
Robélia descobriu a série por acaso, mas admiração por ‘Star trek’ dura quase 50 anos
Luís Otávio acompanha as aventuras de ‘Jornada” desde a década de 1970
“Espaço, a fronteira final. Estas são as viagens da Nave Estelar Enterprise…”: o texto que indicava o início de um novo episódio de “Jornada nas estrelas” tornou-se um dos ícones da cultura pop no último século, uma mensagem otimista e confiante sobre a capacidade do ser humano de audaciosamente ir “aonde ninguém jamais esteve”. Resultado da obsessão de seu criador, Gene Roddenberry, de mostrar num seriado de TV um futuro utópico de paz e harmonia para a humanidade, “Star trek” ultrapassou as fronteiras do entretenimento e chega aos 50 anos de existência nesta quinta-feira, data da transmissão de seu primeiro episódio na TV norte-americana.
Nenhuma atração televisiva criada até então conseguiu ter a perenidade obtida pelas aventuras a bordo da nave da Frota Estelar NCC-1701, a Enterprise. Além dos 76 episódios da chamada Série Clássica, que durou de 1966 a 1969, a franquia teve como desdobramentos mais outras quatro séries em live action e uma animação, ultrapassando os 700 episódios – sendo que uma nova série, “Discovery” está programada para 2017, encerrando um hiato de 12 anos na telinha. Também já foram produzidos 13 filmes para o cinema, com o mais recente, “Sem fronteiras”, lançado no Brasil no último dia 1º de setembro. O universo de “ST” foi além, incluindo livros, histórias em quadrinhos, jogos eletrônicos e documentários para TV e cinema, entre outros.
A devoção trekker não tem idade, e é capaz de passar de uma geração para outra. É o caso de Robélia de Carvalho, 77 anos, que passou para a neta, a astrônoma Thamiris Carvalho, 24 anos, a paixão pela série de ficção científica. No caso de Robélia, o universo de “Jornada nas estrelas” entrou em sua vida em 1968. “Foi em uma dessas emissoras que nem existem mais. Simplesmente liguei a televisão sem saber o que passava, vi um gatinho passeando e o Senhor Spock apareceu. Virei fã”, conta, destacando a união entre os tripulantes como um dos fatores que a levou a ser fã da Série Clássica. “Uma das questões que eram mostradas na série e que me inspirou na vida cotidiana foi a tolerância com as diferenças entre as pessoas, como as de religião e etnias vistas na nave.”
O personagem preferido de Robélia continua a ser o eterno Senhor Spock interpretado por Leonard Nimoy. Questionada sobre as características do alienígena que a cativaram, ela não pensa duas vezes para responder: “A inteligência, a lógica e as orelhinhas lindas dos vulcanos.”
Inspiração que chega às estrelas
Thamiris confirma a influência da avó, que tem várias réplicas da Enterprise e de outras naves, além de livros e um uniforme da Frota Estelar, entre outros itens. Se na infância não entendia os intrincados roteiros do programa – o que a fez preferir por um período “Star wars” -, o jogo virou quando chegou aos 13 anos. “Foi quando passei a gostar mesmo, minha avó já era fã, apaixonada pelo Spock e o Leonard Nimoy.”
Além da influência familiar, Thamiris diz que um dos motivos para ter se tornado fã de “ST” está no conceito de várias espécies diferentes vivendo em harmonia, com a humanidade buscando conhecer o universo por meio das viagens da Enterprise. “Ela (a Série Original) é uma grande metáfora para problemas sociais, preconceitos de raça, religião, que são coisas que gosto de ver e ler em sci-fi, como nos livros do Arthur C. Clarke”, exemplifica.
Assim como tantas pessoas pelo mundo, a jovem teve sua vida influenciada por “Star trek” tanto em princípios éticos e morais quanto profissionais, a ponto de abraçar a astronomia como ofício e trabalhar no Observatório Europeu do Sul (ESO) desde 2015, integrando uma equipe que faz divulgação científica e traduz artigos científicos para as redes sociais, além de realizar visitas em escolas públicas para os alunos conhecerem astronomia mais a fundo. “Tenho outras influências, mas ‘Star trek’ me influenciou muito. Conheci muita gente como eu, inclusive no ESO, que trabalha na área de astronomia por causa da série. Muitos, inclusive, choraram no dia em que o Leonard Nimoy morreu, não foram trabalhar”, lembra. “No meu ramo existem várias constelações, descobertas, em que as pessoas homenageiam o Roddenberry e ‘Jornada nas estrelas’.”
A questão da ética também é lembrada por Thamiris, ainda que não acredite que a visão utópica de Gene Roddenberry possa um dia acontecer de forma integral. “A minha avó é deficiente auditiva desde os 20 anos, e ela tem a série como exemplo. Sei que ela passou por problemas na vida e o quanto as metáforas na série são importantes para ela. Tento me colocar no lugar dos personagens e encaixá-los também nas pessoas que conheço.”
Dentre os exemplos que “Jornada nas estrelas” ofereceu a ela, um dos primeiros a ser lembrado é o do vulcano de orelhas pontudas. “Eu era uma criança muito fechada, que não conversava, o que era o típico nerd. E o Spock é muito legal porque está sempre em conflito com ele mesmo por ser meio humano, meio vulcano, e na adolescência, sendo fechada, tendo que conviver com pessoas, me lembrava dele, pois não conseguia segurar minhas emoções como ele.”
Um universo ‘fascinante’
Outro a ser fisgado pelo universo otimista imaginado por Roddenberry nos anos 60 é Luís Otávio Pinheiro Lima, que tomou contato com “Jornada” nos anos 70. “Era criança na época, mas mesmo assim a perspectiva da existência de vida e da existência de outros mundos era simplesmente espetacular, atiçava a imaginação da gente”, diz ele, para quem a riqueza de detalhes, os personagens marcantes, os efeitos especiais (que gradualmente foram se aprimorando), os detalhes da criação das civilizações de outros mundos e as tramas bem montadas foram os motivos para se tornar fã do programa. “É tudo parte de um universo que, embora imaginário, é bem vívido e fascinante. A gente passa a se interessar muito por ele.”
Nestas cinco décadas passadas desde sua estreia, “Star trek” se manteve como um dos produtos da cultura pop que, entre altos e baixos, sempre teve uma parcela considerável de seguidores – e Luís dá suas indicações para a persistência do fenômeno. “O fascínio do tema da vida alienígena, as possíveis semelhanças e diferenças com a nossa própria existência (naves espaciais, caracterização dos personagens extraterrestres, paisagens de outros planetas etc.). A criatividade e a continuidade dos episódios também fascinam o público. O empenho que os produtores realizam é imenso.
Assim como Thamiris e Robélia, Luís Otávio vê na franquia muito mais que mero entretenimento: “Star trek”, para ele, ajudou a encarar alguns aspectos de nossa existência de uma forma diferente – e melhor. “Acredito que a série tenha influenciado na visão de um mundo em que devemos aprender a tolerar e, muito além disso, aceitar as diferenças existentes entre as diferentes culturas e pessoas”, afirma. “Temos também que refletir sobre a possibilidade de que um dia descubramos, de forma totalmente isenta de dúvidas, que não estamos sozinhos no universo e que existem outras civilizações e culturas. Isso irá revolucionar toda a nossa existência e perspectivas, além de rever inúmeros conceitos. A questão é: até que ponto estamos preparados?”
Um vasto universo a ser descoberto e debatido
Com 50 anos de vida e tantos spin-offs, “Star trek” é o tipo de franquia que é capaz de gerar todo tipo de discussão entre os fãs, como a preferência por séries e filmes, ainda que a Série Clássica continue imbatível para tanta gente. “A Série Original é a minha favorita”, dispara Thamiris. “Adoro o Picard (o comandante da Enterprise em ‘A Nova Geração’), mas para mim, no padrão de sci-fi que eu gosto, é a série com Kirk e Spock. E também gosto muito de ‘Enterprise’ (2001-2005) por mostrar tudo que aconteceu antes da série original.”
“A série inicial foi o grande despertar, mas as tramas e o desdobramento do seriado em ‘Jornada nas estrelas – A Nova Geração’, na década de 80, foram mais envolventes e preservaram o espírito da série original, e as melhorias nos efeitos especiais trouxeram uma visão mais palpável e atraente para o espectador”, opina Luís Otávio. “Já a série ‘Voyager’ apresentou mais avanços e trama mais elaboradas. Dentro dos filmes gosto muito de ‘Star trek VI – A Terra Desconhecida’ e ‘Star trek – Primeiro Contato’, além dos reboots para o cinema em 2009 e 2013.”
Dentre os personagens, Luís é mais um a preferir Spock. “Ele é bem marcante quando defende a Lógica Vulcana, mas absorve e utiliza os valores humanos. Já os capitães Kirk e Jean-Luc Picard apresentam personalidades bem distintas no comando se suas naves. A personagem Sete de Nove (‘Voyager’) traz um apelo feminino sensual e intrigante.” Apesar de gostar do célebre vulcano, Thamiris prefere um dos grandes antagonistas da série, o humano geneticamente modificado Khan Noonien Singh, tanto nas interpretações de Ricardo Montalban quanto a mais recente, de Benedict Cumberbatch. Quanto ao novo longa, “Sem fronteiras”, Luís espera que ele mantenha o ritmo dado nos dois primeiros filmes do reboot, enquanto que Thamiris ainda está receosa quanto ao que pode vir a conferir no cinema. Luís ainda se mostra particularmente ansioso com a chega, em 2017, da série “Star trek: Discovery”.
As muitas vidas de uma série
Todo esse universo, porém, por pouco não existiu. Gene Roddenberry apresentou o projeto da série para a NBC, que aprovou a produção de um piloto, “A jaula”, que foi reprovado por ser “cerebral demais”. Coisa rara na TV, “Jornada nas estrelas” teve uma segunda chance, com praticamente todo o elenco alterado e uma nova história, que chegou à TV em 8 de setembro de 1966. A vida a bordo da Enterprise, porém, não foi fácil, com o programa enfrentando os dissabores do baixo orçamento e audiência periclitante, que mantinha a atração sempre sob risco de cancelamento – o que não ocorreu nos dois primeiros anos pela mobilização dos fãs.
Mas chegou um momento em que nem mesmo os fãs puderam fazer muita coisa, e o terceiro ano – com orçamento ainda mais baixo – foi o último da Série Clássica, que legou episódios como “Semente do espaço”, “Balanço do terror” e “A cidade à beira da eternidade”. E foi então que o jogo virou: com a série podendo ser transmitida por emissoras menores no Estados Unidos em caráter regional, “Star trek” começou a aumentar ainda mais sua legião de fãs, que fez surgir uma infinidade de convenções e o culto à “ST”, resultando em um desenho animado e um longa-metragem dez anos após o cancelamento da Série Original, que foi seguido por outros doze filmes e mais quatro séries derivadas, “A Nova Geração”, “Deep Space Nine”, “Voyager” e “Enterprise”.
Muito dessa devoção se devia às histórias criadas por Roddenberry e seu time de roteiristas, que sabia balancear a ação presente em cada episódio com temas sérios, mostrando um futuro em que a humanidade havia abdicado das guerras e tinha como objetivo o aperfeiçoamento do conhecimento. A própria tripulação da Enterprise era um exemplo disso, com integrantes de diversas nacionalidades (incluindo um russo, Chekov, em plena Guerra Fria) e etnias. Nichelle Nichols, intérprete de Uhura, foi incentivada por Martin Luther King a permanecer na série por ser a primeira negra que não era relegada a uma participação marginal. Ela foi, inclusive, a inspiração para que Whoopi Goldberg decidisse ser atriz, e como gratidão ela se ofereceu para participar de alguns episódios de “A Nova Geração”. Outro conhecido fã da série é o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o cientista inglês Stephen Hawking – mais um que fez participações especiais na franquia.
“Uma das grandes lições de Gene Roddenberry foi a visão pacifista e questionamentos sociais. De forma sutil ele fazia crítica aos preconceitos, às guerras, a visão mais machista e sexista da sociedade da época; mostrava a unificação política como solução para que possamos evoluir e o aprendizado com os erros promovidos pela nossa própria violência”, aponta Luís Otávio Pinheiro Lima.
Da ficção para a realidade
Além de Whoopi Goldberg, “Star trek” foi fundamental para que muitos jovens daquela época se apaixonassem pelo espaço ou tecnologia em geral. “Jornada nas estrelas” é responsável, até hoje, por incentivar novos astronautas, cientistas, astrônomos, especialistas em computação e outras áreas do conhecimento. A própria Nasa – agência espacial norte-americana – teve que mudar o nome de seu primeiro ônibus espacial – de Constitution para Enterprise – após uma campanha dos fãs da série nos anos 70.
E é preciso lembrar os avanços tecnológicos que fazem parte do nosso cotidiano graças a “Star trek”, que serviu de inspiração para a criação do telefone celular e o desenvolvimento dos exames de ressonância magnética, e até mesmo o formato de áudio MP3 que temos em nossos celulares. “Muito do que foi mostrado como ficção acabou se materializando como realizações tecnológicas, como o avanço dos computadores. O comunicador-tradutor universal da época feito na série original de 1966 é hoje, simplesmente, o celular que usamos”, destaca Luís.

