Os instrumentos de percussão que produzem mais barulho são aqueles que logo chamam a atenção de Luísa. Na lista dos preferidos, despontam a castanhola, o caxixi e o reco-reco. Com apenas 10 meses de idade, a pequena tenta seguir o ritmo cadenciado do violão tocado pela professora, graduada em educação musical, Juliana Costa. Mesmo sem saber falar, Luísa balbucia as letras de canções já conhecidas, ensaiando as primeiras palavras. O ritual faz parte da aula semanal de musicalização, momento de descontração e troca entre a criança, a mãe, Adriana Vilella, e a professora, na Casa de Cultura Estação Palco. "É um processo de despertar, voltado a estimular o interesse da criança pelo som", resume Juliana.
"Quando assisti pela primeira vez a uma aula de musicalização infantil, a Luísa ainda estava na barriga", conta Adriana, que viu na atividade a oportunidade de se dedicar exclusivamente a brincar com a filha. "Além de estreitar esse vínculo com a mãe – ou com outra pessoa próxima à criança que queira participar -, a prática ajuda no desenvolvimento da percepção, da concentração, da coordenação motora, da fala", enumera Juliana.
"Aula de música não é, necessariamente, o mesmo que musicalização", esclarece a musicista e integrante da banda infantil Trupicada, Amanda Martins. "Hoje utilizamos a musicalização – esse despertar para os sons, para o ritmo, que utiliza o corpo, a voz, e nem sempre precisa dos instrumentos musicais – nas aulas de música, na qual a criança, ou até mesmo o adulto, vai estudar um instrumento específico", explica a flautista, que coordena o setor de música do projeto social da Prefeitura "Gente em primeiro lugar".
As transformações no ensino da música, que há alguns anos se baseava, sobretudo, no contato inicial com a teoria formal, são alvo de discussões entre especialistas. "A ideia é seguir o que acontece no desenvolvimento natural da criança. Ela fala primeiro e depois escreve. Deve acontecer da mesma forma com o aprendizado musical. Ela tem que vivenciar primeiro a música, para só depois sistematizá-la", diz. "É realmente muito maçante aprender a teoria, focar nas partituras, para tocar no instrumento pela primeira vez depois de três, quatro meses de estudo", observa Amanda.
A opinião é compartilhada por Juliana. Formada em piano e fruto de uma educação musical rígida – que, em certo momento da infância, quase a fez desistir da prática -, a musicista acredita que o grande desafio dos educadores do ramo seja "reformular os antigos currículos dos conservatórios". "As crianças de hoje têm muita informação e muitos compromissos. Se o contato com a música vira uma obrigação, deixa de ser prazeroso. Por isso, o ensino deve ser lúdico, não se pode abandonar a brincadeira, mesmo que esta exija responsabilidade", reforça.
Música feita com crianças
As 13 faixas da divertida sinfonia de "Quando eu crescer", protagonizadas por personagens como um elefante apaixonado por paçoca de urubu e uma onça com bafo de…onça, confirmaram a ideia de Fernanda de que fazer música para (e com) crianças não significa abrir mão da qualidade estética e musical. "Muito pelo contrário. Quanto menor o público, mais cuidado, pesquisa e capricho é preciso ter, pois estamos formando ouvintes. O diferencial da plateia infantil é que ela está atenta a cada detalhe. Creio que oferecer um bom material sonoro e letras de qualidade, mais do que ser interessante, é uma questão de responsabilidade social", defende.
Apesar de sancionada em 2008, a lei federal que torna o ensino da música obrigatório no currículo escolar não foi implementada em escolas públicas e particulares. O Ministério da Cultura detectou diversas medidas a serem tomadas para se cumprir a legislação aprovada, já que o prazo de três anos para as escolas se adequarem venceu em agosto do ano passado.
Embora seja considerada um avanço pela grande maioria dos educadores – e não haja dúvida de que o local mais democrático e acessível para aprender música seja a escola -, a lei apresenta pontos que precisam ser revistos segundo Fernanda e Amanda. "O primeiro é a aula ser ministrada apenas durante cinco ano do ensino fundamental, o que é um problema sério. Não dá tempo de ver todo o conteúdo mínimo nesse período. Para alguns conteúdos, é preciso menos ou mais maturidade", argumenta Fernanda.
Outro ponto citado por ambas é a não obrigatoriedade de uma formação específica em música para os professores do conteúdo. "É possível trabalhar ritmo, audição e outros temas sem ser músico. Já para as questões específicas da área, é necessário contar com um professor que tenha uma vivência musical, o que não está diretamente ligado à formação superior", argumenta Amanda.
Por fim, Fernanda ressalta a necessidade da elaboração de um currículo musical claro, com objetivos específicos para cada faixa etária, como temos para o português e a matemática, por exemplo. "E não é preciso ir longe, nem inventar a roda. Esse currículo existe e é muito sério. Basta procurar", finaliza.
