Elas são fortes porque, com sensibilidade, resistiram às truculências da ditadura militar, formando uma força conjunta. São fortes porque, com delicadeza, cultivam flores que servem de motor para a economia de uma pequena cidade. São fortes porque, com energia, lutam para que as paternidades sejam reconhecidas e honradas. São fortes porque, com coragem, assumem uma doença incurável na esperança de que outras histórias não sejam contaminadas pelo vírus. São fortes porque, com fé, despistam hematomas para enfrentar a violência cotidiana. São fortes porque, com plumas e paetês, desfilam seus corpos, seus gingados e suas alegrias para formar a marca da maior festa do país. Elas são fortes porque são brasileiras num país ainda dominado pelo machista.
Na 3ª Mostra de Documentários sobre o Universo Feminino, “Mulher.doc”, que estreia nesta terça-feira, na videoteca do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, seis documentários revelam diferentes faces da brasileira, do campo aos presídios. Apresentados até o próximo dia 18, com duas exibições no Centro de Esportes e Lazer da Zona Norte, os filmes celebram o Dia Internacional da Mulher, jogando luzes para discursos de luta, como os da cineasta Susanna Lira, que participa com quatro das seis produções. “Este ano, quisemos homenagear a Susanna, que fala muito bem sobre o universo feminino”, confirma a organizadora do evento, a jornalista Denise Zaghetto.
Em tempos de uma presença inédita das mulheres nas direções e protagonismos de filmes nacionais, “Mulher.doc” serve como amostra de uma produção ampla, que responde, sobretudo, à pergunta “o que é ser mulher no Brasil contemporâneo?”. Segundo Denise, a escolha das obras se deu, principalmente, pelas autorias. “Tanto a produtora Modo Operante, da Susanna Lira, quanto a Voglia Produções se mostraram interessadas e disponíveis para participarem da mostra”, diz, ressaltando a noção de urgência que existe em cada narrativa. “‘Silêncio das inocentes’ e ‘Positivas’ trazem questões muito presentes e mascaradas socialmente. Tanto que tentamos inserir em todas as edições da mostra”, completa.
Mais que corpo
Jornalista, publicitária e pós-graduada em direitos humanos, Susanna Lira fez de sua produção – atuando no cinema e em séries para TV – um grande panfleto pela libertação feminina. Em “Damas do samba”, documentário que abre a mostra, a cineasta investiga uma imagem para além da mulata nua na avenida. “Sempre me incomodou muito essa visão do carnaval em que a mulher é considerada um objeto, apenas um corpo para ser apreciado. A mulher é obviamente muito mais do que isso, e sua importância para o samba é gigante. Histórias como as da Tia Ciata e da Dona Zica, por exemplo, mostram bem como o samba não existiria sem a mão das mulheres”, defende a diretora em entrevista para “O Globo” sobre a produção que recebeu menção honrosa no Festival do Rio de 2013.
Autora do chocante “Positivas”, Susanna conta histórias de mulheres que, casadas e fiéis, contraíram HIV dos maridos. Já “Porque temos esperança” retrata o dia a dia de Marli, uma pernambucana que vive a percorrer presídios de Recife, buscando o reconhecimento dos filhos de pais presos. Histórico, “Torre das donzelas” resgata o drama de um grupo de presas políticas que ocupou uma mesma cela no presídio Tiradentes durante os anos de chumbo. dentre elas, estava a presidente Dilma Roussef, que em sua posse em 2012, recebeu emocionada as colegas em cena registrada por Susanna. “A mulher tem na essência a força, a luta por transformar os ambientes em que transita. Em qualquer lugar do mundo age assim”, pontua Denise Zaghetto.
No brejo paraibano, as 21 mulheres de “Flores de Pilões” contam como trocaram o corte da cana-de-açúcar pelo cultivo de flores, criando uma cooperativa de premiada nacional e internacionalmente. Recuperando a formatação da Lei Maria da Penha, entrevistando a mulher que dá nome à conquista, o filme de Ique Gazzola, “Silêncio das inocentes”, discute o sistema judiciário brasileiro sob a ótica feminina. Dessa forma, posta todas essas propostas cinematográficas, a mostra se faz como o discurso da cineasta Susanna Lira, que diz “meu trabalho é minha militância”. Juntos, os filmes pintam uma bandeira. “A mulher é a força motriz da sociedade. Cuida da casa, da família e do trabalho. Lida em todas as direções”, exalta Zaghetto.
Conscientizadores e, acima de tudo, esclarecedores, os documentários propõem uma nova leitura da sociedade, sem esquemas pré-concebidos e, por isso, retrógrados. Induzem a uma divisão que não passa pelo azul versus rosa, mas humanos e não-humanos. Nessa corrente, a organizadora Denise Zaghetto anuncia a longevidade do projeto: “Uma vez por mês, vamos exibir outros documentários, de outras produtoras, de maneira gratuita em Juiz de Fora. A ideia é ampliar a ação e atingir cada vez mais pessoas”. Filmes sobre mulheres feitos não apenas para mulheres, mas para gente, para um mundo menos desigual.

