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Sobriedade narrativa

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A literatura é capaz de criar um canal de reflexão. Não que esta deva estar, segundo o escritor Darlan Lula, na obra em si, mas uma reflexão acionada pelas ações de personagens, atitudes, descrições, detalhes que surjam no desenrolar da leitura. Autor de Pontos, fendas e arestas (2002 – edição do autor), Viera tarde (2005 – Nankin/Funalfa) e Desvios (2008 – 7letras/Funalfa) – os dois últimos financiados pela Lei Murilo Mendes -, Darlan tem em mãos um livro de contos finalizado. Todos os dias trata da ideia da morte no imaginário do ser humano. Tenho buscado outras possibilidades no mercado editorial para este livro, talvez essa seja uma das atitudes mais entusiasmadas em meu processo nos últimos tempos.

Professor e doutor em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Darlan também se dedica à produção de um romance, em fase de trato dos personagens e alicerce da história, cujo título ainda não foi pensado. Acredito que será um livro difícil de ser escrito, pois quero batalhar muito para que a história tenha uma leveza na escrita, diz. O autor percebeu que a prosa seria o caminho quando ela ganhou mais importância em sua vida literária que a poesia. Até as minhas leituras tendem para esse caminho. Gosto de romances e contos. Ainda me policio ao ler um livro de poesia. Devemos lê-lo aos poucos, interiorizar cada poema, cada verso.

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Darlan busca uma escrita sóbria, uma voz própria, para a qual, em determinado momento – de uma maneira ou de outra -, os autores se voltam. É um processo bastante complicado, porque buscar uma escrita sóbria e ao mesmo tempo refinada é difícil, reflete. Nesse intuito, o autor ressalta a importância de deixar ao seu leitor signos de identificação da tradição literária, rebuscamento que está à margem da própria história contada. As pessoas, em geral, quando vão ler um livro, o fazem pela história interessante. É neste momento que entra a linguagem para dar arcabouço literário a esta história. Deve haver um meio-termo. Ser acessível é saber equilibrar essas forças.

Literatura para mim é chacoalhar o leitor, tirá-lo de sua zona de conforto. E a minha atração pelo insólito vem justamente disso. Gosto de assuntos que mexem com o ser humano. E, geralmente, o insólito, o desagradável, a dor, o sofrimento fazem esse estrago inicial com o leitor, para, logo em seguida, torná-lo uma pessoa mais humana, mais sensível ao outro, avalia o mineiro, natural de Itacarambi (MG), em Juiz de Fora há 16 anos.

A literatura contemporânea é vasta na opinião de Darlan, que acredita existirem ainda muitos bons escritores no limbo, merecedores de um cuidado da crítica, mas que, talvez, não souberam aproveitar ou não tiveram a oportunidade de conquistar um espaço melhor no mercado editorial brasileiro. Da nova safra, Darlan cita Daniel Bittencourt, escritor da cidade fluminense de Paraíba do Sul, que conseguiu o apoio da editora Patuá para lançar sua primeira obra. O livro dele (‘Pornô hardcore’) é muito bom justamente por fugir de uma linha conceitual de escrita, trabalhando com profissões à margem, com o ‘trash’, com o fantástico, destaca. Acho esse exemplo emblemático. O cara correu atrás de uma editora e conseguiu.

Usando a mesma lógica, Darlan propõe uma reflexão para as indagações sobre o fato de os escritores da cidade, em sua maioria, não buscarem apoio editorial. Acredito eu que seja, geralmente, por um comodismo de haver uma lei de incentivo à cultura, a Murilo Mendes, que dê respaldo financeiro a projetos contemplados, mas que – não podemos nos esquecer – não oferece ao escritor apoio na distribuição e na divulgação de sua obra.

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É preciso, segundo ele, romper com essa bolha regionalista e tentar o mercado editorial no âmbito nacional. Muita coisa boa está sendo escrita por aqui, e não devemos condenar uma geração nova inteira a ser conhecida somente em sua região, dispara. Todo escritor quer ter sua obra conhecida, quer ter leitores. A maioria das pessoas que fala o contrário, com raras exceções, esconde-se por trás de sua frustração. E o escritor, infelizmente, tem que conviver com ela em muitas ocasiões.

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