O contato nem sempre deriva de palavras. Gestos e olhares podem simbolizar muito mais que uma relação, e o que sobra são trocas de sentidos, que, nem sempre, geram significado algum. Principalmente nas artes, os conceitos parecem "não ter bom senso", ainda mais quando o objeto em ação é o improviso. Pelo segundo ano consecutivo, o Circuito Zero Grau (COº) vem para realizar na hora, quebrar a barreira do certo e o errado. Iniciando hoje e seguindo pelas sextas de julho, o festival – que tem o frio do inverno por trás do próprio nome – volta a reunir imagens, sons e sensações que, outra vez, buscam o acaso para produzir signos. Para começar a esquentar o circuito, o Tromba d’Água – Vídeo Experimental propõe uma "enxurrada" de imagens no Diversão & Arte Espaço Cultural, com trabalhos de criadores locais, como Rogério Terra, e videoartistas de São Paulo (Ciça Lucchesi e Carol Nogueira), Rio (Eveline Cunha, Cristian Caselli e Guilherme Whitaker) e Belo Horizonte (Igor Amin e Carlos Magno).
"Cada semana divulgaremos a atração da sexta respectiva. Hoje, vamos começar em nossa casa (Diversão & Arte), mas depois vamos dar uma voltinha", informa o produtor Pedro Salim. "Há cinco anos, quando aconteceu o primeiro Tromba (d’Água – fora do Zero Grau), havia uma projeção na parede e o resto em vídeo. Agora é diferente. Temos mais gente participando, videoartistas mais experientes, que atuam no circuito mais desenvolvido do setor", ressalta Salim, espécie de curador da mostra que, com o apoio do Espaço Três Pontos e do Coletivo Epinefrina, começa às 19h.
Segundo ele, o objetivo é buscar nas parcerias a valorização do público e o envolvimento da classe na construção de uma identidade costurada por ideias, ações e coletivos. "A partir deste formato, o COº pretende integrar todos os interessados em construir um festival de inverno público em Juiz de Fora que, por meio de mais diálogo com a trinca Rio-São Paulo-Belo Horizonte, pode se tornar um polo de videoarte no Brasil e no mundo", diz Salim, confirmando que o que mais importa é o conceito base do festival, cuja "enxurrada" de imagens agrega também outras áreas, como a pintura. "Criar a circulação da arte contribui para a cidade estar mais conectada. É abrir as portas e esticar os braços."
Durante o Tromba d’Água, além das "performances live", haverá ainda show da banda Radiola na vizinha Boutique dos Sabores, saraus, fotos e exposições diversas no Diversão & Arte, como a "Linha do trem", do ilustrador juiz-forano Raphael Salimena. "Com a internet, os quadrinhos ficaram mais na cara de todo mundo, de uns cinco anos para cá, chamando a atenção de muito mais gente. Muitas publicações divulgadas em jornais e revistas vão além dos mangás e dos super-heróis", ele observa, adiantando que vai apresentar trabalhos feitos no início da carreira, em 2006, e obras mais recentes, a maioria arquivada no site www.linhadotrem.com.br.
Uma das 25 novas promessas da cultura quadrinista, Salimena já tem projetos publicados na revista "Mad", parceria com nomes como Ziraldo e Maurício de Souza e, recentemente, uma série inédita sobre zumbis no portal IG e trabalhos na revista "Sexy". "É um trabalho plural, uma experiência de levar sua obra para outros lugares. E o caráter é experimental mesmo, afinal, hoje estou mais preguiçoso, com uma linha mais presa a determinados estilos. Talvez seja a tal pressão da profissionalização", diz.
Encontro às escuras
Por e-mail, a videoartista paulista Ciça Lucchesi e o DJ local Pedro Paiva (Vinil é Arte) trocaram impressões preliminares sobre suas respectivas atuações. Durante a Tromba d’Água desta sexta, Ciça realizará um "laboratório colaborativo" junto a outros artistas do Coletivo Epinefrina e a sonoplastia de Paiva, mas ambos nunca se viram. "Ela me deu uma base do seu trabalho, conceitual, sem lista de buscas", ele afirma. "A ideia é explorar o som da música orquestrada, o jazz, pois ela vai usar projeções em imagens não produzidas", adianta.
Sem nunca ter estado por aqui, Ciça pretende estrear na cidade como gosta, "no escuro". "Passei para ele (Pedro Paiva) que estou planejando que todo mundo junto deve desenvolver um sistema de criar imagens a partir do nada", ela diz. "Quando as pessoas chegarem, não verão nada, e quem é da performance vai atuar, quem é da câmera vai registrar, e eu vou derivando esta mistura para que o resultado final seja exibido no telão, no qual não passará imagem de arquivo, só as geradas no momento, sem previsão", arremata Ciça, que, na última terça, enquanto falava, por telefone, com a Tribuna, se preparava para atuar junto ao músico e escritor José Miguel Wisnik na abertura da Flip 2011.
Responsável pela junção de diferentes formas de interação com a arte dos sentidos, Pedro Salim acredita que, este ano, mais vídeos por artistas serão exibidos, embora, de acordo com ele, a curadoria não tenha adotado critério deliberadamente específico. "Fiz o convite a quem conheço de fora e daqui para mostrar trabalhos já consolidados, mas qualquer um que quiser participar com um vídeo de celular, por exemplo, está aberto", avisa, refutando, somente, contra ficção, documentário ou videoclipe.
Mais cedo, a partir das 15h, ele anuncia que duas oficinas serão oferecidas gratuitamente. A massoterapeuta Polyana Ribeiro trabalhará com massagem relaxante no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (Av. Getúlio Vargas 200), enquanto a professora de artes Priscilla de Paula atuará com guerrilha e intervenção urbana na Praça Antônio Carlos.
