
Jobs morreu de câncer no pâncres na quarta-feira (5)
Na memória de muitas pessoas, Steve Jobs, que morreu na última quarta em decorrência de um câncer, ficará marcado como um visionário dos computadores, telefones como o iPhone e pela criação e difusão dos tablets, como o iPad. Jobs também foi um dos responsáveis pelas recentes inovações no cinema, principalmente no campo da animação. Em 1986, o empresário já era o responsável pela Apple e tinha lançado o Macintosh, o primeiro computador geral com recursos de desenho, tipografia, além de uma interface gráfica abundante. Então, decidiu comprar da Lucasfilm um estúdio de computação gráfica, o Pixar Studios, por US$ 5 milhões.
Para estudiosos do cinema, a partir do surgimento da Pixar, que tem no currículo sucessos como "Carros", "Toy story", "Procurando Nemo", "Ratatouille", "Up – Altas aventuras" e "Wall-e", a forma como se encara o cinema de animação mudou por completo. Segundo o professor de cinema da Faculdade de Comunicação da UFJF, Nilson Alvarenga, a empresa foi a grande responsável pela nova forma de fazer animação, usando apenas recursos oriundos de computadores. "Antes da Pixar, a Disney, que era quem fazia grande parte das produções, utilizava computadores apenas para automatizar pontos intermediários entre um personagem e outro e fazia boa parte dos filmes em desenho. Com ‘Toy story’, o primeiro filme feito inteiramente em computador, tudo mudou. E a figura de Steve Jobs foi fundamental para isso. Foi nessa época que passou a aliar a pesquisa tecnológica à arte cinematográfica." Quem compartilha desta opinião é o cineasta de animação e um dos diretores do Anima Mundi, Marcos Magalhães. "Jobs teve o mérito de acreditar no conceito de investir na criação de histórias e personagens usando os computadores. Ele usou o mesmo talento que usara na Apple, ao lidar com mentes criativas e incentivá-las a dar sempre o máximo de si. Assim como Walt Disney, ele era um perfeccionista e sabia trabalhar com artistas, fazendo a tecnologia servir a eles, e não o contrário."
Já para Marcela Casarin – produtora cinematográfica e mestra em tecnologia da comunicação com enfoque na relação entre o cinema e o desenvolvimento da sensorialidade humana -, a importância de Jobs para a sétima arte vai além da Pixar. Jobs foi responsável por mudar a forma como a humanidade se comunica e, com isso, alterar a maneira de se fazer cinema. "A sociedade por muito tempo foi baseada na comunicação oral e escrita. Com a Apple, Jobs iniciou uma tendência de buscar novas sensorialidades e atrelar toque ao básico que se tinha de visão e audição na sala do cinema. E um reflexo disso é o cinema em 3D. Hoje o mundo está em touch screen, e, no cinema, as pessoas querem também tocar."
No caso da animação, Marcela aponta a Pixar como remodeladora do sistema vigente. "A animação desde sempre se permitiu ir além do físico e ao extremo da imaginação. Quando a Pixar entrou no mercado, ele teve que se adaptar ao que ela fazia e correr atrás do prejuízo, e não o contrário." Também nesse aspecto, Nilson destaca a Pixar de Jobs como responsável por levar a animação, antes fixada em um nicho infantil, para o universo adulto. Segundo ele, a empresa passou a se preocupar em criar roteiros que fossem convidativos para todos os públicos, para que também os adultos pudessem conferir a qualidade obtida na animação. "Desde o início da sua história, o cinema sempre teve a vocação de tentar reproduzir a realidade vivida seja na película ou como é agora no digital, mesmo que no âmbito da ficção. Com a inovação trazida pela Pixar hoje, temos a ilusão de que aquele objeto flui na tela como se fosse um corpo físico. Você sabe que é ficção, mas tem a ilusão de que seja real.
E agora?
Com a morte de Jobs, fica uma incógnita em relação a como a tecnologia irá se portar daqui para frente. Para Nilson, Jobs foi fruto da época em que vivemos e responsável por montar a trilha que será seguida. "Imagino que a tecnologia do cinema irá se desenvolver cada vez mais, podendo chegar à realidade aumentada, proporcionando uma relação com a imagem do cinema cada vez mais tátil". Nilson aponta o 3D como o início dessa nova realidade. Já Marcos enxerga o futuro da animação com a tecnologia e a criatividade cada vez mais atreladas. "Felizmente, existem hoje em dia muitos outros talentos trabalhando, mesmo que estejam ainda em silêncio ou no anonimato."

