
Criado há cerca de sete meses em Juiz de Fora, o Jovem Estrela Freestyle surgiu com a proposta de ampliar as possibilidades dos MCs para além das batalhas de rima. Marques, Samuca, Novaes e BR do Free integram o time, que combina participação em competições, preparação e desenvolvimento de projetos musicais. À frente do grupo está Arthur, de 20 anos, também conhecido como Assis.
Entre os primeiros resultados dessa trajetória está o desempenho de BR do Free no Duelo Nacional de MCs. Depois de vencer a seletiva de Juiz de Fora, o integrante também conquistou a etapa regional da competição, realizada em Muriaé, e garantiu uma vaga no Estadual de Minas Gerais. A classificação coloca o MC, e com ele o Jovem Estrela, mais perto das próximas etapas de um dos principais circuitos de batalhas de rima do país. A final acontece em Belo Horizonte, em novembro.
Da batalha ao estúdio
A ligação de Assis com a música começou dentro de casa, em uma família com pessoas que tocam e cantam. Incentivado pela mãe a ouvir rap, ele conheceu as batalhas primeiro como espectador, em um evento de hip-hop no Bairro Vitorino. A estreia rimando veio mais tarde, quando foi assistir a uma disputa na Praça de São Mateus, entrou para substituir um participante e terminou a noite como vencedor.
Depois daquela experiência, passou a frequentar outras batalhas de Juiz de Fora, incluindo a do Bandeirantes, onde também chegou a ser campeão. A visibilidade conquistada nas batalhas aproximou o freestyle de um sonho que já existia antes delas: trabalhar com música. Por volta dos 15 anos, montou um pequeno estúdio para gravar as próprias faixas e trabalhos de amigos.
Com a renda das gravações, Assis investiu em equipamentos e profissionalizou o espaço, que mais tarde se tornou a Jovem Estrela Records. Foi também dentro da gravadora que ele encontrou uma maneira de voltar ao universo que havia impulsionado sua trajetória, agora oferecendo a outros MCs o suporte que sentiu faltar quando começou. “Foi a forma que eu vi de retribuir tudo que a batalha me deu”, afirma.
Um time que nasceu das batalhas
Conhecidos por Assis desde a época em que ele competia, Marques, Samuca, Novaes e BR do Free foram convidados a formar o Jovem Estrela Freestyle há cerca de sete meses. A proposta era reunir os quatro em uma mesma equipe, acompanhar suas trajetórias e criar condições para que o desenvolvimento deles não dependesse apenas do que acontecia dentro das batalhas.
Para explicar o funcionamento, Assis compara o projeto a um time de futebol: “O Jovem Estrela seria a equipe, enquanto as batalhas funcionariam como os campeonatos disputados por seus integrantes. Os quatro seguem participando de eventos regularmente e representam o grupo nas competições de que participam, inclusive em viagens para outros circuitos, como os do Rio de Janeiro e de São Paulo”.
Fora das competições, a rotina inclui encontros aos domingos para gravação de vídeos, reuniões mensais e acompanhamento dos projetos musicais de cada integrante. A ligação com a Jovem Estrela Records também permite que os MCs usem o estúdio e desenvolvam trabalhos autorais, aproximando o improviso das batalhas de uma carreira construída para além delas.
Essa estrutura responde a uma dificuldade que Assis observou na própria experiência. Segundo ele, alguns MCs passam anos competindo e constroem reconhecimento nas batalhas, mas terminam esse período com poucos registros e sem suporte para transformar a visibilidade em outros trabalhos. Com o gerenciamento dos quatro integrantes, a intenção é ampliar essas possibilidades.
Profissionalizar sem perder a rua
A falta de estrutura é apontada por Assis como um dos maiores desafios enfrentados pelo freestyle. Ele se lembra de batalhas cheias realizadas sem microfone, caixa de som ou apoio financeiro e avalia que esse cenário contribuiu para que o movimento fosse tratado, muitas vezes, como algo pouco profissional. Segundo ele, a percepção também aparece na relação com contratantes, que nem sempre enxergam os MCs com o mesmo valor atribuído a outros artistas.
No Jovem Estrela, a tentativa de mudar essa realidade passa por uniformes, calendário de gravações, reuniões e preparação dos integrantes. A intenção não é retirar das batalhas a espontaneidade que as caracteriza, mas garantir que o improviso permaneça na rima e não necessariamente em tudo o que existe ao redor dela.
Ao definir o freestyle, Assis destaca a capacidade de criar no instante e estabelecer uma conexão imediata com quem acompanha. Ele recorda uma ação de Dia das Mães em que os integrantes improvisaram versos para mulheres nas ruas de Juiz de Fora e algumas se emocionaram. “O hip-hop e o freestyle têm um poder de comover muito grande”, diz.
Para o artista, parte do preconceito em torno das batalhas nasce do desconhecimento sobre o movimento e da imagem de marginalização que ainda acompanha o rap. Ao buscar apresentar o trabalho com mais estrutura, ele também defende a importância cultural de uma manifestação que reúne pessoas nas ruas e serve como primeiro contato de muitos jovens com a música.
Nos próximos passos, o Jovem Estrela pretende ampliar a estrutura da gravadora, criar mais espaço para treinamento e levar os integrantes com maior frequência a batalhas de grandes centros do Brasil. Também estão nos planos novos nomes para o time, uma loja com produtos da marca e eventos em Juiz de Fora com melhores condições de gravação e produção para outros MCs.
Se o freestyle depende do improviso para existir, a aposta do Jovem Estrela é fazer com que a carreira de quem vive dele não precise depender do acaso. Ao mirar competições maiores sem abandonar o cenário que deu origem ao projeto, Assis tenta construir para outros artistas a estrutura que diz ter sentido falta quando começou. “A gente quer chegar ao cenário nacional, mas também quer criar aqui o espaço que eu não tive quando comecei.”
*Estagiário sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy
