Um engarrafamento em plena Linha Vermelha, no Rio de Janeiro, não é exatamente o lugar ideal para encontrar o amor da nossa vida, principalmente quando o inconveniente vem a reboque de tiroteio com balas pipocando para todos os lados. Porém, no caso de Bia, a garota Azarada Carente Desesperada, conforme ela mesma relata, o destino resolveu não ser lá muito coerente com as circunstâncias. Em Azar o seu! (Jangada), da juiz-forana Carol Sabar, Ana Beatriz Guimarães é uma jovem de 25 anos, que perdeu o emprego de especialista ferroviária na FB Logística, após ser acusada, injustamente, de assediar seu estagiário. Desempregada, apesar do currículo contendo uma graduação em administração de empresas pela UFJF, pós-graduação em logística empresarial e em métodos estatísticos e computacionais, além de inglês fluente e 25 minicursos, não tinha outra alternativa a não ser ajudar o pai na floricultura de sua propriedade, enquanto aguardava o telefonema de seu headhunter.
Como se todas as suas dívidas e infortúnios não bastassem, dar uns amassos no próprio primo, durante enterro da madrasta dele, na cidade de Angra dos Reis, não é lá uma atitude de dar orgulho a quem quer que seja. Pior ainda depois de ele ter dado uma rapidinha, levantado as calças às pressas e fugido logo após o ato, deixando você lá, sozinha, suada e insatisfeita (pág. 8). Para azar dela (ou será sorte)?, na volta a Juiz de Fora, enquanto pensava na vida infeliz que levava, agarrada ao volante da Kombi Quatro Estações, ao lado, um lindo motorista de um Vectra GT prateado, de cabelo castanho escuro, barba por fazer e pele clara, mandava beijinhos e acenava como se a conhecesse, deixando-a indignada. Impedida de continuar andando, se viu deitada debaixo do veículo e abraçada ao desconhecido condutor do carro vizinho.
Acreditando que a morte estava próxima, Bia enxergou nele um Amparador Espiritual, que a aninhava em seu peito, e levaria seu desabafo apaixonado a Guga (Gustavo Vitorazzi), o menino rico responsável pelo beijo dado nela com sabor de céu, e irmão de Raíssa, sua amiga de infância. Apesar de ter reconhecido nele alguns traços familiares, não podia imaginar que aquele príncipe encantado era exatamente o garoto de dez anos atrás, de aparelho nos dentes e espinhas no rosto, e seu companheiro da banda Moscas da Sopa. Mesmo sem saber seu nome verdadeiro, Bia se vê completamente envolvida pelo cara: uma mistura de John Mayer e Tiago Iorc. Para facilitar meu trabalho como escritora, tento me inspirar numa pessoa que existe, e o John Mayer é meu músico predileto. O Guga se parece com ele no talento musical. Já fisicamente se parece com o Tiago, por causa do jeito descolado, por eles terem uma carreira semelhante e terem estudado em Londres, conta Carol, que já planeja uma próxima história a se passar num ambiente universitário.
Repetindo a mesmo fórmula utilizada em Como (quase) namorei Robert Pattinson, lançado em 2011 também com selo da Jangada, Azar o seu! chega às prateleiras com um texto leve e simples, próprio para adolescentes que não resistem a um amor cheio de encontros e desencontros. Em suas páginas, que tem Juiz de Fora como cenário principal, personagens percorrem pontos conhecidos na cidade, como o Cine-Theatro Central, durante uma apresentação do Festival de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, ou leem a Tribuna. Para namorar num local acolhedor, só mesmo aquela tradicional esticadela a Ibitipoca. Ambientação que exigiu de Carol uma passada nas montanhas para aprofundar as pesquisas.
Narrada em primeira pessoa, a obra consegue prender a atenção das leitoras pelas boas doses de romantismo e uma história bem contada. Além de amigo fiel e adorar música, Guga não mede esforços para conquistar a mulher amada: compra todas as flores mortas da floricultura para ajudá-la a quitar as dívidas e ainda a busca de helicóptero, de surpresa, no dia do casamento da irmã. Embora a autora não tenha em mente dar continuidade na história de Bia, ela entrega que um novo livro, agora sob o ponto de vista de um personagem secundário, como a Raíssa, não está fora dos planos, atendendo pedido de suas seguidoras – e agora fanáticas por Guga. Aliás, no fim de 367 páginas, só mesmo um triste desapontamento: Gustavo Vitorazzi só existe mesmo na ficção, para azar o nosso!
