Quando os tons de vermelho surgirem no palco do Cine-Theatro Central na noite de sexta, o público saberá que se depara com a protagonista de uma das óperas mais conhecidas do mundo, apresentada ao público em 1875, na Opéra-Comique de Paris. Na versão juiz-forana de Carmen, do francês Georges Bizet, Carla Rosa é a única a vestir vermelho. Soprano dramático, Carla será a intérprete da cigana que usa seus talentos na dança e no canto para seduzir os homens. A pocket ópera em concerto, apoiada pela Lei Murilo Mendes, nasceu nas salas de aula do Conservatório Estadual de Música Haidée França Americano, sob a direção da professora de canto Patrícia Guimarães, que também sobe ao palco para dar vida a Micaela, noiva do personagem Dom José.
Quarenta e cinco cantores – acompanhados pelas pianistas Maria Teresa Assis e Bethânia Guedes – compõem o coro adulto da adaptação. Outras 45 crianças e jovens, que fazem parte do Coral de Meninas Cantoras do Colégio Santa Catarina, também regido por Patrícia, darão voz ao coro infantojuvenil, em Avec la garde montante. São todos cantores locais, destaca a solista. O tenor lírico-ligeiro Carlos Eduardo Nascimento, um dos primeiros alunos do conservatório – e que hoje integra o elenco do Coro da Osesp, em São Paulo -, encarna Don José, um honesto cabo do exército que muda seus valores após se apaixonar pela andaluza Carmen. Escamillo, famoso toureador também enfeitiçado pela protagonista, é vivido pelo barítono Alexandre Pereira. Michele Flores e Polyana Monteiro fazem, respectivamente, Frasquita e Marcêdes, amigas da sensual espanhola. Além de alunos e ex-alunos do conservatório, o elenco é formado por professores, pintores, advogados, donas de casa, universitários. Conseguimos reunir pessoas que têm uma longa vivência em corais da cidade, explica.
Composta por nove das peças mais conhecidas, como Sur la place e Ária de Micaela, a ópera foi reduzida de três horas para uma hora e 15 minutos. Priorizamos as canções mais melodiosas e já reconhecidas pelo público, ressalta Patrícia. Para tornar o concerto ainda mais leve aos espectadores, um texto que relembra as alegrias, os amores e a morte de Carmen, interpretado pela atriz Cintia Brugiolo, costura a trama. O compositor desconstrói as melodias, e os personagens vão deixando de lado suas características. Também nesse sentido, buscamos desconstruir a linearidade, contando a história de trás para frente, em uma linguagem de fácil assimilação à plateia.
Ópera, jeans e tênis
A pocket ópera foi apresentada ao ar livre, no projeto Música no museu, no parque do Museu Mariano Procópio. Segundo Patrícia, os cantores, em traje de gala, logo despertaram a atenção de quem passeava pelo local. Imagine qual não foi a nossa surpresa quando vimos 850 pessoas naquele jardim lindo para nos prestigiar, relembra Patrícia, contando que apenas 200 cadeiras foram dispostas no parque para acolher o público. A apresentação aconteceu no dia 13 de maio. Por coincidência, no dia da Abolição da Escravatura no Brasil. Ao contrário do comum na Europa, nossa Carmen é justamente interpretada por uma mulher negra, reflete a solista, que se diz tentada a investir em produções voltadas à ópera brasileira.
Para Patrícia, um dos objetivos mais relevantes da adaptação é incentivar a convivência do público com o canto lírico. Não é a música que se ouve no rádio ou na TV, mas não deve ser vista como uma arte distante, defende. Não importa se vamos ao teatro de jeans e tênis, o importante é que esses espaços estejam abertos aos repertórios líricos, e que estes sejam acessíveis a todos os públicos, avalia a cantora, que acredita que, embora haja uma vivência cultural na cidade, os festivais de música clássica ficam, muitas vezes, restritos a alunos e professores.
Os ingressos para Carmen podem ser trocados por um quilo de alimento não perecível, a partir das 9h, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (Avenida Getúlio Vargas 200), e a partir das 8h, na Igreja Metodista Central (Rua Marechal Deodoro 700).
CARMEN
Hoje, às 20h
Cine-Theatro Central
3215-4400
