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Aprecie com moderação

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Qualquer usuário das redes sociais já constatou algo inevitável nestes tempos de compartilhamento de fotos em frente ao espelho, troca de indiretas virtuais e registro geográfico de cada passo das pessoas: a vida privada está cada vez mais pública. Para Potiguara Mendes, professor da UFJF e pesquisador em comunicação e psicanálise, este processo decorre do papel crescente da tecnologia em nossas vidas e na construção das identidades. Virtual e off-line se confundem em muitos aspectos atualmente. Depois da internet, não há como pensar em ‘eu’ sem ela. Se Marshall McLuhan, nos anos 1960, falava da tecnologia como extensão do homem, hoje podemos dizer que a equação é: pessoa = tecnologia = Eu. Não é apenas extensão, e sim integrante do eu.

Neste espaço em que a persona digital e a literal se confundem, estabelecer limites para o que deve ou não ser divulgado torna-se um desafio, e, muitas vezes, os usuários acabam expondo demais a própria intimidade ou a de outras pessoas. Réu confesso, o professor de idiomas Luiz Guilherme Castro conta que já errou a mão, muitas vezes, no que publicou. Uma vez, no Twitter, postei uma notícia de suposta corrupção envolvendo um político. Em menos de uma hora, recebi uma notificação da assessoria dele, pedindo que verificasse minhas fontes, e que, por favor, retirasse o tweet inverídico. Percebi que estava expondo a mim e até a minha família a possíveis inconveniências, conta ele, que pediu desculpas e desfez a postagem. Nessas horas, temos duas alternativas: Falar mais para tentar consertar, ou simplesmente apagar o comentário e torcer para que as pessoas esqueçam o mais rapidamente possível.

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Especialista em mídias sociais, Renan Caixeiro acredita que deslizes como o de Luiz Guilherme têm a ver com o desconhecimento parcial ou total das proporções que as informações e dados podem tomar quando publicadas na internet. O que faz as redes sociais crescerem é a interação entre as pessoas, como quando um amigo nos visita e mostramos nossa casa e um álbum de fotografias. O problema é que os usuários se esquecem de que o que está na internet é de domínio público, e não dividido apenas com quem confiamos.

Ciente de que a internet é o quintal do mundo, o jornalista, vlogger e apresentador do programa Qu4tro coisas, Pablo Peixoto, procura evitar qualquer exposição além da que é inerente a seu trabalho. Não dá para dizer que não me exponho tendo um programa no Youtube e na TV fechada, mas evito usar geolocalizadores, postar abertamente fotos de eventos familiares e controlo quem tem acesso a essas imagens e dados. Cada um tem o poder de controlar o tamanho do seu círculo nas redes sociais e decidir quem tem acesso ou não aos seus dados. No Facebook por exemplo, só aceito pedidos de amizade de amigos próximos e família.

Também com a vida profissional completamente associada às redes, a empresária e blogueira de moda Paula Resende, do blog Avec Charme, estabeleceu limites para o compartilhamento de conteúdo pessoal. Preciso usar um pouco da minha vida pessoal, dizendo onde fui na hora de postar um look do dia, por exemplo. Ou ainda deixar as redes sociais abertas para todos, como o instagram. É necessário pela minha profissão, mas é preciso ter atenção no que escrevo, bastante informação do assunto e bom senso.

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Depois de ter perdido a mão em algumas postagens, Luiz Guillherme passou a ficar mais atento com o que torna público, sobretudo por causa de seu trabalho. Como professor, sirvo de exemplo para os meus alunos e estou no radar dos pais deles. Só adiciono crianças se conheço os pais e eles me autorizam a fazê-lo. Depois de várias gafes, como postar fotos de amigos que não queriam ser marcados nelas, ofender opiniões divergentes das minhas, eu hoje filtro muito do que falo. Política? Só o lugar-comum. Esporte? Sempre respeitando todos os times. Religião? Sem nunca generalizar. Sim, eu fui picado pelo mosquito do politicamente correto. Mas é o preço que pagamos pelo bom convívio na praça pública das redes sociais.

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‘Espaços virtuais como compensação afetiva’

Para Luiz Guilherme, a superdocumentação da intimidade das pessoas tem relação com o fato de muitos usuários verem as redes sociais como compensação afetiva, como se, por exemplo, cada curtida do Facebook fosse uma espécie de afago. A diferença é que, ao fazer protegido pela tela do meu computador, tablet ou celular, eu tenho uma falsa (e irônica) sensação de anonimato. No fundo, óbvio, todos querem ser amados, queridos, e ganhar um ‘like’ no Facebook te deixa mais próximo desse carinho, opina.

Pablo Peixoto também acrescenta que este processo ocorre não somente por vontade de compartilhamento, mas também um desejo em assistir ao que as pessoas estão fazendo. Existem blogueiros que baseiam seu conteúdo em ‘vejam como minha vida é maravilhosa, todos os presentes que eu ganho e todos os lugares lindos que eu visito’. Acho isso estranho. Mas existe um anseio de parte da audiência de acompanhar essas vidas. Eu ainda gosto de um pouco de mistério. Acho que saber tudo sobre uma pessoa, o que ela gosta, onde vai, o que faz durante o dia, a torna bastante desinteressante. Não há mais nada para descobrir, só o que é mentira.

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Antes de taxar o excesso de compartilhamento da vida cotidiana como vilão da contemporaneidade, é necessário lembrar que ele próprio pode ser o caminho para um uso melhor das ferramentas sociais da internet, como aponta o professor Potiguara. A superdocumentação do cotidiano é importante para justamente possibilitar a identificação de chavões, estereótipos e clichês que muitas vezes não são percebidos como tais. Esta identificação traz chances de liberação de seus efeitos repetitivos – portanto, paralisantes – sobre nós.

Engrossando o coro, Renan Caixeiro destaca que a empatia, a identificação e mesmo a vulnerabilidade dos usuários criam as conexões que fazem das redes, de fato, sociais. Elas humanizam o perfil, deixando-o menos artificial e despertando interesse dos outros usuários para consumir aquele conteúdo. O importante é saber perceber quando a integridade, a privacidade e mesmo a segurança podem estar ameaçadas. Para ter esse parâmetro, uma boa regra é nunca postar nas redes algo que você não contaria em uma mesa de bar, por exemplo.

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