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Uma Rosa e seus espinhos

rosalina herdou o servico da mae e trabalha para ter sua casa arrumada rosalina herdou o servico da mae e trabalha para ter sua casa arrumada fernando priamo

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Rosalina herdou o serviço da mãe e trabalha para ter sua casa arrumada Rosalina herdou o serviço da mãe e trabalha para ter sua casa arrumada (Fernando Priamo)

Rosalina herdou o serviço da mãe e trabalha para ter sua casa arrumada Rosalina herdou o serviço da mãe e trabalha para ter sua casa arrumada (Fernando Priamo)

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Era Maria Maria, mas poderia ser Aparecida, Geralda, Cristiane, Regina e muitas outras. Poderia ser Rosalina, aquela que “é a dose mais forte e lenta de uma gente que ri quando deve chorar”. Numa casa simples, de chão cimentado e pintado em vermelho, com as paredes no reboco e poucos e antigos móveis, Rosalina de Souza me recebe com um sorriso no rosto que não se desfaz nem ao se lembrar dos momentos mais difíceis. É toda resignação. Como são muitas as mulheres de sua rua, de seu bairro, de sua cidade e de seu país. Aos 59 anos, preserva sonhos contidos. “Meu sonho é ver minha casa pronta, arrumadinha, do jeito que nós pretendemos. Nascemos aqui e sempre convivemos aqui, então, temos que fazer o possível para ter uma coisinha boa”, diz ela, que mora com a irmã Dorvalina, 55, e o sobrinho Rômulo, 33, a alguns metros do pórtico Norte da UFJF. Alcione, a outra filha de Dorvalina, hoje com 22, saiu e hoje mora em outro bairro, junto de um filho pequeno. No amplo lote de Rosalina, o chão batido, muitas plantas e, ao fundo, dois cachorros, dez patos, quatro gansos e cerca de dez galinhas. Na lateral da casa, material da obra que é sonho. “Vamos dar um tempo, para juntar um dinheiro, porque minha irmã está fazendo uma cobertura porque ali está chovendo”, aponta, contando da empreitada iniciada a duras penas em 2014. “Juntei uns recicláveis, e a gente fez a escada”, orgulha-se a mulher que trabalha no tanque, esfregando as roupas que a irmã passa e ela, depois, entrega.

As trouxas

Que “é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre”, Rosalina sempre soube. O pai operário da Ferreira Guimarães e a mãe lavadeira ensinaram aos cinco filhos. “Com 7, a gente já entregava roupa no Jardim Glória. A maioria das roupas da minha mãe era dali. E também na Rua Silva Jardim, na Barão de Cataguases e São Mateus”, recorda-se. Ela lavou muita roupa? “Eram 30 trouxas. Dessas todas, ficaram só as três de hoje. Ela lavava no córrego (de São Pedro). O bairro inteiro lavava roupa lá”, conta a filha que herdou o ofício e as trouxas da mãe. Quando a matriarca se despediu, há 33 anos, sete antes do marido, a família que Rosalina tem como seus patrões falou em descanso. “A patroa disse: Sua mãe faleceu, então eu lavo por uma semana, para vocês descansarem. Então nós falamos: Não! Vamos lavar, porque ficar sem trabalhar não vai trazer a mãe de volta”, lembra. E seguiu. “Lavo roupa para fora, mas minha irmã me ajuda, porque agora estou com reumatismo e artrose na mão. Quando ela está de folga, porque trabalha fora, ela passa. Minha mãe passava roupa muito bem. Eu não sei. Só sei lavar e fazer comida”, diz, aos risos.

As ondas do rádio

Em casa, dois rádios. Um grande, na sala, e outro, menor, na área da cozinha. Entre eles, o quarto de Rosalina. “Durmo aqui, mas vai mudar e eu já estou escolhendo o meu para quando a casa nova ficar pronta”, diz, mostrando a cama de solteiro no cômodo razoavelmente grande. “Vou escolher esse quarto aqui. Todo dia venho aqui olhar”, completa, apontando para o novo espaço, ainda com os tijolos aparentes. “É preciso ter manha, é preciso ter graça.” De volta ao rádio, conta do encantamento. “A paixão vem desde criança. Meu pai gostava muito de ouvir a ‘Ronda Policial’. No domingo tinha o programa que o José de Barros fazia, com o Barnabé e a turma da Maré Mansa. A gente sentava na beirada da cama e ficava escutando, naquela alegria”, recorda-se. Naquele tempo, quando ela pegava água de longe, porque a do poço de casa “não prestava”, chegou a ganhar prêmios como caixas de cerveja pelas apostas que fazia para os jogos narrados. Solteira, ajudando a cuidar dos filhos da irmã, sempre chamava o sobrinho ao telefone. “Peraí que o Rômulo vai falar”, dizia no ar da rádio. E Rômulo falava. E assim, Rosalina tornou-se conhecida dos radialistas. Seus amigos.

Os gansos Cravo e Canela

Católica (“De vez em quando vou no Kardec”, conta) e flamenguista, Rosalina não vê novelas, ouve música sertaneja e gospel, costuma viajar anualmente para Aparecida do Norte e gosta de ler livros e jornais. “Na leitura ninguém me passa”, diz ela, que abandonou as salas de aula na quarta série para ajudar em casa. As tempestades sempre foram fortes e duradouras. Quando foi preciso fazer o inventário nem com a ajuda das latinhas a conta fechava. “Não tínhamos dinheiro e, então, passamos fome para dar conta. A filha da minha irmã estava com 6 anos e me perguntou: Que dia vamos comer arroz? Virei para ela e falei: O dia que Deus nos der arroz, nós comemos”, recorda-se a dona de Cravo e Canela. Um dia, quando a irmã decidiu comprar um tênis, perguntou se Rosalina queria um também. “Ela falou assim: Você não quer um tênis não?! Aí eu falei: Se você não se importar, vou te falar uma coisa: Queria é um casal de ganso. Ela tinha recebido o dinheiro das férias e falou para eu ir lá e buscar.” Em seu chinelo de dedo, vestida numa saia jeans e numa camisa de malha branca estampada com a face da Virgem Maria, Rosalina – que poderia ser Maria Maria – conta e ri, com sua admirável (nunca estranha!) “mania de ter fé na vida”.

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