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‘Sou especialista em transformar meus limões em limonada’

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"Comecei desde cedo a ser uma pessoa malfalada", ironiza Maria Andréa Loyola, ao reviver o passado, ora sombrio, ora luminoso, mas afirmativamente produtivo. "Era comportada, mas diferente das moças da cidade, porque me rebelei contra a repressão familiar que sofríamos na época." Graduada em 1960 em ciências sociais pela UFJF, Maria Andréa era professora do Instituto de Ciências Humanas da universidade quando, em 1969, o Decreto-Lei 477 a levou à aposentadoria forçada. O desligamento foi um dos primeiros casos da universidade pública brasileira pelo governo militar. Exilada na França, conviveu em um meio intelectual "fantástico", doutorando-se em sociologia pela Université de Paris X e se pós-doutorando pela l’École des Hautes Études en Sciences Sociales. "Sempre fui especialista em transformar meus limões em uma limonada."

Embora não tenha nascido em Juiz de Fora, a socióloga toma a cidade como sua, conforme relatou, ao trazer à tona suas memórias e seus posicionamentos ao mediador, o pró-reitor de cultura da UFJF, José Alberto Pinho Neves – bem como aos entrevistadores, professores aposentados pela UFJF, Murilio Hingel, Helena Meirelles e Avelino Kock Torres, além da socióloga Denise Paiva -, no projeto "Diálogos abertos", do Museu de Arte Murilo Mendes. O encontro aconteceu na semana passada, dia 29 de maio. Interna do Colégio Stella Matutina, Maria Andréa vê o período vivido como essencial para o despertar da consciência sobre si mesma. "Existem duas maneiras de enfrentar o internato: ou você se deprime, ou você se expande. E eu me expandi", avalia.

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A saída do internato foi seu "grito de independência". "Quando jovens, tínhamos uma maneira divertida de lidar com a cidade. Éramos um grupo de ‘intelectuais’, rapazes e moças, e publicávamos textos em jornais de personagens inventados, os quais todos acreditavam existir. Também nos convidavam para falar em festas. E de fato falávamos – as maiores abobrinhas -, mas todos aplaudiam", ri.

Os estudos antropológicos no Rio de Janeiro expandiram os horizontes da socióloga e levaram novas ideias às cadeiras da UFJF. "Existia um currículo humanista, mas não sociológico, antropológico. Por isso, o tema fez muito sucesso com os alunos", relata. Maria Andréa sofreu um processo interno na universidade por indicar uma leitura aos alunos. "Era um manual, como qualquer outro manual de antropologia. Leram o livro e entenderam tudo errado, afirmando que eu pregava coisas bárbaras", conta. "O episódio dividiu a universidade. Foi um ‘auê’."

O processo, aliado à pouca idade e ao seu alto cargo na Prefeitura – chefe de gabinete no primeiro Governo de Itamar Franco -, foram determinantes, segundo ela, para sua aposentadoria. "Nunca fui afeita a cargos administrativos, mas uma hora você tem que aceitá-los", avalia. Quando Itamar foi candidato, Maria Andréa liderou uma pesquisa de opinião na cidade. "Talvez a primeira no Brasil. Vimos que ele perdia desesperadamente, pois existia uma hegemonia política em Juiz de Fora", conta. A dúvida em publicar ou não a pesquisa foi desfeita por estrategistas da campanha de Itamar. "Disseram: ‘publica, sim. Porque o pessoal vai descansar, e a gente corre atrás’. E foi o que aconteceu."

Itamar foi eleito. "Nem sabia o que dizer na posse", confessa. "Era um período político muito instável, e ele podia cair a qualquer momento. Só fiquei sabendo que era a segunda autoridade na cidade quando o Itamar viajou, e me ligaram, em um fim de semana, avisando que ele estava sofrendo um impeachment. Foi por uma bobeira, e as coisas se acalmaram", conta. "Diziam que Itamar tinha ganho a eleição ‘cientificamente’. Mais uma vez, eu e a sociologia ficamos malfaladas."

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Maria Andréa estava no Rio de Janeiro, onde fazia mestrado em antropologia social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), quando recebeu uma ligação. "Era hora da ‘Hora do Brasil’, e me contaram que eu havia sido aposentada por decreto", conta. Negando-se a ir para os Estados Unidos, desembarcou em uma Paris cinzenta, que sofria com a pior nevasca desde 1830. "Foi muito difícil até me adaptar àquela realidade. Não sabia falar uma palavra de francês. Mas há males que vêm para o bem. Do ponto de vista intelectual, o exílio foi fantástico", diz. "Nunca fui comunista, nem de nenhum partido político. Como todo jovem da minha época, tinha uma ideia muito forte de justiça social. Acreditava que ia mudar o mundo. Tenho pena dos jovens de hoje, que não têm o idealismo e o romantismo que tínhamos naquele tempo."

 

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De volta a Juiz de Fora

 

"Quando voltei para Juiz de Fora, as pessoas atravessavam a rua ao me ver, e isso me constrangia. Só o pessoal da boemia me recebeu bem", ri. Após a Lei da Anistia, de 1979, Maria Andréa regressou ao país, mas, como aposentada, não podia trabalhar na universidade pública. "Fui lecionar na PUC de São Paulo." Em 1992, assumiu o cargo de presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério da Educação, no governo de Itamar Franco. "Mais uma vez, não tinha ideia do tamanho da coisa. Peguei uma instituição destruída. Mas conseguimos recuperá-la, restaurando as bolsas e as relações internacionais", diz. "Incentivamos o programa de pós-graduação no Norte e no Nordeste. As pesquisas se concentram muito no Sudeste e no Sul, assim como a renda. Mas, infelizmente, o programa não foi para frente em outras administrações. Esse é um dos problemas do Brasil", critica.

A reincorporação à UFRJ, em 1994, foi aceita como um pedido de desculpas do Estado. "É certamente uma tentativa de se fazer justiça", diz. Neste contexto, Maria Andréa destaca a importância da parte humana da Comissão da Verdade, recém-criada pelo Governo. "A grande função da comissão será trazer os mortos e desaparecidos para suas famílias. O Brasil está atrasado neste aspecto, e, sem adotar essas posturas defendidas pelos direitos humanos, não conseguirá fazer parte do Conselho de Segurança da ONU", avalia.

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Atualmente, Maria Andréa leciona no Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, onde atuou como pró-reitora de pós-graduação e pesquisa, entre 2000 e 2003. Embora considere que o país se destaque na América Latina na pós-graduação, não poupa críticas à educação básica. "A minha hipótese é que não há interesse real que a educação básica no Brasil vá para frente. Somos uma sociedade de classes, mas muito fragmentada. O conhecimento é uma arma, mas ele tem que ser bom, produto de pesquisa. Tem que criar, inovar, criticar, para, assim, mudar o mundo", defende.

Outro caminho retomado por Maria Andréa foi a antiga vontade de estudar belas artes, negado pela família em sua juventude, por não se tratar de uma "carreira bem vista para as moças". "Vi uma exposição na França, sobre o Dadaísmo, que me tocou profundamente. Daí, resolvi criar o meu movimento, heterogêneo, que se compromete apenas com a diversão. Inspirada no apelido de família – Dedeia -, criei o Dedeísmo."

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