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Personagens para qualquer tempo

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Emília, Dona Benta, Narizinho, Pedrinho e Tia Nastácia figuram no imaginário de brasileiros de todas as idades, mas não exatamente com as mesmas feições. A partir de hoje, os personagens do Sítio do Picapau Amarelo voltam a ocupar a grade da Rede Globo, experimentando um modelo inédito. Como animação, a criação de Monteiro Lobato vai em busca de uma nova geração de espectadores, acostumada com uma linguagem televisiva bem mais ágil do que a original dos anos 1970 e do remake produzido entre 2001 e 2007. Por outro lado, a nova série comprova o fôlego de uma obra publicada há 90 anos, mas que continua se adequando a diferentes linguagens. Monteiro Lobato é um escritor muito rico. Há uma grande diversidade de temas no ‘Sítio do Picapau Amarelo’. Ele foi inovador também ao aproveitar personagens de outros escritores, incluindo referências até a histórias em quadrinhos. Isso dá uma abertura infinita à obra, avalia a professora de literatura do Centro de Ensino Superior (CES-JF) Cláudia Paixão Coutinho.

A animação que estreia hoje é baseada no livro Reinações de Narizinho e terá 26 episódios. O traço simplificado, de olhos grandes e corpo arredondado, foi criado pelo desenhista Bruno Okada, escolhido em concurso com oito ilustradores. Apesar da cara de Meninas Superpoderosas, a série promete valorizar a cultura brasileira, retratando o interior de Minas, Rio de Janeiro e São Paulo. A família de Monteiro Lobato participou de todo o processo, desde a criação dos desenhos até a aprovação das sinopses.

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As vozes de Emília, Narizinho e Pedrinho são feitas por crianças, os atores Isabella Guarnieri, Larissa Manoela e Vini Takahashi, respectivamente. O papel de Dona Benta foi entregue à atriz Gessy Fonseca, de 87 anos, que já havia dado voz à personagem no primeiro programa de rádio feito com a turma do Sítio, em 1943. Na época, Gessy teve a oportunidade de conhecer Monteiro Lobato em pessoa. O tradicional tema de abertura de Gilberto Gil ganhou nova versão, mais acelerada, para a animação. O próprio compositor se incumbiu de preparar a adaptação, que tomou andamento e arranjo mais condizentes à linguagem dos cartoons.

Com duração de 11 minutos, os episódios terão não só as aventuras narradas nos livros de Monteiro Lobato, como capítulos inteiros criados pelo roteirista Rodrigo Castilho a partir de indicações deixadas pelo autor. Um dos desenhos, por exemplo, toma como base o comentário de que Rabicó não tinha boa memória para cumprir suas promessas. É importante observar que a TV não comprou as histórias de Monteiro Lobato, mas seus personagens. Portanto, ela nunca teve obrigação de ser fiel à obra, comenta Cláudia Coutinho, que afirma ter boas expectativas em relação à animação. Acho que é uma linguagem diferente, que ainda não foi explorada e capaz de atingir outro tipo de público. O desenho ainda tem a vantagem de permitir uma versão mais leve e alegre desses personagens.

Leitora de Monteiro Lobato na infância, Cláudia acompanhou a estreia da série na TV com interesse crítico e avaliou positivamente a iniciativa. Na época, houve quem criticasse as adaptações em relação ao original, mas sempre houve essa liberdade de adaptação ao meio em questão. De qualquer forma, sempre acho que há algo de positivo, pois, mesmo quem não leu a obra, passa a saber que ela existiu, opina.

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A nova versão de O Sítio do Picapau Amarelo – que custou R$ 4 milhões – tem ambições maiores do que suas adaptações anteriores. A intenção é atingir o mercado global, a começar pela América Latina, por meio da veiculação pelo canal fechado Cartoon Network. Em abril, a série será comercializada em uma feira especializada em Cannes, a MipTV. A direção ficou a cargo de Humberto Avelar, vencedor de prêmios Anima Mundi. A equipe conta, ainda, com o reforço de profissionais que trabalhavam fora do Brasil, como André Mehmari, storybordista de Scooby-Doo.

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Diferentes gerações, mesmos personagens

Quando o Sítio do Picapau Amarelo estreou em 1977, a escritora Neli Aquino já estava na adolescência. Mesmo assim, não perdia um só capítulo da série. Já não era mais uma criança, mas o Sítio me divertia muito. Até hoje, tenho minhas referência naqueles episódios. Vinte anos mais tarde, a nova versão da série não provocou o mesmo encantamento por escapar da verossimilhança com a prosódia e com os cenários da vida interiorana. Não sei se é por causa da minha idade na época, mas a revisita já não me causou o mesmo encantamento. No original, parecia que os atores não estavam vestindo figurino, mas que eram eles próprios os personagens. Depois, tudo ficou mais alegórico, avalia.

Embora não tenha aprovado a segunda versão do Sítio com atores, Neli acredita que a animação tem tudo para dar certo. Os meninos de hoje já nascem plugados. É uma forma de atualizar a história tradicional, usando linguagem de hoje.

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Hoje com 22 anos, a estudante Anna Carolina Mancini acompanhou os episódios da regravação do Sítio, em 2001. Antes disso, havia conhecido a versão original em reprises na TV, sem grande envolvimento. Mais tarde, por indicação da mãe, voltou a assistir os episódios em DVD e se surpreendeu com a qualidade da produção da década de 1970. Apesar de sentir a diferença no ritmo da narrativa entre as duas adaptações, Carolina afirma preferir a série pioneira. A versão mais recente também é boa, mas não gostei dos efeitos especiais introduzidos e dos bonecos usados, como a Cuca e o Marquês de Rabicó. Acho que a série original captava melhor o clima mágico e meio bucólico das histórias, diz.

Em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, o colunista Marcelo Coelho narrou a experiência de assistir o DVD de O minotauro com os filhos de 7 e 5 anos de idade. Aos olhos do jornalista, os episódios com o elenco da década de 1970 impressionaram pela densidade do texto, escrito por Benedito Ruy Barbosa e pelo ritmo lento, algo que causa estranhamento imediato nas novas gerações. A dramaturgia, vista a 20 anos de distância, parece de sofisticação extrema. Os conflitos entre Teseu e Dionísio, os debates entre Heródoto e Dona Benta, parecem obra de Sófocles hoje em dia, escreveu.

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Sábados, às 10h45

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