
Tuka e Central: paixão antiga e ainda não realizada
Algumas pessoas parecem ostentar na própria aparência toda a sua história. Não passa de uma impressão. Há sempre uma complexidade invisível aos olhos. Estou em uma loja apinhada de discos e camisas de rock. Uma placa na parede alerta, em inglês: “Enter at your own risk” (entre por sua conta e risco). Diante de mim, um homem de longos cabelos brancos, 49 anos, vestindo uma camisa preta da banda Whitesnake, pulseiras e bota de couro. Um roqueiro. Mas não só isso. Douglas Esterce, o Tuka, é o resultado de tudo o que, ao som do rock, conseguiu superar para me dizer, sorrindo: “Sabia que a vida seria muito difícil, então tive que achar um caminho do bem. A música é minha mãe, e o pai é o rock’n’roll”.
Quando garoto, só pensava em jogar bola no Mundo Novo, bairro onde nasceu. Ao entrar para o quartel, acabou sendo fisgado. “Naquela época, não havia essas porcarias que temos hoje, e a gente ouvia AC/DC, Led Zeppelin, e pintou a chance de ir ao Rock in Rio. A gente capinava ouvindo AC/DC. O capitão ainda brincou comigo: ‘Olha, vai ter que pôr uma peruca, porque com esse cabelo raspado não dá, alguém vai te bater lá’. Eu não tinha como ir, não tinha dinheiro, mas o pai de um amigo meu tinha comprado dois ingressos. No dia, quando eu estava tristão, ele me chamou. Chegando lá, vi aquele montão de gente, e parecia uma grande família. Era quase que uma religião, um momento ápice para ver uma banda que achávamos que nunca veríamos. Quando pintou o Whitesnake no palco, aí danou de vez. Falei: ‘Quero ser igual a esse cara'”, conta, com o dia exato guardado na memória: 19 de janeiro de 1985.
Foi punk!
Um dos mais magros entre os nove irmãos, daí o apelido de Tuka (com uma americanizada), o jovem de 15 anos viu o pai, que era bicheiro, ser assassinado. “Ele teve uma vida problemática, mas era uma pessoa muito inteligente. Era um bom pai, amoroso e sempre educou muito a gente. Talvez não gostasse do meu estilo hoje, porque era caretão”, diz ele, pai de um advogado de 24 anos, de uma estudante de 19 e outro, que não conhece. Há 13, 14 anos, Tuka envolveu-se com uma mulher e soube da gravidez. “Falei com ela: ‘Você sabe onde moro, onde é a loja, e filho meu não passa perrengue’. Ela disse que não precisava e foi embora”, lembra, acreditando chamar-se Arthur o garoto. Os cabelos, sempre longos desde que deixou o quartel, nunca transmitiram grande confiança. Tanto é que foi expulso de casa quando tinha cerca de 20 anos. “Fui para a rua, mas tive muita gente para me ajudar. Ia para a casa dos outros e lavava banheiro, fazia o que era preciso, porque não tinha como trabalhar”, recorda-se. Aquele um mês em que foi obrigado a perambular pela cidade lhe rendeu 25 anos afastado da mãe. “Quando fiz um show no Pró-Música, e ela foi, ficamos bem. Hoje ela tem orgulho de mim”, afirma.
Da praia à loja
Depois da rua, surgiu-lhe a oportunidade de vender camisas de rock. “Sou bom de vendas. Saía para vender, ficava ouvindo rock’n’roll na praia e ganhando dinheiro”, conta. Ele e um amigo foram, durante 12 anos, para as praias de Guarapari e Piúma vender camisas. Em Juiz de Fora, Tuka vendia em shows de rock e exposições. “O Chapolin me ajudou muito. Chegava a vender 30 camisas por dia em época de carnaval”, brinca. Depois tornou-se vendedor na loja da qual hoje é proprietário, no Centro de Juiz de Fora. “Eu guardava dinheiro desde sempre. Um dia, quando o dono quis vender, comprei”, conta. Empreendedor, agora tem outra loja em sociedade no Santa Cruz Shopping, uma produtora para fazer shows, em sua maioria beneficentes, e o Tuka’s Tour, que leva fãs aos shows de rock pelo Brasil. Nesta segunda, ele e mais uma turma vão assistir às bandas Edguy, Hammerfall e Gotthard, em Belo Horizonte. Vocalista da Tuka’s Band, ele também faz, anualmente, cerca de 30 shows. “A banda tem 27 anos. Nos primeiros 20 anos, nunca ganhei nada, não tinha palco, aparelhagem, nem comida. Nos outros sete, fui igual ao Rock in Rio”, comenta. Vendendo discos todos os dias, ele não chegou a gravar um álbum da banda, mas quando produziu um CD com o Festival de Bandas Novas, fez questão de entregar um exemplar para o David Coverdale em uma apresentação que o Whitesnake fez no país. Com o álbum em mãos, o ídolo falou seu nome. Um ponto alto do show da vida de Tuka.
Careta?!
“Na verdade, imito esses caras todos, com inveja deles, querendo ser um deles, mas nunca vou conseguir. A vida me proporcionou esse pingo de ilusão. Vivo essa ilusão e vivo de rock’n’roll”, orgulha-se o cara de sorriso largo, que a todo momento oscila entre a brincadeira e a seriedade. Ainda que imite os tais ídolos, o roqueiro só ousa mesmo no cabelo, que não corta desde 1990 (“Aparo, cuido do meu cabelo melhor do que da minha gata”). “Nunca bebi e nunca fumei. Nunca tive esses vícios idiotas. Como jogava muita bola, sempre procurei ficar bem de saúde. Droga não existe na minha vida, só água. Não é que eu seja careta, mas, para mim, não serve”, aponta. “Sobrevivi com muita dificuldade. Podia ter sido um drogado, um doidão. Nunca gostei de vício, só sexual”, ri. Resolvo, então, questioná-lo sobre o que ainda pode ser. “Meu sonho é ter uma boate de rock’n’roll, com mulheres dançando ao som de Whitesnake, Led Zeppelin, Black Sabbath. Também queria ficar famoso, poder tocar todo dia, fazer um festival grande e ser diretor do Tupi. Talvez mexer com política, tenho vontade, só não sei se tenho coragem”, revela. “Esqueci de falar, meu sonho também é tocar no Central. No ano que vem, são 50 anos de Tuka.” As pessoas, definitivamente, surpreendem. Mas as aparências não enganam de tudo. Tuka é rock’n’roll.

