O trabalho de Carolina é minucioso. São necessárias horas de dedicação e paciência. Aos poucos, a massa de modelar vai tomando forma, e, a partir de alterações sutis, cuidadosamente fotografadas e organizadas em sequência, os personagens criados ganham vida na tela do celular. O interesse de Carolina Magalhães, 12 anos, por animações cresceu com o acervo da videoteca da família. Sempre gostei muito de cinema e desenhos. E o modo como é feito o desenho de massinha me chamou a atenção, conta. A partir daí, os vídeos da internet foram aliados na construção das animações caseiras.
Carolina é apenas um dos exemplos de crianças e jovens que utilizam os acessíveis novos equipamentos eletrônicos como meios de produção de vídeos. Basta a eles um celular ou uma máquina fotográfica digital para contar histórias e reinventar a realidade. E as etapas de produção podem ir além das gravações. Programas simples de edição e postagem das imagens na internet facilitam a finalização e o compartilhamento do material caseiro produzido pelos pequenos.
Assim como Carolina, Victor Soares, de 19 anos, cresceu cercado por filmes e câmeras. Interessando-se pelos trabalhos do pai, repórter cinematográfico, já na infância o adolescente auxiliava nas produções, que iam de reportagens jornalísticas a seleções de elenco para campanhas publicitárias. Em seguida, filmes de ficção – que contavam com a colaboração dos amigos – e canais de vídeo na web deram continuidade às produções do jovem, que passou a ver nas brincadeiras uma possibilidade profissional.
Hoje, ele faz parte da Associação Mineira de Audiovisual (Amav), coletiva de produtoras da área, e, neste ano, embarca para a New York Film Academy, escola de especialização em cinema e interpretação, em Los Angeles, Estados Unidos. Farei um curso geral sobre cinema, mas quero me especializar em roteiro e atuação, explica Victor.
Mais que uma opção de entretenimento aos pequenos, que, como Carolina e Victor, adoram cinema, o novo projeto do Museu Ferroviário – Estação Arte, em funcionamento há um mês, traz aprendizagem e debate sobre a história dos gêneros cinematográficos. Por meio de dinâmicas de grupo e exibições de filmes temáticos, os sócios do Cineclubinho participam da produção de vídeos caseiros, passeando, a cada semana, pelas diferentes etapas da criação audiovisual. Temos pouco conhecimento de projetos dessa linha, que não apenas exibem filmes, mas incentivam o processo criativo, explica a coordenadora do museu e mestre em comunicação, Raphaela Corrêa, que assina o projeto ao lado do técnico audiovisual do espaço, Marco Aurélio de Assis. A estudante do Instituto de Artes e Design da UFJF e monitora de cinema, Ísis Reis, é responsável pela parte teórica e pelo auxílio dos pequenos em todas as fases do projeto, desenvolvido durante todo o ano.
O aproveitamento do espaço do museu, localizado ao lado da histórica Praça da Estação, conta com auditório de exibição, além de uma ampla sala multimeios. Queremos que eles se divirtam, mas que haja um aprendizado, que seja passada uma mensagem como, por exemplo, a preservação do patrimônio histórico e cultural de Juiz de Fora e a valorização do museu, explica Raphaela.
Primeiros passos
no cinema
Vinte crianças, entre 7 e 12 anos, se mostraram ansiosas em ter a carteirinha de sócio do Cineclubinho nas mãos logo no primeiro encontro, acompanhado pela Tribuna no dia 2 de março. Diante da pergunta de Raphaela na conversa inicial -o que vocês acham que vamos fazer aqui? -, a jovem Beatriz, de 8 anos, não demonstrou dúvidas: Aprender a fazer cinema!. À medida em que vão aparecendo nas discussões, os conceitos específicos, como figurante e roteirista, são esclarecidos pelos monitores. Os métodos são logo aprovados pela Carolina, a cineasta das animações de massinha. É bacana aprender sobre cinema. Como surgiu, como os filmes são feitos, essas coisas…, conta.
As primeiras exibições do projeto foram exemplos de vídeos caseiros, produzidos por crianças e jovens, e postados na internet. A sessão é um incentivo aos membros do clube, que, ao ser apresentados aos filmes mudos, puderam selecionar as obras assistidas no encontro do dia 16 de março. Foram exibidos em um projetor Super 8 as animações Tom & Jerry e Andy Panda, ambos de 1940, e o longa-metragem O garoto, dirigido por Charles Chaplin, em 1921. Para Raphaela, a escolha surgiu da curiosidade que os instrumentos de projeção antigos despertaram nas crianças.
Para estimular ainda mais a curiosidade dos pequenos, foi apresentada a eles a produção que assustou os espectadores em sua primeira exibição em Paris, em 1895, O trem chega à estação, dos irmãos Lumière, primeiras imagens cinematográficas que se tem notícia. No próximo encontro, serão colocados em prática os novos conceitos sobre diferentes planos de filmagem. Além disso, as imagens dos irmãos Lumière serviram de inspiração a uma novo roteiro e ganharão nova versão, contando com tomadas na Praça da Estação.Não existiria lugar melhor para contar esta história que o Museu Ferroviário, conclui Raphaela.
