Lembrar deveria ser imposição. Esquecer, também, desde que precedesse de uma negação. Como verbo bitransitivo, que pede ou não a preposição, bordar poderia ser imperativo, afinal, em seu sentido figurado quer dizer espalhar cores, colorir, ornar ou enfeitar. Em "Dispositivos de esquecimento", uma das exposições selecionadas pelo II Prêmio Funalfa de Fotografia, em cartaz no Foto 13, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), até o próximo dia 13, a fotógrafa juiz-forana Letícia Vitral vai além da mera contemplação dos patrimônios da cidade. O que há de belo ou deteriorado não importa, num primeiro momento, ao trabalho da artista. O que impera, entre linhas de bordado e linha de fuga, é uma cidade em constante confronto com seu passado. Como caminhar sem negar o que já foi feito? "Embora jovem, sempre tive interesse por história. Porém o principal motivo de minha inquietação com o tema parte da carência de referências sobre o passado da cidade. Por conta de minha idade, tenho de recorrer a lembranças de outras pessoas sobre o assunto, a livros e a fotografias antigas, pois não é possível experienciar esses tempos", explica Letícia.
Se no trabalho atual da artista, graduanda em Artes e Design pela UFJF, há um desconforto com o descaso com o passado – tanto das autoridades, quanto da população, segundo aponta -, em produções anteriores, Letícia enfocou a relevância da arquitetura no cotidiano das urbes. Recém-chegada de um intercâmbio na Alemanha, ela presenciou o respeito patrimonial que fez da Europa uma referência em preservação. "Acredito que a importância de um patrimônio material vai além do valor histórico, limitado a datas e a acontecimentos específicos, abarcando também valores afetivos, que demonstrem o interesse por parte da população em se preservar determinado ‘pedaço’ da história de seu ambiente", defende, ressaltando que o título da série faz referência à expressão "dispositivos de segurança", da historiadora Françoise Choay. "Ela acredita que o monumento arquitetônico funciona, no ambiente urbano, como um ‘dispositivo de segurança’ a partir do momento em que ‘assegura, acalma, tranquiliza, conjurando o ser do tempo. Ele constitui uma garantia das origens e dissipa a inquietação gerada pela incerteza dos começos’. Com isso, o patrimônio histórico de uma cidade fortalece a relação dos habitantes com seu lugar de pertencimento através de laços afetivos."
Se são as fotografias que guardam uma Juiz de Fora pioneira com suas indústrias e bela com seus casarões ecléticos ou edificações em art déco, é à mesma linguagem que Letícia Vitral recorre para comentar o presente. Mesmo estilhaçados, como o Palacete dos Fellet, os dez imóveis tombados como patrimônios culturais de Juiz de Fora foram registrados para logo em seguida receber uma camada de fios brancos bordados sobre os edifícios. "Ao se registrar qualquer objeto em imagem fotográfica, é criada uma aura em torno do mesmo. Por ser isolado de seu contexto, o elemento fotografado entra em uma espécie de dimensão espaço-temporal que passa a existir na memória do espectador. Ao se fotografar um edifício é possível perpetuar sua imagem vulnerável às ações do tempo, porém sua função e seu significado vão se perdendo ou se modificando com o passar do tempo, existindo na vida das pessoas como um objeto afetivo, uma lembrança", observa a artista.
Como uma trama da avó bordadeira, ou como as toalhas sobre a mesa de outros tempos, a tessitura de Letícia remonta o passado e se configura em crítica, que chega a ser mordaz. A Villa Iracema da obra se apresenta muito mais agradável e bela do que a real, em avançado estágio de deterioração. "O ato de bordar se relaciona a uma temporalidade técnica artesanal cuja antítese simbólica é a fotografia digital – ícone da reprodutibilidade técnica contemporânea", comenta.
Valores reais
"Dispositivos de esquecimento", configura-se exposição e também ato político (ora, toda arte é política, defendem alguns especialistas) a partir do momento em que lança luz sobre os reais valores que circundam os patrimônios, pondera sobre a relevância dos afetos nas discussões patrimoniais. Segundo Paulo Gawryszewski, vice-presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (Comppac), qualquer pessoa pode propor um processo de tombamento de um bem material ou imaterial, com fundamentação e instrução, podendo receber apoio administrativo e técnico da Funalfa. "O processo é instituído em cima de bases técnicas. Existe um contexto em que o imóvel está inserido, e isso é levado em conta. São conjuntos de valores que justificam uma definição do conselho", explica Gawryszewski.
No processo de tombamento do imóvel conhecido como Companhia Têxtil Ferreira Guimarães, por exemplo, foram considerados os valores histórico e cultural que envolvem o bem; suas características construtivas e composição arquitetônica, típicas das edificações dos imigrantes alemães; e o fato de o imóvel, inserido no contexto da primeira unidade fabril de Juiz de Fora, ter servido de hospedaria, sendo chamado de "Casa dos Hóspedes". Para o arquiteto Rogério Mascarenhas, os imóveis singulares formam a paisagem urbana, que se liga intimamente à memória de cada um, como um álbum de família. "Independentemente de os prédios serem tombados ou terem uma importância artística e histórica, cada um faz parte de uma história. Nós somos feitos de nossos antepassados, mas também do cenário em que construímos nossas vidas", reflete.
Como no trabalho de Letícia Vitral, Mascarenhas acredita que a arquitetura possibilita um sentimento de pertencimento único. Nesse contexto, não existem só tijolos, mas também emoções. "Juiz de Fora era uma cidade muito bonita e muito singular. Com vários prédios apagados, surgiu um lugar muito comum e sem personalidade. Uma cidade é feita de arquiteturas, seja ela complexa, seja ela singela", conclui o arquiteto.
