Essa semana, as redes sociais viraram palco de uma guerra conhecida: roqueiros versus populares. O novo embate foi desencadeado pela matéria de capa da revista "Época" (2 de janeiro de 2002), que trouxe o cantor Michel Teló, nascido Medianeira, no Paraná, como a "tradução do valor da cultura popular para todas as classes". Uma das reações mais truculentas veio do blog "Literatortura", que dedicou dois posts ao tema, sugerido pelo sucesso estrondoso do hit "Ai se eu te pego (assim você me mata)". Como trouxe artigo publicado no blog, a temática das músicas pop no exterior é, muitas vezes, a "mesmíssima" da de Teló: uma balada. "E brasileiro gosta de festa (só não sabe disso quem hiberna em fevereiro)", dizia um trecho. Lançada em single e também no segundo álbum do cantor, "Michel na balada", a canção foi uma das mais tocadas em todo o mês de dezembro em todos os estados do país, de acordo com o ranking da revista "Billboard Brasil" de dezembro.
O "estouro", como definiu a revista "Forbes", ganhou evidência nas rádios mundiais, onde a música, inclusive, se tornou o hit número um no iTunes (loja virtual de comercialização da Apple) de países como Portugal, Itália, Espanha, Alemanha, Polônia, Argentina, Chile, Colômbia e Peru. Bruno Medina, tecladista do Los Hermanos, aguçou a polêmica ao postar uma "Carta aberta a Michel Teló" em seu blog, hospedado no portal "G1", tornando-se um dos assuntos mais recorrentes do Twitter em todo o mundo. Na última quarta, Medina cutucou a ferida e comparou o sucesso de "Ai se eu te pego" com o de "Anna Júlia"."É estranho, e ao mesmo tempo fascinante, quando uma música nossa passa a fazer parte assim da vida das pessoas, né?" O comentário acabou despertando o dragão da nostalgia e chamando a atenção da cena da música independente, obtendo mais de 432 mil tweets.
Na quinta, o "Bom dia Brasil" registrou o momento de um show em Florianópolis (SC) em que Teló deixou o palco e foi ao camarote para cantar o hit com o jogador Neymar, do Santos. Dois dias antes, o mesmo telejornal destacou o flagrante de paraquedistas de uma unidade de elite das forças de defesa de Israel requebrando com o sucesso sertanejo.
Alguns sites especializados em música dizem que a canção estourou no mundo inteiro por "culpa" dos jogadores brasileiros que atuam na Europa e comemoram os gols fazendo a coreografia da canção, lição aprendida por atletas como Cristiano Ronaldo (Portugal) do Real Madrid, o tenista número dois do mundo, Rafael Nadal (Espanha), e o jogador de basquete Denver Nuggets (EUA). Efêmera ou não, a música tomou o último Réveillon no Brasil. Aliás, o hit teve um 2011 invejável no mercado. A razão de tamanha conquista? Primeiro o marketing visual. O artista, 30 anos, deixou as botas e calças justas com cintos afivelados trancados no armário e aderiu a moda urbana para empurrar seu sertanejo para as pistas de dança da classe média das grandes cidades. "Teló nasce num segmento da sociedade que se legitimou perante a elite e tem seu nicho de mercado", sublinhou a socióloga Heloísa Buarque de Hollanda à revista "Época". Cerca de 4,5 milhões de pessoas assistiram aos 220 shows de Michel Teló no último ano, com média de 20 mil pessoas por apresentação. A "Forbes" estima ainda que o músico tenha faturado US$ 18 milhões (cerca de R$ 33 milhões) nos últimos 12 meses. Foram 200 horas dentro de um avião. O país inteiro cantou e dançou com ele, comprovando que a história do paranaense é a radiografia da chancela do sucesso na era das redes sociais.
Fenômeno da web
O texto "A época do bom senso já passou", da "Literatortura", repercutiu no Facebook, atraindo observações consonantes. "Tomara que ‘Garota de Ipanema’ continue sendo a música brasileira mais tocada lá fora. Essa é a imagem que eu mais gosto do meu país. Até porque fica muito mais bonito quando o ‘mundo inteirinho se enche de graça’, do que essa ‘pegação’", postou um percussionista da cidade.
A revista "Época" informou que, enquanto Teló se apresentava no "Domingão do Faustão" (18 de dezembro), "Ai, se eu te pego" atingia a marca de 80 milhões de acessos no YouTube (até o último dia 28, esse número chegou a 93 milhões). "É uma das músicas brasileiras mais acessadas na história do YouTube, lidera a audiência na Espanha e chegou ao Natal como o sétimo vídeo musical mais visto do planeta", informou o periódico.
E não para por aí. O novo disco do cantor, como consta no site da gravadora Som Livre, vendeu 68 mil cópias em 15 dias, nos formatos CD e DVD. Seu cachê dobrou nos últimos três meses e está, de acordo com a "Forbes", em torno de R$ 150 mil. Podendo melhorar.
Na França, o single "Ai se eu te pego" está disponível para download legal por 1,29 euros. A rádio francesa "NRJ", voltada ao público jovem, aposta na música que tem sido executada com frequência na programação. Para os produtores da rádio, conforme informações do site da Universal Music, "o ritmo é contagiante e os arranjos que misturam sanfona e guitarra dão uma vontade incontrolável de rebolar". Mas a relação da França com hits de verão criados por músicos brasileiros parece histórica, como já acontecera com a lambada "Chorando se foi", do Kaoma, e "Tic tic tac" do Carrapicho, ambas nos anos 1990. Para o site especializado em paradas musicais "Charts in France", Michel Teló traz o "calor do Brasil". O cantor também é associado a outros clichês como "a alegria e a vocação natural para a dança do povo brasileiro".
"Sabe o nome disso? Pacto com o capeta", postou um jornalista local no Facebook sobre o sucesso de Teló, já traduzido para idiomas como inglês, polonês, grego e hebraico, de acordo com a "Forbes". "Passou da hora de o mundo acabar", opinou uma cantora, referindo-se ao mesmo post e referendando que, a despeito das críticas, Michel Teló "pegou".
Toque de Midas
Originalmente um forró dos baianos Sharon Acioly e Antonio Dyggs, adaptado para o ritmo de "batidão" sertanejo, "Ai, se eu te pego" até parece a "Macarena do século XXI". Alex Cunha, proprietário do "Jornal do Sol", de Porto Seguro (BA), conta que tudo começou na praia, próximo à barraca Toatoa, durante uma animação para turistas. "Sharon brincava com a plateia dizendo ‘que delícia, ah se eu te pego’. Michel Teló, ao ser seduzido pelos versos, firmou uma parceria com ela e, de acordo com relatos da própria, os direitos autorais renderam mais de R$ 300 mil", conta o jornalista.
Por outro lado, há quem contra-argumente sobre a explosão dessa mistura de forró nordestino com vanerão gaúcho. "O fato de a canção aparecer como a mais baixada via iTunes não significa que ele (Michel Teló) conquistou a Europa. Isso só fez com que a mídia empolgada (ou comprada) exagerasse o sucesso do cantor", disparou o jornalista e crítico musical Claudio Campos, em publicação no portal de notícias "Bagari". O contraponto maior, no entanto, é com relação ao que Campos considera como ranking. "A "Billboard", desde 1950, é ainda a mediadora de sucesso de um artista, reconhecida mundialmente, utilizando listagens como o ranking ‘Hot 100’, que elenca os singles mais vendidos. Michel Teló passa longe da lista dos singles ‘Top 100’. Apenas no final de dezembro ele conseguiu chegar ao 12º lugar na ‘Billboard Europe Top 100 Chart’", assegura. "Sua grande exposição na mídia tem ajudado, e, claro, a quantidade de shows que tem feito de Norte a Sul do país. Se ele representa bem a música brasileira lá fora é outra questão, mas pelo menos ele compõe, canta, toca e dança muito bem, dentro, é claro, de sua proposta musical. O resto é questão de gosto", finaliza.
Em sua carta, Bruno Medina (Los Hermanos) chegou ao extremo em afirmar que "o hit sertanejo se apoderou de seu cérebro tal qual o Exército americano fez com o território afegão em sua cruzada antiterrorismo" e, com ironia, desejou sucesso para a turnê de Teló em 2012. "Dá próxima vez que gravar uma música, em prol da sanidade mental de milhões de pessoas, por favor, considere não criar ‘dancinhas’", escreveu Medina para finalizar seu post dedicado a Michel Teló e a seu toque de Midas para transformar música em ouro.
