Surgida no século XIX, em um contexto bem diferente do ciclo da mineração, Juiz de Fora não conta com a herança barroca que caracteriza as cidades históricas mineiras. Talvez por isso artistas e intelectuais como Murilo Mendes e Pedro Nava tenham nutrido uma afeição especial por esse município que traz ainda vivo em seus casarões, ladeiras e igrejas o espírito de um passado que o juiz-forano só conhece através dos livros. Homenageada em verso, prosa e imagem, a antiga capital de Minas completa hoje 300 anos sem perder o ar enigmático do passado e desfiando mistérios para as próximas gerações.
"Todo brasileiro traz um pouco de Ouro Preto no coração. A cidade é síntese e símbolo, seja pela beleza urbana e paisagística ou pela força de duas grandes personagens que a habitam, o Aleijadinho e o Tiradentes, o maior artista e o primeiro cidadão do Brasil", sintetiza o crítico de arte e atual prefeito do município, Ângelo Oswaldo. Presidente da Associação Brasileira das Cidades Históricas e ex-secretário de Cultura do Estado, o político conhece bem a ponte afetiva entre Juiz de Fora e Ouro Preto, uma relação celebrada em obras como "Contemplação de Ouro Preto", de Murilo Mendes, publicado em 1954.
No livro, o poeta juiz-forano mostra o mistério e a dureza da arquitetura colonial, impregnada de forte religiosidade. Em seus versos, são evocadas as figuras de "álgidas capelas/ de estéreis morros" e "imagens/ dormindo/ nas cômodas pesadas". Murilo não foi o primeiro a celebrar a magia dessa cidade histórica. Em 1926, o escritor Gilberto de Alencar publicou "Cidade do sonho e da melancolia: impressões de Ouro Preto". Reeditado em 1971, com desenhos de Guima (Luis Guimarães Vieira), a obra não só ressalta a beleza de casarões e igrejas centenárias, como faz um apelo para sua proteção. Poucos anos depois, em 1933, a cidade foi tombada pelo recém-fundado Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Mas ainda levariam mais de 50 anos até que o município se tornasse a primeira cidade brasileira a receber a chancela de Patrimônio Cultural da Humanidade, em 1980.
Pesquisadora da obra de autores juiz-foranos, a professora Leila Barbosa acredita que o fascínio exercido pela antiga capital de Minas tenha origem na mística que envolve literatos e artistas célebres que imprimiram sua marca na cidade. "Juiz de Fora sempre apresentou vocação cultural. Nessas condições, é natural que um lugar como Ouro Preto desperte atenção. Os escritores e artistas cultivaram essa vontade de ir até lá para ver os fantasmas do passado", avalia.
Enigma em cores e formas
Ao invés de palavras, o escritor Pedro Nava usou desenhos para representar a mística de Ouro Preto. Em 1980, o memorialista ilustrou a reedição do livro "Roteiro lírico de Ouro Preto", de Afonso Arinos, apresentando um talento desconhecido do grande público. A propósito, o apelo visual da cidade atraiu nomes célebres da pintura, como Tarsila do Amaral, que esteve na cidade na década de 1920, acompanhada de outros mestres do modernismo brasileiro. As montanhas e o casario da região foram também o tema principal das telas de Alberto Guignard. Ainda no âmbito nacional, destacam-se a homenagem de Carlos Drummond de Andrade, no livro "Claro enigma" (1951), e o envolvimento de Cecília Meireles com o cenário da Conjuração Mineira em "Romanceiro da Inconfidência" (1953).
Entre os artistas juiz-foranos, destaca-se o nome de Carlos Bracher, que adotou a cidade como lar há 40 anos. O primeiro contato, entretanto, aconteceu em 1964, quando, acompanhado de sua irmã, Nívea Bracher, o artista decidiu passar uma temporada no município para pintar. "Aquela beleza nos causou um enorme impacto. Era nosso primeiro contato com esse mundo encantado do passado que a gente tanto ouvia falar. Queríamos nos defrontar com esse mistério", relata Bracher.
Conforme o artista, Ouro Preto desperta inspiração não só por ter sido capital do estado, mas por ser o local onde viveram personagens como Mestre Ataíde e Aleijadinho. "Foi um alumbramento em nossas almas", descreve Bracher, que se tornou frequentador assíduo da cidade até embarcar para a Europa no final da década de 1960, quando ganhou o prêmio Viagem ao Exterior do Salão Nacional de Belas Artes. Na opinião do juiz-forano, datam dessa fase alguns de seus melhores trabalhos. "Essa é uma pintura vertiginosamente expressionista, uma grande época."
De volta ao Brasil, dois anos depois, o pintor decidiu mudar-se para Ouro Preto para aprofundar sua relação artística com a cidade. Contudo, a temporada que deveria durar três anos acabou se prolongando mais do que o esperado. "Errei completamente nas contas. Essa cidade foi me tomando e criei raízes em seu subsolo." Mesmo depois de quatro décadas, o cenário continua instigando o artista, muitas vezes através de detalhes, como o bater dos sinos, uma porta antiga ou uma procissão que cruza as ruas. "Ouro Preto está sempre me oferecendo algo. É um lugar de carga poética avassaladora, e a arte é uma subsequência disso."
