Captar aquilo que está explícito, mas nem sempre é notado também é uma das habilidades dos fotógrafos. Com olhar atento e vontade de experimentar resultados diferentes, o fotógrafo capixaba Antônio Cuzzuol resolveu partir desse ideal para encontrar imagens aparentemente incomuns. A brincadeira, segundo ele, pode ser testada por qualquer um que se dedique a observar com mais cuidado as cenas cotidianas. Esse formato é trazido a Juiz de Fora por ele e apresentado ao público hoje, quando o fotógrafo conduzirá a palestra Semi transparências e sombras, às 20h, no Espaço Experimental Nina Mello, abrindo a exposição Translucence, que reúne 18 fotografias de sua autoria e fica em cartaz até o dia 27 de maio.
Conforme Cuzzuol, as imagens que compõem a mostra são digitais, foram produzidas sem flash em diversas épocas e ocasiões. Cada uma tem uma história calcada na espontaneidade e traz consigo memórias do espaço visitado, seja na Itália ou no Brasil. Ele acredita que as novas tecnologias possibilitam trabalho mais dedicado e busca pelo aprimoramento constante. Gosto de observar o que proporcionou bom resultado e o que não ficou legal, pensar o que posso melhorar, refazer, avaliar de novo. Acho interessante esse processo de experimentação que é possibilitado pelas câmeras digitais. Antes, você só sabia qual era o resultado final depois da revelação.
Com o curador Lincoln Guimarães, Cuzzuol selecionou as fotos que foram impressas em jato de tinta sobre papel fibra de algodão. O intuito é garantir mais qualidade e, em alguns casos, permitir que o resultado se aproxime de uma pintura. É uma impressão museológica que não tem a interferência do brilho do papel fotográfico. Ao borrar um pouco a imagem, deixar o diafragma mais aberto, brincar com a velocidade de captura e usar coisas que seriam erro para atingir propostas ?mais atrativas, o fotógrafo objetivou o olhar diferenciado sobre o comum. Assim, brinca com a ideia do translúcido e da passagem de luz, para propor sua Translucence.
Ao produzir as fotos selecionadas, usei de alguma obstrução à passagem da luz, com efeitos de translucidez. Chegamos então ao nome ‘translucence’, que tangencia a sonoridade do latim ‘translucentia’. Por isso, as fotografias da exposição usam as sombras que seriam escondidas para compor, sendo que algumas delas deixam transparecer o que está por trás. Pode parecer que apliquei aqueles filtros dos programas de edição de imagens, mas isso não foi feito. Não manipulo nem interfiro na fotografia, mas essa confusão acaba deixando claro que consegui atingir um pouco do que pretendia.
Da paixão à profissão
O capixaba Antônio Cuzzuol é economista por formação, mas foi na fotografia que encontrou seu norte. Sempre tive atração por imagens, seja pintura ou fotografia, e fazia fotos como amador. A partir de avaliações positivas, comecei a pensar em levar a sério essa aptidão. Atuar profissionalmente foi consequência e ocorreu quando eu já tinha 40 anos, afirma o fotógrafo que hoje está com 55. Ao perceber que os cursos de curta duração não eram suficientes para que se lançasse no mercado, partiu para Roma (Itália) em busca de estudo. Talvez tenha vindo de lá a vivência mais profunda do vínculo com a arte.
Experiente na área da fotografia publicitária, Cuzzuol também circula pelo artístico-autoral, que é o que vem demonstrar na cidade. Entre os assuntos que o expositor vai abordar, está a relação e o distanciamento entre a fotografia publicitária e a artística. A foto publicitária é feita explícita ou subliminarmente para vender um produto, é utilitária. Não pode prescindir dos elementos estéticos, e tangencia a ideia do artístico, mas não acho que tenha essa finalidade, pois é algo encomendado, determinado, em que o fotógrafo não pode mais trabalhar tanto a sua criatividade. Já o trabalho puramente vinculado à arte, segundo Cuzzuol, transmite mais liberdade de criação, é feito sem regras e segundo propostas do próprio autor.
