"Meu pai foi um homem correto. Um homem de caráter. Não foi um coitado porque nunca pude encará-lo sentindo pena. Meu pai não foi herói, mas foi um homem corajoso que mesmo sem ter condições físicas quis através de um comercial de TV mostrar sua situação." O depoimento da jornalista Luciana Carlos Gomes poderia estar em "A imagem que o cigarro lhe deu – A história de José Carlos Gomes, meu pai, consumido pelo vício" (Editora Record, 160 páginas), mas nas linhas que escreveu prevalece um relato cronológico, altamente doloroso, de um homem em sua caminhada de glória e decadência. Sem se deixar resvalar em melodrama, a filha resgata não apenas a tragédia do pai, conhecida por poucos, mas a dignidade de um personagem que foi apresentado à fama e às mais duras sombras.
Adotado ainda bebê, José Carlos Gomes superou sua origem de extrema pobreza e tornou-se jornalista do finado "Correio da Manhã", do Rio de Janeiro, assinando uma das mais badaladas colunas sociais da época, a "Teen Age", que chegou a dar nome à varanda do Iate Clube do Rio de Janeiro, famoso endereço de luxo da Zona Sul carioca. Demitido com a crise instalada no jornal durante a década de 1960, o profissional se tornou relações públicas da Volkswagem e logo depois rumou à aposentadoria, que chegaria em 1983. Sempre com um cigarro entre os dedos e um copo de bebida na outra mão, José Carlos se rendeu ao vício, e sua dependência fez com que passasse a depender dos outros. "Beber, fumar, jogar conversa fora, noites em claro, trabalho duro – era este o combustível que alimentava aquela máquina insaciável, a bomba relógio que começava a contagem regressiva dentro de seu organismo", conta a filha durante o livro.
Com duas pernas amputadas, um lado do corpo paralisado e sem a visão, o jornalista tornou-se um dos primeiros a processar a empresa Souza Cruz e, à convite do então Ministro da Saúde José Serra, no ano 2000, estampou uma chocante campanha anti-tabagismo, na qual era revisada sua trajetória e apresentado seu lamentável estado presente. "Meu pai tornara-se famoso de novo. Não era a celebridade e a evidência que imaginara reconquistar um dia. Enfim, o país o conheceria agora… No ocaso da vida", expõe outra passagem da obra. Segundo Luciana, em entrevista à Tribuna, o processo de pesquisa para levantamento dos dados – muitos não presenciados por ela – foi extremamente doloroso, haja vista que muitas das histórias figuravam como as principais e mais celebradas lembranças do pai. "Meu pai, como um grande jornalista que foi, com certeza teria orgulho da filha que, além de ter seguido sua profissão, teve a audácia de escrever um livro dramático, chocante, mas totalmente franco e verdadeiro. Cada linha deste livro foi escrita com lágrimas nos olhos e com meu coração apertado, saudoso, mas ao mesmo tempo feliz por eternizar o nome de meu amado pai", comenta.
Reunindo depoimentos e um importante trecho da história política e social da segunda metade do século XX, o livro transita entre a terceira e a primeira pessoa. No início dos capítulos e seções, Luciana trata o pai como ele para no decorrer da narrativa encará-lo como "meu pai". Coadjuvante de um drama estranhamente real, no qual conviviam apenas um casal e uma filha, a mulher de José Carlos é tratada na obra com fortes tintas de emoção, já que toda sua dedicação é revelada em detalhes. "Minha mãe esteve ao lado dele até o final. A maior e melhor coisa que poderia ter acontecido na vida de meu pai foi ter conhecido ela. Nas situações mais difíceis, se houve algum momento de alegria para meu pai, foi ela quem proporcionou", emociona-se.
Apesar de não pretender parecer panfletário ou amedrontador, o livro de Luciana aponta para as lições de vida que podem ser aprendidas a partir de experiências humanas. "Minha revolta e angustia é que enxergamos nossos erros e não fazemos nada para melhorar isso. No caso de meu pai, não havia mais tempo para reverter nada. A mutilação levou sua vida aos poucos", aponta a autora. "Que meu livro sirva, sim, para que algumas pessoas tenham consciência do certo e do errado, e que olhem cada erro que cometem na vida e tentem corrigir, seguindo um caminho que prolongue a felicidade, que prolongue a vida", sugere, certa de que sua estreita relação com os eventos tratados e a responsabilidade sentimental aparente em cada palavra resulta em um texto singular, impossível para pessoas com algum distanciamento.
Responsabiladade afetiva
Em tempos de discussão acerca da Lei das Biografias, que hoje confere à personalidade biografada, ou a seus herdeiros, o poder de vetar um livro sobre sua vida, as produções conduzidas por familiares fazem refletir, já que a proximidade afetiva possibilita realizações de grande preocupação com estados íntimos. Em "Diário de uma busca", filme de Flavia Castro, a ser lançado em DVD no próximo mês, a diretora faz uma viagem para encontrar a verdadeira história da vida e da morte do pai. Morto em 1984, aos 41 anos, Celso Afonso Gay de Castro era um jornalista com longa história de militância na esquerda política e foi encontrado morto no apartamento de um ex-oficial nazista, em Porto Alegre, onde entrou à força. Como uma investigadora, Flavia tenta desconstruir a imagem de assaltante e suicida que o pai cunhou ao morrer. Entre depoimentos, cartas e imagens de arquivo, a cineasta recompõem o cenário dos regimes militares, desenhando uma narrativa comovente, mas não melancólica.
"Não tinha como fazer esse filme sem me expor. Muita gente me dizia para não ir tão fundo, mas desejava ir atrás do que eu acreditava", aponta Flavia. Entre os prêmios ganhos pelo documentário, destacam-se o prêmio da crítica, no Festival de Gramado de 2010, e melhor documentário no Festival de Biarritz, no mesmo ano. "A separação entre a vida e a arte não é muito clara. Qualquer pessoa poderia contar a história de meu pai, mas não da relação que estabeleci com ele", explica, para logo completar: "Fiz o filme por uma necessidade, mas o filme não é uma terapia".
Da mesma forma, "Luis Antônio-Gabriela" (Editora nVersos, 244 páginas), de Nelson Baskerville, não é resultado de uma análise. O livro, baseado na peça homônima, conta a relação dolorosa entre o autor e seu irmão, nascido Luis Antônio mas transformado em Gabriela, estrela nas noites de Bilbao, que o violentou na infância. Com acabamento luxuoso e design gráfico em diálogo com o texto – há páginas em preto com o texto destacado e diversas mudanças tipológicas -, a obra resulta em um pedido de desculpas de Nelson, cujo cúmplice é o leitor. "Pelas mãos do artista, nosso irmão, Nelson, sua história (de Luis Antônio) fez rir e chorar, mas, principalmente, fez pensar. Sua iniciativa possibilitou o perdão, pedido e doado, e, assim, tornou iluminada uma vida vivida sobre a sombra do preconceito", afirma a irmã Maria Cristina Baskerville, em prefácio do livro.
Nos 43 trabalhos que compõem a série "Echolilia: Sometimes I wonder", o fotógrafo norte-americano Timothy Archibald, ao mesmo tempo em que homenageia o filho Elijah, tenta compreender o universo do autismo no qual o menino se vê mergulhado. Sem nenhum planejamento, os cliques retratam o cotidiano de Elijah, que também é contado no blog do pai arista. Seja tampando o rosto com um papel, escondido numa caixa plástica, cheirando um vaso de flores em cima da mesa ou com a cara enfiada em um funil de cozinha, o menino é retratado por um olhar sensível e completamente questionador, que procura se estreitar com o personagem à frente. Como as muitas outras obras artísticas surgidas dos desencontros familiares, as fotos de Archibald revelam o encontro através da arte, evidenciando as responsabilidades emocionais presentes num lar.
