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Arte inclusiva

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"Esta é a obra das obras do Dnar." Foi assim que a viúva do pintor, Aída Célia de Andrade, descreveu o Centro Cultural Dnar Rocha (CCDR), inaugurado na manhã de ontem na antiga Estação Mariano Procópio, restaurada para a receber o espaço. "Ele sempre retratou estações ferroviárias em suas obras, é como se soubesse que um dia seria eternizado em uma delas, de uma maneira tão linda. É como se fosse um auto-retrato", completa Aída. Com três prédios e atividades variadas, o espaço é voltado para crianças e adolescentes de baixa renda, ampliando dois programas já existentes, voltados para a formação cultural: o Gente em Primeiro Lugar, iniciativa municipal criada em 2009, e o Poupança Jovem, projeto do Governo de Minas.

Para o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, o CDDR tem duplo impacto no cenário cultural da cidade. "O centro vai ser um espaço de formação completamente voltado para a cultura, que amplia o acesso dos jovens de baixa renda a este bem por meio da prática de atividades. Por outro lado, temos o reaproveitamento de um patrimônio tombado. O uso é a melhor forma de preservação."

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Bruno Quiossa, que assume a coordenação do CDDR, também argumenta neste sentido, destacando que o grande diferencial do CDDR é a difusão da arte e da cultura pela metodologia do "pôr a mão na massa". "O centro não será ou terá uma galeria de arte, não queríamos que fosse um ambiente de arte contemplativa, mas sim um espaço vivo de cultura, com oficinas, cursos, acontecendo o tempo todo." Para o coordenador de projetos da Funalfa, Sérgio Eloi, a inauguração do centro é um marco para as iniciativas que já vêm sendo desenvolvidas nos bairros, junto às comunidades, por meio do trabalho dos articuladores culturais. "Atualmente os cursos e oficinas de música, dança, teatro, entre outros, funcionam em qualquer espaço que o bairro possa destinar: igrejas, escolas, clubes e até casas particulares. Se já estamos obtendo sucesso operando desta forma, com toda infraestrutura que o centro poderá proporcionar, os resultados serão ainda mais positivos." Atualmente, o Gente em Primeiro Lugar atua em 63 locais de 52 bairros do município, atendendo cerca de seis mil crianças e jovens entre 5 e 14 anos.

Parte dos bons frutos apontados por Eloi pode ser conferida ainda ontem, na solenidade de inauguração do centro. Diante de autoridades políticas, militares, civis e cidadãos juiz-foranos, pequenos músicos e dançarinos encantaram a plateia com suas performances de flauta, percussão, hip-hop e sapateado. Se a princípio a timidez dos artistas era nítida, a redenção veio em forma de aplausos e transpareceu em forma de grandes sorrisos no palco. "O que vimos fala por si só e demonstra como este centro é um ambiente voltado para o futuro, capaz de mudar a vida destes jovens", ressalta o Prefeito Custódio Mattos. O ciclo de apresentações foi encerrado com a participação do humorista Pedro Bismarck, que, fazendo alusão à estação, disse ter chegado de trem. Ao contrário de um empecilho ao exercício do projeto, já que várias atividades têm o som como matéria-prima, Toninho acredita que a proximidade com a ferrovia só acrescenta à iniciativa. "O trem faz parte da vida cultural da cidade e, além disso, não pode servir como barreira para o acesso à vivência da arte. O projeto "Mangueira do amanhã", no Rio, é um sucesso e funciona debaixo de um viaduto. Mas vamos fazer um isolamento acústico nos ambientes, para que a sonoridade seja preservada."

Os três imóveis que integram o CCDR atuam de forma complementar, apesar de, cada um, possuir características peculiares. O principal deles, a "Estação Digital", foi equipado pelo Governo do Estado com computadores, videogames e outros aparatos tecnológicos, que serão utilizados em atividades como edição de imagem e som, e mesmo criação de jogos eletrônicos, entre outras. "Estamos usando o high-tech para seduzir os jovens, para a partir disso, explorar o potencial artístico da tecnologia, inclusive como formação profissional", destaca Toninho Dutra. Como o próprio nome anuncia, a "Passagem Cultural" faz a ligação entre os dois outros prédios, e abrigará o Centro Vocacional Tecnológico, que terá foco em atividades da cadeia produtiva da cultura. "É um espaço de formação dos futuros atores sociais do cenário cultural de Juiz de Fora. Oferecermos toda a capacitação para que se tornem profissionais desta área, mas mesmo que eles optem por outra carreira, estaremos formando consumidores de cultura para a próxima geração", explica Bruno Quiossa. O segundo andar do edifício será dedicado ao ensino de canto, teoria musical, flauta e diversos instrumentos. "Vai ser o embrião da Escola Municipal de Música Brasileira, projeto que queremos executar há tanto tempo", revela Toninho Dutra. O maior e mais extenso prédio do CCDR é o Armazém dos Ritmos, que guardará não mais artefatos e carga de transporte ferroviário, mas servirá como "depósito de talentos", conforme aponta Toninho. Este prédio será não apenas palco propriamente dito, já que pode ser transformado em um auditório para 250 pessoas, mas também abrigará atividades diversas ligadas ao corpo e ao ritmo, que incluem aulas de música, dança e teatro.

Os prédios ganharão vida a partir de agosto, quando as oficinas e cursos passam a funcionar na segunda quinzena de agosto, com expectativa de atender cerca de seis mil usuários até o fim do ano. Até lá, o centro fica aberto à visitação do público de segunda a sexta, de 8h a 22h. De acordo com a assessoria de comunicação da Funalfa, o projeto já teve aprovação da Lei Rouanet para liberação de uma verba de manutenção, que deve girar em torno de R$ 3 milhões. Segundo o coordenador do centro, Bruno Quiossa, o encaminhamento dos usuários será feito durante o mês de julho, utilizando dados do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), que serão disponibilizados pela Secretaria de Assistência Social. "Deste formulário, formaremos as turmas de iniciantes, que ainda não tiveram contato com projetos culturais da Funalfa. Já as turmas avançadas serão formadas por alunos que já participam das oficinas realizadas nos bairros." É o caso da jovem flautista Yasmin Mendes Lacerda, 15 anos, que arriscou seus primeiros sopros quatro anos atrás. "Aprender flauta mudou minha relação com a música. Mesmo que não me torne profissional, quero tocar para sempre."

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‘Gravado em Juiz de Fora’

Para a viúva de Dnar Rocha, Aída Célia de Andrade, o CCDR abre com chave de ouro uma série de homenagens planejadas para o artista, que completaria 80 anos no próximo dia 21. " O Dnar sempre dizia que queria seus quadros em todas as paredes de Juiz de Fora, agora ele está gravado em cada canto deste lugar, gravado na própria Juiz de Fora." E, de fato, Dnar está por toda parte do espaço que leva seu nome. Quatro de seus quadros farão parte do acervo fixo do local, sendo dois doados pela Prefeitura, um, pela MRS e um, por Aída. Duas outras pinturas, também pertencentes à PJF, estão em negociação.

Além destas, outras 15 obras decoraram uma das salas do Armazém de Ritmos na inauguração do espaço, todas cedidas pela viúva de Dnar especialmente para a ocasião. Para Toninho Dutra, a homenagem nada mais é além de justa. "O que vamos fazer pelos jovens no CCDR remete à própria história de vida de Dnar, que teve uma infância humilde em Tabuleiro e transformou sua vida por meio da arte. É esse potencial de transformação que estamos fomentando aqui."

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Uma parte da série de honrarias mencionadas por Aída começou ainda ontem, com o lançamento de um selo comemorativo, em parceria com os Correios, em menção aos 80 anos de Dnar. O material traz a bandeira de Minas Gerais sobreposta à paisagem serrana do estado, e a vinheta personalizada mostra a reprodução do quadro "Natureza morta com vaso e terrina". "Se a intenção era preservar sua memória, não existe forma melhor do que um selo, que poderá rodar o mundo todo", diz a viúva, emocionada.

Ainda este ano, dois outros eventos farão tributo ao pintor: o lançamento de um livro com suas obras e uma exposição com parte delas, ambos idealizados por Aída. Segundo ela, a intenção era executar os projetos ainda em julho, mês de aniversário de Dnar, mas os ajustes finais não foram definidos. "São tantas obras que vão sendo acrescentadas e é tão difícil deixar alguma de fora, que o livro vai crescendo, e, com ele, o orçamento. Por isso, preciso terminar de levantar a verba para concluí-lo como merece." A previsão é de que as duas homenagens sejam feitas na segunda quinzena de agosto. "

Aída adianta que uma nova publicação pode ser lançada no ano que vem, trazendo desenhos do artista em preto e branco, caso seja aprovada pela Lei Murilo Mendes, pela qual já passou na primeira fase. A compilação é resultado, assim como livro de gravuras, do trabalho tão sensível quanto árduo da viúva, ao reunir diversas obras de Dnar espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. "Cada trabalho dele que chega para ser incluído me traz uma tristeza e uma emoção muito profunda. É uma forma de ver o Dnar novamente, de estar com ele. Ele tinha um hábito que eu achava lindo, de acariciar os quadros, como se fossem pessoas, e merecia estar aqui agora para ver como estes filhos são amados."

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