
Edney Silvestre estreia no gênero conto com “Welcome to Copacabana & outras histórias”
Edney Silvestre deixou Valença, município com pouco mais de 70 mil habitantes instalado no sul fluminense, para tentar a vida na cidade grande. Tinha 15 para 16 anos. Com o Rio de Janeiro, travou uma relação genialmente descrita nos versos de Carlos Drummond de Andrade que foram parar em “Welcome to Copacabana & outras histórias” (Record, 352 páginas), primeiro livro de contos do repórter da TV Globo e apresentador do Globo News Literatura. “Nesta cidade do Rio,/de dois milhões de habitantes,/estou sozinho no quarto,/estou sozinho na América.”
Os anos correram. Já são 50 anos de relacionamento. E, mesmo hoje, o jornalista estreante na literatura com “Se eu fechar os olhos agora”, romance ganhador do Jabuti de 2010, volta sua pena a personagens e histórias que se passam no Rio e para além do Rio, mantendo o olhar de estrangeiro. São 20 narrativas curtas, carregadas de dilemas éticos e morais, que trazem homens, mulheres, prostitutas, ricos, pobres, milionário corrupto, gay, travesti, imigrante nos Estados Unidos, criança abandonada e até um robô destruidor, concebido por Edney como uma espécie de alegoria do que se vive hoje no mundo.
“O Zak representa essa busca da eugenia que chegou ao ápice, ao horror, durante o nazismo. Fala-se em seres humanos que podem ser alterados geneticamente. Ora, se você pode alterar uma tendência genética, você pode também implantar outras doenças. Sem querer soar como um radical esquerdista, hoje há um abismo entre os que têm e os que não têm. A distância é cada vez maior e não apenas no Brasil. Esse percentual de “zilhardários”, que não chega a nem 1% da humanidade, torna-se cada vez mais poderoso, mais rico, e o restante da população, cada vez mais pobre”, sentencia ele, também autor de “A felicidade é fácil”, “Vidas provisórias” e “Boa noite a todos”.
Com a habilidade de um profissional das redações, Edney escolhe começar o livro com Regina, dona de um dos dramas mais envolventes de toda a obra. Ela é uma mulher de uns 50 anos, cujo sonho é conhecer Paris. Protela algumas vezes a viagem para ajudar os filhos. Estes, por sua vez, não hesitam em enviá-la para um minúsculo apartamento em Copacabana depois que o pai morre na hora exata de seguir para o aeroporto com a mulher. Solitária, Regina conhece uma cafetina, responsável por apresentar-lhe uma nova vida. Regina não se limita ao texto inicial, apresentado com uma narrativa fragmentada, volta em mais dois contos, incluindo o que fecha a obra.”Os personagens fazem o que bem entendem, não posso fazer nada. Isso o autor não comanda. Acho que só os americanos que ousam dizer que escreveram isso ou aquilo por conta disso ou daquilo outro. A gente nunca sabe direito”, afirma o autor que está entre os mais traduzidos do Brasil.
Tribuna – Em “Welcome to Copacabana”, você diz que traz uma constelação de desafortunados, de estrangeiros à deriva e que você próprio se sente um estrangeiro. Como é hoje sua relação com a cidade?
Edney Silvestre – Amo o Rio, vim para cá garoto. Sou fascinado pela cidade, mas é como um desses casamentos complicados em que você ama, às vezes você é amado, às vezes você briga. Acho um lugar muito difícil, como toda cidade grande. Nem sei se cidade pequena é melhor. É uma cidade de muita beleza, muita diversão, muita praia, muito barzinho, mas não é uma cidade que convida à intimidade. Desde que cheguei, por mais que eu goste, por mais tempo que eu passe aqui, nunca me senti em casa, como me senti, por exemplo, em Nova York. Essa, sim, é estrangeira. Mas, talvez, porque tenha tanta gente de fora, é uma cidade que não é americana, os próprios americanos dizem que é a cidade europeia mais próxima dos Estados Unidos, porque mistura europeus, asiáticos, sul-americanos, centro-americanos. O Rio me parece uma cidade de uma família. Quando você entra numa casa de uma família, as pessoas são gentis, mas você não faz parte daquela família. Você é convidado. Talvez essa seja a forma mais justa de falar do Rio de Janeiro.
– Em uma entrevista recente, você concordou com a repórter quando ela disse que a personagem Regina seria uma espécie de síntese de uma cidade grande decadente. No entanto, você diz que há algo nela que recusa esse fim. O Rio de Janeiro também recusa esse fim?
– Fui para Nova York em 1990, ela estava completamente decadente. No lugar que eu morava, você via gente fumando craque, gente se picando. Aí a reviravolta veio com Bill Clinton na presidência e o Rudolf Havenstein. Ela transformou e reviveu, as pessoas nova-iorquinas diziam que Nova York tem esses ciclos. Fica decadente, sobe, fica uma cidade caríssima como está agora, aí os nova-iorquinos não podem viver lá e são obrigados a se afastar. Nestes últimos anos com Copa, Olimpíada etc, as pessoas que moravam em bairros da Zona Sul do Rio, jovens em particular, foram expulsas de Leblon, Ipanema, Jardim Botânico, só que muitos deles foram para Copacabana. Então, está havendo um renascimento de Copacabana. Se você andar por Copacabana hoje fora de temporada turística, você vê inúmeros jovens. Por quê? Porque, como Copacabana era considerado um bairro “decadente”, os alugueis eram mais baixos. Então, quem não podia morar em Leblon e Ipanema, ia para lá porque está perto de tudo. E é um bairro interessantíssimo, que mistura os senhores, as senhoras, as viúvas, os jovens, as prostitutas, os drogados, os turistas. É o lugar que tem desde o inferninho mais decadente até o hotel mais luxuoso do Brasil, um dos maiores do mundo, que é o Copacabana Palace. Ele é um palácio. É uma cidade que naufraga e emerge, se afoga e sai viva de novo. Uma fênix.
– “Se eu fechar os olhos agora” te fez um dos escritores mais traduzidos do Brasil. Talvez isso te pressione a ser genial sempre. Como lida com a crítica?
– No caso de “Welcome to Copacabana”, só tive uma crítica que foi esquisita, todas as outras foram muito positivas. Mesmo que não fossem, escrevo porque tenho necessidade de escrever. Leio alguns livros que são elogiadíssimos e não vejo qualidade neles. Então, pode acontecer de o crítico, ou pelo menos o resenhador, não ver qualidades. Levei muito tempo para gostar, por exemplo, de “Memórias de Adriano”, de Marguerite Yourcenar. Nas primeiras vezes que li, me perguntei por que elogiam esse livro? Não ver qualidade é do leitor, e o crítico é um leitor.
– Sua experiência como jornalista de TV parece se refletir na sua escrita.
– Tudo deve fazer diferença, eu acho, na vida de alguém que escreve. Estou em televisão há 18 anos e, no restante da minha vida, fui tradutor, roteirista, jornalista de imprensa escrita. Acho que tudo isso fez diferença para mim. Agora há pouco, traduzi uma peça sobre Oscar Wilde que, dificilmente, vai ser produzida por causa dos custos, mas fez diferença. Eu, como repórter de televisão, estive no Iraque, e o que vi se reflete no que eu faço. No caso de televisão também. Até pouco tempo, tinha um quadro no Rio de Janeiro em que tinha chance de entrevistar e conhecer pessoas ditas anônimas, pessoas comuns, fazendo trabalhos extraordinários para suas comunidades. A mim, tanto coisas ruins quanto positivas me transformam muito.
– Por falar em entrevistar pessoas anônimas, como apresentador do Globo News Literatura, você conversa com grandes e pequenos escritores. O que te agrada mais?
– Nem sempre eu entrevisto pessoas que falam de livros de que eu, pessoalmente, goste, mas acho que são importantes. Acho importantíssimo apresentar ao público da televisão autores conhecidos, que têm aspectos pouco conhecidos. Digamos, Adélia Prado. Tive o prazer de entrevistá-la duas vezes e foram entrevistas reveladoras. Agora, também faço questão de mostrar escritores menos conhecidos que têm edições menores, que não chegam, às vezes, à chamada grande imprensa, e mostrar como esse trabalho é bom. Recentemente, a gente apresentou o Estevão Azevedo. Ele escreveu “Tempo de espalhar pedra” e ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura na mesma noite em que a editora dele, a Cosac Naify, fechou. Ele tem que ser apresentado, primeiro, porque o livro é bom. Como é que pode uma pessoa de tanto talento, premiado, sem sequer ser encontrado nas livrarias? Queria ler o livro e não encontrava, tive que encomendar. Um leitor comum nem encomenda. É um trabalho importante de ser feito não porque eu apresento, mas porque é preciso que Estevão Azevedo chegue a um leitor em potencial.
SALA DE LEITURA
No ar aos sábados, às 10h30, com reprise às segundas, às 14h30
Rádio CBN Juiz de Fora
(AM 1010)

