Noel Rosa firmou tantas parcerias diferentes, como Aracy de Almeida (Araca), sua preferida. Um dos frutos deste encontro foi Pela décima vez, que ganhou a interpretação de Zizi Possi.
Sábio para relacionar a música do asfalto com a poesia dos morros, Noel era o cara que, para não gastar demais, engraxava o sapato que vestia o pé em evidência na cruzada de pernas, o que ele chamava de pé de artista. Tal malandragem ganhou destaque nas vozes de Jô Soares, Aracy Balabanian e Nathalia Timberg, ao leram um texto no final da cerimônia. O encerramento, pouco antes da meia-noite, teve balões caindo do último andar do Municipal e a performance de arlequins, colombinas e pierrôs entre os participantes, que, com uma nota aqui, outra ali, dosaram a noite da música com poesia.
