O curta Braxília, de Danyella Proença, foi o vencedor da mostra nacional do Primeiro Plano – Festival de Cinema de Juiz de Fora e Mercocidades. Abordando a visão do poeta Nicolas Behr sobre a capital brasileira, a produção ficou com o troféu de melhor filme. Já na categoria regional, o escolhido foi Sobre cinema e diálogos, de Yuri Westermann, que levou a escolha do júri popular e o prêmio Incentivo Primeiro Plano. O anúncio dos vencedores aconteceu no sábado, durante a cerimônia de encerramento do festival, no Alameda Espaço de Cinema.
Entre os curtas nacionais, a premiação foi bastante equilibrada. Nove dos 24 filmes concorrentes na modalidade levaram algum troféu. Qual queijo você quer?, de Amélia Bittencourt, e Cine Camelô, de Bruno Lasevicius, foram as produções que mais venceram, levando quatro categorias cada uma.
Yuri Westermann conta que a premiação de Sobre cinema e diálogos foi uma surpresa, uma vez que o filme foi produzido sem maiores pretensões, para uma disciplina do curso de artes da UFJF. O curta conta a história de um ator que se recusa a trabalhar com cinema por considerá-lo uma arte inferior. O preconceito do personagem é exposto em um diálogo entre ele e seu advogado.
Pelo recurso que tínhamos, não esperávamos tamanho resultado, comenta o protagonista do filme, Carlos Magno Létes. Apesar de terem feito a disciplina Cinema e diálogos, no Instituto de Artes e Design (IAD), ator e diretor do curta cursam ciências sociais na UFJF. Yuri, que tem alguns roteiros prontos, pretende investir em uma ideia nova, mais adequada aos recursos financeiros (R$ 5 mil) e à estrutura oferecida pelo prêmio Incentivo Primeiro Plano. A nova produção do estudante será conhecida na próxima edição do festival.
Coragem para encarar Guimarães Rosa
De acordo com a assessoria do Primeiro Plano, a média de espectadores do festival foi de 600 pessoas por dia. Os longas Ibitipoca – Droba pra lá, do juiz-forano Felipe Scaldini, e Las acacias, do argentino Pablo Giorgelli, estiveram entre os recordistas de público desta edição. A noite de abertura também rendeu lotação esgotada, com a exibição de A hora e a vez de Augusto Matraga, de Vinícius Coimbra.
Contra tudo e contra todos, a produção chegou à última edição do Festival do Rio, em outubro, desacreditado pela crítica e saiu consagrado com cinco prêmios, incluindo melhor filme na opinião dos júris oficial e popular, ator (João Miguel) e ator coadjuvante (Chico Anysio), além de um troféu especial para Chico Anysio. Para o diretor, o estreante Vinícius Coimbra, a vitória na escolha popular demonstra que o longa atingiu seu principal destinatário, os espectadores que não tiveram contato com a obra de Guimarães Rosa. Desejava que essa história chegasse ao público brasileiro, que lê cada vez menos. A beleza da obra de Guimarães alcança a todos os públicos e agrada mesmo quem não é literato. Isso faz com que o filme se comunique bem, comenta.
Impregnada de vícios e virtudes da linguagem popular e dos tão conhecidos neologismos, a literatura de Guimarães Rosa não figura entre as mais acessíveis ao grande público, fato que leva muitos diretores a simplificarem uma das principais contribuições do escritor em sua adaptação para a linguagem audiovisual. Coimbra, ao contrário, preferiu evitar decodificações, apostando no poder de comunicação da obra. Alguns diálogos do conto estão presentes na íntegra no filme. Talvez, esse seja um dos maiores méritos da produção e, sobretudo, do elenco, capaz de tornar a sintaxe peculiar de Guimarães tão espontânea quanto a dos sertanejos que serviram de inspiração para o escritor. Destaque não só para os premiados João Miguel e Chico Anysio, mas também para Irandhir Santos e Teca Pereira.
Tal desempenho foi alcançado sem que os atores tenham passado por um laboratório prolongado nas regiões sertanejas de Minas. Coimbra afirma que sua principal preocupação era criar um campo em comum entre os intérpretes (vindos de Bahia, Ceará, Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul), evitando que a produção se tornasse uma Babel de sotaques. Fizemos ensaios no Rio para que os atores pegassem a embocadura dos personagens e para que o elenco tivesse alguma unidade, relata.
Diretor de teledramaturgia na Rede Globo, Vinícius Coimbra sabe o que é contar uma história para um público vasto e heterogêneo. O cineasta, entretanto, não acredita que esse tenha sido o principal legado da TV em sua maneira de fazer cinema. Fazemos filme com dinheiro público, e, de alguma forma, esses recursos têm que retornar à população. Acredito nisso independentemente da televisão. A TV me ensinou a lidar com os atores e a contar uma história de maneira geral, diz.
A hora e a vez de Augusto Matraga conta a jornada brutal do fazendeiro Augusto, um homem truculento, à beira da morte depois de ser traído pela mulher e atocaiado por seu principal inimigo. Quase por milagre, consegue sobreviver ao ataque dos jagunços de seu rival, sendo resgatado por um casal de descendentes de escravos. A luta pela sobrevivência do personagem é marcada pela transformação espiritual. Augusto decide seguir os conselhos de um padre e passa a tentar domar o ódio e o desejo de vingança que o consomem. O encontro com o bando do temido Joãozinho Bem-Bem, entretanto, sinaliza que a hora e a vez do fazendeiro está prestes a chegar.
