Há alguns meses, navegando à deriva na Internet, deparei-me com um programa super diferente: uma viagem de trem através do Pantanal mato-grossense. Minha esposa Claudia e eu começamos a curtir a ideia de viajar até Campo Grande (MS) de moto e, a partir de lá, embarcar no Trem do Pantanal. Com a moto devidamente revisada, partimos rumo a Poços de Caldas, nossa primeira escala.
A simpática Poços destaca-se pelos inúmeros hotéis e praças, amplas, floridas e bem cuidadas. Fizemos um city-tour visitando a Fonte dos Amores, o Recanto Japonês e o Mirante do Cristo Redentor, de onde se tem uma vista panorâmica da cidade. Na etapa seguinte, atravessamos boa parte de São Paulo, chegando a Araçatuba. Neste trecho, destaque para as estradas, com excelente padrão de piso e sinalização, mas com pedágios muito caros.
No final do terceiro dia, chegamos, já bem tarde da noite, a Campo Grande. A capital do Mato Grosso do Sul é uma cidade surpreendente: os espaços urbanos são muito amplos, com avenidas largas e trânsito tranquilo. Há uma imensa área verde formada pelos parques das Nações Indígenas e dos Poderes.
Aproveitamos a tarde para conhecer o Museu das Culturas Dom Bosco, que é dividido em duas alas – uma dedicada à cultura indígena e outra às ciências naturais. A única ressalva fica para a falta de monitores que guiassem a visita. Conhecemos também o Mercado Municipal onde são vendidos produtos característicos do Centro-Oeste – destaque, por exemplo, para o pastel de jacaré.
Finalmente, no sábado, embarcamos no Trem do Pantanal, que percorre 220km até a cidade de Miranda, gastando para isto o dia inteiro. Creio que nunca ultrapasse 40km/h, o que permite apreciar a bela paisagem pantaneira sem pressa. A primeira parada do trem é na cidadezinha de Terenos, onde assistimos a uma apresentação de dança feita por quatro índias, moradoras locais. Uma parada maior, de duas horas, é feita para almoço em Aquidauana, onde os passageiros do trem são carinhosamente recebidos com a apresentação de uma banda de música formada por jovens. Tínhamos a dica de que na vizinha cidade de Anastácio havia um restaurante que serve rodízio de peixes, uma sucessão de pratos – grelhados, assados, fritos, ensopados – simplesmente espetacular.
Para se ter ideia de como é o dia a dia do pantaneiro e conhecer a riqueza da fauna, a melhor maneira é visitar uma propriedade típica. Partimos então para a Fazenda San Francisco, que oferece o sistema de day use. Pela manhã, a bordo de um caminhão adaptado, assistimos a um verdadeiro show de animais: araras, emas, revoadas de grupos imensos de pássaros, exemplares de tuiuiú (ave símbolo do Pantanal, cuja envergadura ultrapassa 2m) e servimos de banquete para uma quantidade absurda de pernilongos.
Após o delicioso almoço, embarcamos na chalana- pequeno barco que dispõe de um deck elevado – para a segunda parte da visita. Agora, a sensação são os jacarés, que acompanham, imóveis das margens, a nossa passagem. Num certo momento, o guia oferece varas com anzol para tentarmos pegar piranhas! Minha mulher, pescadora experiente, foi das poucas a conseguir.
Chega o momento de iniciar o retorno, partindo da capital com destino a São Paulo. Programamos esta rota pelas excelentes (e sem pedágio) BRs 163 e 267 até a divisa, onde, após a belíssima transposição sobre o Rio Paraná, esta passa a ser a Rodovia Raposo Tavares. Em SP, fomos ao Mercado Municipal para matar duas vontades gastronômicas: o famoso sanduíche de mortadela e, honrando minha ascendência, os doces árabes.
Doze dias depois de nossa saída de Juiz de Fora, era tempo de tomar o caminho de casa. Finalzinho de tarde, pegamos a monótona (e perigosa) Via Dutra. Lá pelas três da matina, depois de exatos 3.275km, colocamos um ponto final nesta esplêndida incursão pelo coração do Brasil.
