
Espetáculo reúne 13 atores, entre eles Márcia Falabella (a revolucionária), Fátima Amorim (camponesa) e Michel Costa (Rei Pavão)
Era uma vez uns políticos que se aproveitavam dos reinos onde trabalhavam para construir seus próprios castelos. No fim dessas muitas histórias, restaram grades ou pizzas. Não é preciso muito esforço para recordar os nomes, as instituições e as altas cifras. Os pequenos e grandes desvios são velhos conhecidos dos brasileiros. Não é à toa que o país ocupa o 69° lugar no ranking sobre corrupção no mundo, divulgado ano passado pela organização Transparência Internacional, que analisou 175 países. Para as crianças, então, não se trata de surpresa, já que crescem rodeadas por onipresentes notícias acerca do assunto. E certo de que qualquer possibilidade de naturalizar o tema é como se lançar ao abismo, José Luiz Ribeiro traz à cena seu novo texto infanto-juvenil, “O Rei Pavão”, cuja estreia acontece nesta sexta, às 20h30, e segue em cartaz até a última semana de junho.
Na história, um rei muito vaidoso gasta toda a fortuna do reino na compra de suas vestimentas. Até que uma mulher comum percebe o ato corrupto – “Ela é a única pessoa que enxerga o que está acontecendo”, diz José Luiz – e desperta a atenção dos que a circundam. Revoltado com a ousadia dela, o monarca manda prendê-la. Atrás das grades, ela encontra outros dois presos, considerados espiões, e eles traçam um plano para criar uma roupa para o rei. Satisfeito, o governante desfila com a veste, mas, seguindo a estratégia da mulher, acaba ficando apenas de cueca.
“Esse espetáculo está extremamente atual para o tempo em que vivemos, de pessoas vaidosas que se dedicam, exclusivamente, a enganar o povo”, comenta o autor e diretor, citando as referências em “O retábulo das maravilhas”, de Miguel de Cervantes, e em “A roupa nova do imperador”, de Hans Christian Andersen, além do próprio noticiário. “Vivemos o momento em que se bate panela. É preciso dizer: ‘olha, o rei está nu’. A peça faz essa discussão sobre a vaidade humana, como o poder corrompe as pessoas, e como a falta de vigilância do povo alimenta a corrupção”, dispara José Luiz.
Contada em forma de comédia musical, a narrativa de tintas fortes se aproveita dos risos. E, no final das contas (que não fecham), rir é o que resta. Mas “O Rei Pavão”, na verdade, busca, pelo riso, a noção de gravidade. O governante soberano cruza o palco, em diferentes sequências, desfilando trajes diferentes. A repetição, assim, de cômica acaba tornando-se incômoda. “É um rei manequim, que anda desfilando e sempre está preocupado se está bonito”, aponta o diretor, que assina todas as canções. “Elas fluem naturalmente. No início, batucava muito na máquina de escrever, depois ia para o piano, só para ter uma ideia do que queria. Mas o resto da melodia é Dionísio Giovanini quem resolve, há 30 anos.”
Pessimista?!
Novamente a voz por trás do Grupo Divulgação, José Luiz Ribeiro se volta para temas polêmicos, de forte cunho social e político. Contudo, se em “O conto da morcegada”, do ano passado, abordava a noção de justiça e a questão ambiental, agora é incisivo ao retratar o que os jornais ofertam todos os dias. “A gente tem que falar. Essa é a nossa forma de modificar. O teatro infantil é a semente, e o que falta são as fábulas de moralidade. Tem que ser lúdico, mas também brechtiano, porque o que está aí (produções de teatro e TV) é um desserviço no tratamento à criança”, defende.
“Normalmente o teatro infanto-juvenil que fazemos permite muitas leituras, porque cada público consegue perceber questões diferentes. Nosso trabalho não é marqueteiro. O importante é que o palco induza o espectador a pensar”, afirma o artista, sem abraçar pontos de vista e colocando na fogueira tanto seu rei quanto seu povo. “A fim de bordar o manto, os alfaiates acabam fugindo com o dinheiro do reino, e é o povo quem decide o que fazer com aquilo. Esse é o momento que estamos vivendo”, comenta, sugerindo a partilha de responsabilidades e participações efetivas. A cada um, segundo ele, cabe uma panela.
Dizendo-se cada dia mais surpreso com os rumos de tudo, José Luiz chega a dizer, ao telefone, que esse é o fim dos tempos. Crítico voraz, o homem de cabelos grisalhos, responsável pela companhia teatral mais longeva da cidade, que permeou a vida de diferentes gerações, mantém-se entusiasmado e fala depressa. Mas, como pode? Dizer tudo com intensidade e também sugerir o ponto final? Resolvo então, perguntar-lhe, se esse estado de consciência do mundo, que leva para os palcos, é fruto de um pessimismo. Ele recusa. “Existe um pessimismo muito grande na sociedade, não em mim. O que quero dizer é que não podemos abandonar as armas da luta”, responde, ansioso com a nova arma que empunha a partir de sexta.

