
“Para curtir o show com conforto e estilo, abuse de cintos (com macramê, fios ou placas de metal), bandanas e lenços hippies.” Essa é apenas uma das recomendações da reportagem da Tribuna no dia do show de Sandy & Junior no início dos anos 2000, no Sport Club, que contou com uma mega produção e público esperado de 20 mil pessoas.
Esse evento é apenas um dos inúmeros exemplos de shows de médio a grande porte que aconteceram em Juiz de Fora, e que tinham como casa os gramados dos campos da cidade – tudo a céu aberto. Uma realidade um tanto distante, já que, agora, as apresentações acontecem principalmente em ambientes fechados e em lugares com menor capacidade de público.
O show do Luan Santana, que vai acontecer em agosto no Sport, é uma exceção nesse contexto, e uma oportunidade para relembrar desses tempos áureos. E não há exatamente um motivo que justifique essa mudança no cenário de shows em Juiz de Fora. É uma junção de fatores.
Fábio Ribeiro, que organizou os famosos festivais de rock junto com Marcos Petrillo, e que inclusive começou no campo do Sport, enumera fatores que possam ajudar a entender isso. “Antigamente, a galera ia para o show porque a arte era disruptiva, tinha propósito. Hoje, parece que as pessoas vão apenas pelo entretenimento. Eu não compreendo direito o que acontece.”
‘Catarse de arte’
Fabinho explica que o público em Juiz de Fora diminuiu muito, em sua opinião. E, com anos de produção de shows e fomento cultural na cidade, ele também afirma que as exigências são diversas e variadas. “Não dá para trazer o mesmo artista por dois anos seguidos, por exemplo. Em um ano, a casa enche e, no outro, o público já não vem.”
Somado a isso, vem também uma mudança comportamental. Ao invés de eventos que começam de noite e vão até a madrugada, as gerações mais jovens buscam, acima de tudo, o conforto. De acordo com dados da Morning Consult, 82% dos jovens preferem eventos que terminam mais cedo, e 60% dizem gostar mais de encontros diurnos e festivais que começam antes do pôr do sol.
O ex-produtor também explica que shows como os que eram realizados no Sport Club e no Tupynambás, em sua visão, são difíceis de retornar ao gosto da população. “Show no ginásio não é confortável, é rústico. Hoje as pessoas buscam a experiência, um bar perto e infraestrutura completa. É difícil que shows maiores retornem a Juiz de Fora por isso, falta aquela catarse de arte.”
Segundo uma edição da Tribuna em 1983, por exemplo, cerca de 10 a 12 mil pessoas se reuniram no Sport Club na primeira edição do Festival de Rock. E o frio durante a noite de shows foi tanto que as pessoas se reuniram no gramado em volta de fogueiras, o que causou grande comoção na época.
Outros eventos icônicos que marcaram a população juiz-forana foram o famoso show dos Mamonas Assassinas no campo dos Tupynambás, em que havia tanta lama por conta de uma tempestade que o público terminou o espetáculo coberto dos pés à cabeça. Além disso, artistas como Lobão, Marina, Paralamas do Sucesso, Ira, Kid Abelha, Titãs e RPM também já marcaram presença em uma cidade com vocação para espetáculos.
Apesar disso, Octávio Fagundes, que atuou como produtor de grandes eventos em Juiz de Fora pela Front, defende que o retorno de shows em espaços maiores como campos de futebol não faz sentido por conta do processo de produção e organização do espaço, sendo uma produção cara. Para ele, é essencial a criação de um espaço alternativo que comporte o público com conforto.
“Hoje é tudo muito profissional, você precisa de sistema de escoamento, de proteção do gramado, barricadas de segurança. O showbiz hoje exige isso, não dá para fazer nada de improviso.”
Fechado ou aberto: um desafio para além da acústica
Thiago Cotô, produtor da Cotô Eventos, um dos responsáveis por trazer o show de Luan Santana a cidade, explica que é difícil trazer artistas devido às despesas atreladas: “Custos com transportes, diária de alimentação, camarim com com muitas exigências e equipes enormes” – tudo isso pesa.
Além disso, a falta de um espaço que possa receber artistas com shows e produções maiores também é um empecilho. “É uma pena a cidade não ter um instrumento para grandes eventos, como um centro a céu aberto. Falta isso na cidade hoje em dia”, lamenta Octávio.
Por conta desse cenário, a alternativa é, muitas vezes, festivais que ocupem lugares públicos, como as praças. Para Octávio, “alguns tipos de eventos, de maior porte e gratuitos, que possam ser realizados durante o dia, podem, sim, ser feitos na rua”, sendo uma alternativa para espaços fechados e com menor capacidade de público.
Fabinho chama a atenção para o Dia de Rock, realizado em maio deste ano, na Praça Antônio Carlos. “Me surpreendeu muito ver tanta gente lá, ver aquela infraestrutura toda.” O tamanho do público, em uma iniciativa como essa, demonstra que, quando as opções de shows e eventos musicais aparecem, o público aparece.
‘A cidade necessita que isso volte’
O show de Luan Santana, que acontece em 29 de agosto, é uma produção da Cotô Eventos juntamente com a RDR produtora, Criar eventos, G&P eventos e Baleia Shows. “É uma produção cara, porque a gente tem que fazer tudo do zero, dividir os setores, a preparação do espaço, o gradil, camarim…”, conta Thiago.
Entretanto, mesmo com os custos da produção, o Sport Club foi eleito o lugar ideal para o show por ter o espaço disponível no dia e ser um lugar de fácil acesso, de acordo com o organizador. “Espaços como o Estádio Municipal, por exemplo, ficam difíceis de ser acessados pelo pessoal da Zona Norte porque fica caro. No Sport não, é fácil de chegar e conseguir um uber, um transporte coletivo.”
Apesar da decisão ter sido feita pensando no público, houve estranhamento. “Para ser sincera, não conheço muito sobre o local, mas esperava que seria no Estádio Municipal. Então, quando foi divulgado, me gerou um estranhamento. (…) Pelos comentários que vi, imagino que havia locais melhores”, afirma Letícia Badaró, fã de carteirinha do cantor sertanejo.
“Outros lugares também não suportam a capacidade de público que um artista como o Luan pede”, argumenta Cotô. “O Sport oferece isso. Estamos quase com os ingressos esgotados e a venda tem sido muito positiva.”
Ao mesmo tempo em que imagina que os shows maiores e em campos como o do Sport Club possam voltar, Thiago concorda com Octávio e Fábio sobre a necessidade de um outro espaço para receber eventos.
“O Parque de Exposições faz muita falta. Um local fechado com maior capacidade ou aberto também, dedicado para isso, faz falta e a cidade necessita que isso volte. Juiz de Fora tem demanda e público para isso, ao ser uma cidade bem localizada e com outros municípios perto, que também possuem demanda”.
*Estagiária sob a supervisão da editora Cecília Itaborahy

