Divulgada na última quarta, a lista de contemplados no Fundo da Biblioteca Nacional (FBN) conta com o nome de cinco instituições de Juiz de Fora, incluindo as bibliotecas municipais Murilo Mendes (BMMM) e Delfina Fonseca Lima, que receberão juntas R$ 88 mil em recursos para a aquisição de novas obras. As expectativas se voltam, também, para a verba de R$ 115 mil (mais R$ 28 mil de contrapartida da Prefeitura) do Ministério da Cultura (MinC), através do Edital Mais Cultura de Apoio às Bibliotecas Públicas. A previsão é de que o dinheiro amenize uma reclamação recorrente dos usuários, a escassez de lançamentos e obras mais atualizadas nas estantes dessas instituições.
A Tribuna preparou uma lista, contendo vencedores do Troféu Jabuti (o principal prêmio literário do país) entre 2008 e 2011 e títulos presentes entre os mais vendidos em 2011 da revista "Veja" (nas categorias ficção e não-ficção). Dos 17 títulos em questão, apenas cinco estavam disponíveis na Biblioteca Murilo Mendes.
Há perspectiva de aquisição de quase nove mil livros com o recurso do FNB e outros 1.500 com a verba do MinC. Porém, nem tudo é perfeito. Conforme o edital da Fundação Biblioteca Nacional, o uso dos R$ 88 mil está sujeito à lista de obras presentes no Cadastro Nacional de Livros de Baixo Preço, reservada para edições que custam, no máximo, R$ 10. Nessa faixa de preço, muitos dos lançamentos do mercado editorial continuarão fora do alcance dos usuários, com louváveis exceções.
Em geral, as instituições do setor dependem, sobretudo, de doações. Juntas, as Biblioteca Murilo Mendes e a Delfina conservam um acervo de 70 mil livros, registrando cerca de 1.900 empréstimos mensais. Quase sete mil volumes desse total foram incorporados à coleção dessa forma nos últimos três anos. Antes de chegarem às prateleiras, os títulos passam por uma triagem com intuito de selecionar os livros que interessam ao acervo.
Segundo o diretor da Biblioteca Municipal Murilo Mendes, Vanderlei Tomás, um formulário aplicado entre os usuários tem funcionado como canal de identificação de obras necessárias para o acervo. Embora reconheça que a demanda não chega a ser atendida em sua totalidade, Vanderlei afirma que muitos desses títulos chegam à biblioteca por meio de doações em um período relativamente curto. "Boa parte do que é procurado no Setor de Empréstimo acaba por aparecer nas estantes por meio de doações, que continuaremos a incentivar".
Outra iniciativa para abastecer as estantes está nas doações vinculadas à troca de ingressos para eventos da Funalfa. Segundo Vanderlei Tomás, a Feira de Trocas de Livros, realizada em outubro, garantiu 183 novos títulos para a instituição. O diretor da BMMM sinaliza ainda com a expectativa das verbas do FNB e do MinC. "Sabemos que as doações não bastam, mas acreditamos que os recursos que temos em vista, como os da Fundação Biblioteca Nacional e do Minestério da Cultura, certamente, resolverão esta procura", afirma o diretor, que estima a compra de quase nove mil títulos de baixo custo, com a verba do FBN, e outros 1.500 livros com o dinheiro do MinC, entre obras de ficção, não ficção, infanto-juvenil e referência.
Desde meados da década de 1990, o escritor juiz-forano Affonso Romano de Sant’Anna tem feito doações periódicas à Biblioteca Municipal. Os títulos repassados pelo autor têm constituído uma das formas de renovação do acervo. Um dos intermediadores desse processo, o pesquisador Jorge Sanglard aponta a falta de uma sistemática, a longo prazo, para a aquisição de livros, um problema que persiste há várias décadas. "Desde a criação do novo prédio, na Praça da Antônio Carlos, a preocupação principal é a de garantir um espaço moderno para a biblioteca. Mas, nesse tempo, não houve perspectivas de uma política de acervo. Sem isso, a instituição fica refém da defasagem dos títulos."
Ex-diretora da Biblioteca Murilo Mendes, a bibliotecária Lygia Toledo defende maior autonomia para as bibliotecas, obedecendo a uma política de desenvolvimento de acervo previamente definida. "Não concordo com a ideia de que uma biblioteca pública de qualidade deva estar permanentemente dependendo de doações, muito embora elas sejam válidas sim, mas dentro de um critério, algo que já é usado pela Biblioteca Municipal."
A bibliotecária pondera, por outro lado, para a necessidade de equilíbrio entre o que os frequentadores querem e o acervo que eles, de fato, precisariam. "Acervo de biblioteca pública tem que ser diferente de biblioteca escolar. E, mesmo em biblioteca escolar, quanto mais se expandir para obras diversificadas, tanto mais se irá garantir a conquista de um leitor para toda a vida, e não só para o período escolar."
Além das Biblioteca Municipal e de sua sucursal em Benfica, a Prefeitura de Juiz de Fora receberá R$ 24 mil para aquisição de livros conforme as regras do FNB. Outras duas instituições da cidade foram contempladas: a Biblioteca Redentorista, no Morro da Glória, e a comunitária Clube da Leitura, localizada na Cidade Alta (ambas com R$ 4 mil).
A realidade para as bibliotecas em comunidades, aliás, é ainda mais dura. Além da dificuldade de adquirir livros, voluntários convivem com a falta de estrutura. A Casa de Cultura Evaílton Vilela, no Bairro Santa Efigênia, enquadra-se nesse caso. Apesar de contar com mais de três mil livros recebidos por meio de doações, grande parte dos títulos da entidade permanece encaixotado por falta de espaço para disponibilização aos usuários. "Precisamos de uma área para que possamos construir um local adequado", comenta o coordenador do espaço, Negro Bússola.
Sem condições de adquirir títulos mais atuais ou convênios que garantam a renovação constante do acervo, o líder comunitário cita as dificuldades encontradas em um concurso de redação realizado no ano passado. Segundo Bússola, as crianças não tiveram como recorrer a referências bibliográficas para o tema proposto, "os malefícios do crack", uma vez que não havia nenhum livro sobre o assunto na coleção disponível. "Entendo o incentivo à leitura como um trabalho de conquista, algo que fica difícil com nossa limitação em temas contemporâneos. Sem acesso ao livro, a classe C tem que se satisfazer com aquilo que as novelas vendem", conclui.
