
Criolo reuniu um time de produtores da nova geração para apresentar outras versões do seu álbum de estreia, que teve as masters perdidas
Se no princípio era o Verbo, o paulista Kleber Cavalcante Gomes sabe fazer uso da palavra. Mais conhecido como Criolo, o rapper que arrebatou o cenário musical brasileiro em 2011 com o álbum “Nó na orelha” se apresenta nesta sexta-feira no Capitólio com o show da turnê do álbum “Ainda há tempo”. Lançado originalmente em 2006 com uma tiragem de apenas 500 cópias, o trabalho ganhou versão repaginada, com produção de diversos nomes do novo cenário musical. O álbum está disponível para audição e download gratuito a partir desta sexta-feira no site do artista (www.criolo.net) e em diversas plataformas digitais.
O repertório do show desta sexta contará com músicas do álbum repaginado e também dos discos mais conhecidos de Criolo, “Nó na orelha” e “Convoque seu Buda”. O rapper será acompanhado no palco pelos DJs Dan Dan e Marco, com o produtor Daniel Ganjaman mixando ao vivo, direto da mesa de som, utilizando as técnicas dos soundsystems do reggae dos live P.A.s da música eletrônica. O artista plástico Alexandre Órion fica responsável pelas animações nos telões de LED. “A ideia inicial da turnê era celebrar os dez anos do álbum, que começou a ser confeccionado ainda em 2002. Era para fazer algumas apresentações comemorando a data, mas aí surgiu a ideia de refazer o disco, o negócio de dividir com o público essa história”, explica Criolo.
História, inclusive, não falta a respeito de “Ainda há tempo”. O trabalho foi lançado de forma independente na época em que o artista ainda se apresentava com o nome de Criolo Doido e começava a se destacar como um dos organizadores das célebres Rinhas de MCs – e que a divulgação por meio da internet e redes sociais avançava, mas não com a mesma velocidade para todo mundo. Se a contundência dos versos a respeito da vida nas quebradas paulistanas ainda mantém a força de outrora, o mesmo não se pode dizer das masters do álbum, que foram perdidas. Por isso mesmo, a proposta de refazer o álbum tendo as batidas originais como inspiração acabou vingando.
“As músicas já existiam, as letras, então foi mais um lance de retornar aquela ideia do hip hop, que é juntar um monte de gente para sair alguma coisa boa, criar junto, dar espaço. Foi daí que rolou essa construção, que teve direção musical do Daniel Ganjaman, com uma galera nova que produz rap recriando as batidas. Teve muita gente boa comigo, como o Dan Dan, que é fundador de uma das primeiras casas de hip hop do Brasil, em Diadema (SP). É um privilégio trabalhar com esses senhores, aprendo muito com eles até hoje”, elogia.
Confrontado com a sociedade de hoje e aquela retratada em 2006, Criolo acredita que houve mudanças, mas que falta muito a fazer. “O tempo passa, e muita coisa evolui, acontece, ainda mais agora que estamos num ritmo alucinado, de ‘tudo ao mesmo tempo agora’. Mas tem muita coisa para acontecer nessa construção de melhorias para todos, isso não ocorreu com a mesma velocidade das outras coisas. O abismo social ainda existe”, acredita, acrescentando que nem por isso os problemas enfrentados sejam uma espécie de “quanto pior, melhor” quando o assunto é inspiração para novas canções.
“Acho que pensar uma mudança positiva é o que nos inspira. É pensar em dias melhores, acreditar nisso, ver no rosto dessa juventude essa força, essa garra, o desejo de mudança. A desgraça só deixa a gente para baixo, tira o brilho das coisas. Quem se conecta com coisas positivas vai ter energia vinda exatamente desse lado. Algumas pessoas, claro, só pensam no seu próprio umbigo e ‘dane-se o planeta’, mas os pequenos milagres cotidianos acontecem todo dia, mas não dão ibope: é um amigo, um professor, pessoas que passam por nossas vidas e deixam um legado de positividade.”
CRIOLO
Turnê ‘Ainda há tempo’
Nesta sexta-feira, às 22h
Capitólio
(Avenida Deusdedit Salgado 4.088)

