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Legado de Luis Fernando Veríssimo na literatura brasileira é vasto e transita entre gêneros

VERISSIMO
Linguagem simples e humor implacável fizeram com que conquistasse leitores de todas as idades (Foto: Unesp)
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Em 2 de setembro, morreu Luis Fernando Verissimo, aos 88 anos. Autor de crônicas, romances, contos e quadrinhos deixa um legado variado para a literatura brasileira: tanto quanto alguém que trouxe frescor para o gênero das páginas de jornal, quanto como quem soube transitar entre vários gêneros mantendo uma unidade em sua obra. Foram mais de 70 livros publicados e milhões de unidades vendidas. A linguagem simples e o humor implacável fizeram com que conquistasse leitores de todas as idades, que tiveram o primeiro contato com sua obra desde as salas de aula até aqueles que o conheceram primeiro, como o filho de Erico. Nessa despedida, a Tribuna relembra o que encantou os brasileiros em seus textos e o que o autor deixa de ensinamento para os escritores que vieram depois.

Apesar da crônica ser um gênero celebrado no Brasil e com muitos expoentes, dá pra afirmar que Veríssimo é um dos responsáveis por trazer frescor ao gênero. “Usando uma metáfora futebolística, eu poderia dizer que se o Rubem Braga é o Pelé dos cronistas brasileiros, o Luciano Verismo seria o Garrincha. E por quê? Porque o que o Verismo traz é uma mistura de simplicidade bela, você conseguir fazer coisas surpreendentes com beleza e com simplicidade. E, ao mesmo tempo, um caráter muito irreverente, que é muito característico do seu texto, da sua vida toda como artista, não só como cronista”, explica o escritor, jornalista e professor da UFJF, Rodrigo Barbosa. Ele entende que, depois daquela geração brilhante de cronistas brasileiros dos anos 1940, 1950 e 1960, Veríssimo ajudou a “atualizar e renovar o gênero”. 

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Rodrigo destaca que o humor é um dos traços que mais chamam atenção em sua obra. “Acho que ele tem um brilhantismo grande nesse aspecto de conseguir combinar essa leveza, arrancar do leitor sempre um sorriso quando está lendo e, ao mesmo tempo, fazer reflexões importantíssimas sobre o homem e sobre a humanidade”, explica. Essa irreverência e simplicidade, para ele, também está relacionada com o autor sempre se aproximar do universo do leitor — e fez com que inclusive fosse tão copiado e replicado, com frases que nunca foram suas.

Esse olhar de cronista se estendeu por toda a sua obra, com traços que foram se tornando marcos da sua escrita. “Acho que em todos os gêneros em que ele transita estão presentes o olhar do cronista, que é essa coisa de uma visão muito mordaz, muito crítica, muito irônica sobre o homem, a sociedade e o país também, especialmente, ele é muito crítico em relação ao Brasil, e fazer disso uma maneira de a gente se divertir, de a gente rir, de usar o humor para poder retratar essas paisagens. Então, isso está presente no romance, nas charges, e é um elemento básico da crônica”, afirma. 

Cronista em sala de aula

As crônicas são um material literário que costumam ser bem trabalhadas em sala de aula, tanto no Ensino Fundamental quanto no Ensino Médio. A professora e colunista da Tribuna, Marisa Loures, trabalha com ele em sala de aula e costuma ser quem o apresenta para novas gerações. “Já trabalhei ‘O homem trocado’ com alunos do nono ano e eles se divertiram muito com a sequência de enganos narrados pelo personagem. A leitura gera risadas, mas também reflexões sobre o uso da linguagem e sobre o absurdo da vida cotidiana”, explica.

Ela também revela que já usou a crônica “Papos” para discutir tanto as características do gênero quanto a colocação pronominal. “A linguagem divertida e a troca de falas cheia de trocadilhos prenderam muito a atenção da turma, que se envolveu na aula sem nem perceber que estava estudando gramática. De modo geral, os alunos recebem os textos dele com entusiasmo, porque se reconhecem nas situações e se sentem parte da brincadeira que o autor propõe”, explica.

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Para driblar o português como Garrincha 

É difícil dizer o que irá ficar para a história, mas os professores sabem o que marca Veríssimo em cada leitura. “O cotidiano, que é o tema central de tantas de suas crônicas, é retratado de forma que tanto jovens quanto adultos conseguem se identificar. Além disso, a ironia fina e os diálogos ágeis fazem com que seus textos sejam acessíveis sem perder a profundidade”, diz Marisa. Para ela, os leitores riem enquanto pensam, e podem se aproximar uns dos outros desarmados. “Esse olhar crítico e, ao mesmo tempo, bem-humorado sobre a vida é atemporal e continua dialogando com quem lê, seja em sala de aula, seja fora dela”, diz.

O mesmo pensa Rodrigo. Para ele, além de conectar gerações de leitores, também pode continuar servindo de inspiração para escritores que vierem depois, e que forem lançar outros frescor para a literatura brasileira. “Acho que ele deixa como legado ou como um exemplo inspirador a precisão de texto, a sábia escolha das palavras, a opção pela narrativa que é marcada pela simplicidade no sentido bom da palavra, aquilo que Tom Jobim falava que o difícil é conseguir ser simples. E ele faz isso com brilhantismo. (…) é essa habilidade de dizer muito e falar muito coisas de profundidade inclusive de maneira simples, sem precisar de sofisticar demais, é dar um drible onde ninguém esperava da maneira mais simples do mundo e deixar o adversário para trás, como o Garrincha fazia”, diz.

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