
Idênia Gonçalves assumiu o Bar do Luiz depois do falecimento do marido
Com o crescimento do movimento, Tânia fechou seu comércio e tomou a frente do Bar do Abílio com o pai
No Sabor do Vale, Bianca assume o balcão, e a cozinha é do marido
Infelizmente, ainda há quem diga, em pleno 2016, que no boteco e na vida, o lugar delas é na cozinha. Queiram os conservadores ou não, as mulheres estão expandindo cada vez mais as fronteiras que lhes são impostas já quando nascem, conquistando cada vez mais espaços, direitos e papéis na sociedade. No botequim não é diferente. Cada vez mais, as mulheres vêm ocupando não apenas as mesas de bares, mas também um posto que tradicionalmente (ainda que de forma sexista) é atribuído aos homens: a função de “tocar o bar”. Não em pubs ou espaços sofisticados, em que elas poderiam ser proprietárias, empresárias ou administradoras, mas no bar “velho de guerra”, onde a identidade de quem é dono (no caso, dona) se confunde um tanto com a do estabelecimento – não raramente carregando seu nome -, e as atribuições de quem está à frente do local incluem cozinhar, fechar caixa, comprar ingredientes, servir mesas, atender balcão, pensar em cardápio e tudo mais que aparecer. Afinal, o olho da dona é que engorda o gado.
Em Juiz de Fora, vários bares aclamados têm mulheres no comando. É o caso do Bar do Luiz, onde muita gente chega procurando pelo homem que dá nome à casa, falecido há três anos. “Ainda hoje, alguns clientes que já conheciam o bar na época dele acham que foi vendido para outra pessoa, e quem não o conheceu chega perguntando por ele”, diz Idênia Gonçalves, que assumiu o batente após a morte do marido. “Sempre trabalhei no bar, que existe há 15 anos, mas uma grande parte dos clientes ainda estranha quando descobre que eu sou a dona, há uma resistência, um desconforto, eu acho, do público masculino, em ver uma mulher no comando”, opina a empresária.
Em um dos mais nobres pés-sujos da cidade (só na expressão mesmo, pois o bar é um brinco de limpeza!), o Bar do Abílio, há também uma mulher no comando, braço direito do pai, o notório Abílio. A princípio, Tânia Moreira ficava a cargo só do caixa do estabelecimento, mas, com o tempo, as atribuições foram crescendo tanto a ponto de ela fechar a loja de roupas que tinha e assumir de vez o bar como profissão. “Depois que vencemos duas edições do Comida di Buteco, nosso público cresceu demais. Tivemos que ampliar a loja, e meu pai precisou de alguém pra realmente fazer de tudo, como ele. Eu encarei o desafio”. Para Tânia, uma das maiores dificuldades que as mulheres enfrentam quando estão à frente de um botequim é o desrespeito à sua autoridade. “O homem, quando é dono do bar, é respeitado. Se o barulho fica alto demais e ele pede para a galera maneirar, eles acatam com mais facilidade. Com mulher, muitos acham que cabe fazer uma piadinha, passar uma cantada, o que é um absurdo. Corto logo, mas sempre com educação, tem que ter jogo de cintura para lidar com o público, mesmo nestas situações”, pondera.
No Bandeirantes, o bar Sabor do Vale pode fundir os miolos de quem ainda pensa que as panelas são ofício delas e o balcão, deles. Por lá, quem toca o negócio é Bianka Leyne, e a cozinha fica por conta de seu marido, Felipe Braga. “Eu até cozinho, mas prefiro comer. Deixo a culinária para o Felipe, e acho que todos concordam que, nesta categoria, ele é melhor”, diz ela, divertindo-se e, com a qualidade da gastronomia do bar, de apenas três anos, já chancelada com a vitória do Comida di Buteco de 2015. Bianka reconhece que ainda há preconceito e pouca representatividade feminina no setor, mas diz que isso nunca afetou o movimento de seu bar. “Os homens admiram meu trabalho, e as mulheres hoje são independentes, donas de si e também sabem que, caso apareça algum engraçadinho, a equipe do bar está a todo momento tomando conta. Mas nunca tivemos qualquer problema”, conta ela.
Uma por todas, todas por uma
Para Tânia, o público do Bar do Abílio se ampliou com a sua presença ao lado do pai. “Herdei dele o dom de lidar bem com o público. Quando entrei, o bar deixou de ser majoritariamente de homens. Tem mais jovens e mais mulheres, que na minha opinião ficam menos acuadas com uma presença feminina”, diz ela, que não perdeu a vida social por conta do trabalho. “Agora que estou lá todos os dias, meus amigos sempre aparecem, é bom para o bar e para mim”, comemora.
Idênia Gonçalves, do Bar do Luiz, também observou aumento da presença feminina depois que assumiu o batente. “Uma mesa de bar cheia de mulheres muitas vezes ainda é interpretada somente como mulheres que estão buscando paquera, e com homens isso nunca acontece. Comigo no bar, vejo que de certa forma elas se sentem protegidas contra um possível assédio. Desde que assumi o bar, vez ou outra chamo uma ou mais amigas, e elas se sentam nos banquinhos do balcão, conversando comigo.”
Independência e aprendizado para a vida
“Imagine a loucura. Leva criança na escola, dá banho, brinca, dá almoço, faz as compras para o bar, confere se tudo está no lugar para receber da melhor forma o cliente, sempre conferindo se a bebida ‘tá’ gelada, as mercadorias organizadas…” A rotina de Bianka, como a de qualquer dona de boteco, é pesada, mesmo antes de as portas se abrirem. Ainda assim, ela garante que não troca a agitação do boteco por sua antiga carreira, como advogada. “Por um lado a exigência é grande. O cliente é o meu patrão: absolutamente tudo tem que ser feito com carinho, higiene e boa vontade. Lidamos com vidas, e isso é muito sério. Um cliente insatisfeito se multiplica. Por outro lado, é uma delícia conhecer novas pessoas. Muitos são clientes hoje, amanhã viram amigos e, claro, amigas.”
Para Idênia Gonçalves, conseguir tocar o Bar do Luiz sozinha, mesmo com medo da insegurança de trabalhar até de madrugada, assédio e preconceito, representa uma virada na vida após a morte do marido, além de uma grande conquista pessoal. “Aprendi sobre ser uma pessoa mais forte. Hoje em dia, se obstáculos aparecem eu encaro com mais naturalidade e mais força. Tive que crescer sozinha, na marra, com muita dificuldade e responsabilidade. Mas hoje sei que posso conseguir qualquer coisa que sonhar. E levo isso para todas as áreas da minha vida.”

