
A exposição “Ouro, sangue e suor”, de Filipe Matias, chega a Ouro Preto neste sábado (8), e transforma pela primeira vez a Grande Mina Central da cidade em galeria de arte. Com a proposta de recuperar o protagonismo das pessoas negras na história do barroco brasileiro, o artista juiz-forano desenvolveu telas, cerâmicas e joias que prestigiam as heranças africanas na cultura nacional. “É como reivindicar esse espaço de violência com arte e com cor”, comenta, sobre a proposta da exposição que funciona de maneira imersiva nesse local, que foi um dos palcos de grande sofrimento para os povos colonizados no séculos passados. As obras seguem em exibição até 14 de dezembro.
A ideia de elaborar esse tema veio da vivência pessoal e da percepção de que era preciso transmitir as contradições sociais brasileiras na arte. “Eu me considero pardo. A família da minha mãe é negra e a família do meu pai é branca. Dentro dessa história, parte do meu sangue pede perdão e parte pede revolta”, conta o artista. O que pode fazer, então, é tentar desenvolver obras que também convidem o público a ter consciência da riqueza cultural dos povos africanos escravizados, da mesma forma que da violência histórica a que foram submetidos.
Na sua trajetória, isso ficou bem evidente pelo trabalho que realizou quando convidado pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) a visitar comunidades quilombolas da Zona da Mata. A partir desse trabalho, ele desenvolveu uma coleção de pinturas, fotografias e um documentário intitulado “Endireita mundo: a marcha aos quilombos”, que está disponível no YouTube e já mostra o interesse pela etnografia popular brasileira. “Quero devolver esse protagonismo mesmo que a história, a escravidão e o próprio colonialismo tentaram esconder. O barroco brasileiro foi basicamente construído e esculpido por mãos negras. Toda a dramaticidade e as cores do barroco vêm por essa herança”, explica.
No total, são 30 obras de arte, além das joias e das cerâmicas. Mas a ideia do artista é que as obras sejam alteradas ao longo do período de exposição, para que também o conjunto todo vá se transformando. Já a ideia de trazer as cerâmicas inspiradas nessa estética e as joias feitas de porcelana com ouro veio no mesmo sentido, ampliando as possibilidades de reflexão e trazendo, também nesse material, imagens que remetem ao sincretismo religioso e às tradições folclóricas. “Precisamos fazer uma revisão mental de como a nossa sociedade se constrói e como que a gente pode melhorar isso. É uma exposição que vai fazer as pessoas saírem pensando”, conta.
Experiência imersiva
A Grande Mina Central de Ouro Preto fica próxima da Praça Tiradentes, no centro histórico da cidade, e é completamente subterrânea. A intenção de Filipe é que também a experiência de visitá-la se transforme, e para isso preparou telas que levassem em conta a experiência no local, de pouca luz. “Usei uma tinta que lembra ouro, com purpurina, para remeter a essa cor”, explica, destacando que é justamente o contraste que o público verá, no local, que vai trazer o efeito desejado por ele.
Diferente de muitas obras barrocas exibidas em igrejas ou museus, no entanto, ele conta que fez questão de que o protagonismo fosse preto, seja em suas tradições ou representações. “Cada uma das peças é singular, foi esculpida e desenhada de forma única, e fazem parte do altar. Então, quem leva pra casa também é como se estivesse levando um pedacinho do altar”, diz.
