Um ingresso para um show de um cantor reconhecido no país no Cine-Theatro Central equivale a pouco mais de 18% do salário mínimo. Para uma família com dois adultos e uma criança, só os ingressos para uma sessão de cinema 3D no final de semana, sem considerar a pipoca, custam cerca de 5% do mesmo salário mínimo. Considerando o valor médio do livro em R$ 40, uma leitura mensal consome 4,5% desse já citado ordenado. Por conta de percentuais como esses, 29% dos brasileiros estão saindo menos para entretenimento fora da casa, conforme aponta a pesquisa publicada em fevereiro pela Mintel, multinacional fornecedora de inteligência de mídia e mercado.
A investigação feita com mais de 500 pessoas com mais de 16 anos também identificou que mais da metade dos brasileiros passou a consumir menos serviços e produtos relacionados à vida cotidiana na comparação com um ano atrás, assim como 33% afirmaram terem reduzido a ida a restaurantes. Em tempos de uma inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em janeiro, em 10,71%, para shows musicais chega a 22,95%, segundo informações do grupo Educação, Leitura e Recreação, mensurado pelo IPC-S da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Os índices consideram o acumulado dos últimos 12 meses.
De acordo com o economista da FGV, André Braz, cada item relacionado a cultura tem uma estrutura de custo, um espaço no mercado que pode facilitar a transmissão de índices inflacionários ou não. “No caso do livro, existem várias obras e vários locais para venda e, à medida em que a obra envelhece, o nível de preço costuma baixar. Por ser um setor de ampla concorrência, é mais complicado ver repasse de preço. Já em outros segmentos, como o da educação formal, é mais difícil ver aumentos tímidos”, explica. “Se até o final do ano não verificarmos uma melhora no cenário econômico, uma luz no fim do túnel, é provável que vejamos os serviços não essenciais passando muito aperto.”
Sem aumento, com público
Djavan, Sérgio Reis e Renato Teixeira e Almir Sater são alguns dos shows citados pelo diretor do Cine-Theatro Central, André Xandó, com lotação máxima e ingressos de, no máximo, R$ 160. Segundo ele, a maior casa de espetáculos de Juiz de Fora não se enquadra nessa inflação de mais de 20% para apresentações musicais, já que os produtores têm praticado os mesmos valores nos últimos dois anos. “Tanto as produções de fora quanto as locais têm seguido uma mesma tabela”, comenta, apontando para a facilidade que grandes nomes da música nacional têm em ocupar os quase dois mil lugares do espaço. “Produções de porte médio e com menor visibilidade, porém, estão tendo mais dificuldade de encher a casa”, pondera.
E praticar a mesma bilheteria se impõe como desafio para os produtores, já que a maioria dos custos apresenta aumento, incluindo o aluguel do espaço. Xandó adianta que para 2016 o Cine-Theatro Central já fechou o reajuste em 9,4%, quatro décimos abaixo do realizado em 2015, índice que gerou grande celeuma no meio artístico da cidade por ter sido maior que a inflação geral. “Não tem como não repassarmos todos os aumentos que tivemos esse ano, como salários de funcionários e energia elétrica”, pontua o diretor. Proprietário da Planet Music, Alpheu Villela Bastos Junior reajustou seus livros e discos conforme os fornecedores, mas a locadora que funciona em seu estabelecimento não alterou sua tabela.
Num momento em que a temeridade é imperativa, qualquer movimento pode ser arriscado, então melhor sofrer com a redução da própria margem de lucro a repassar e perder público. “As pessoas estão mais retraídas. Junto a isso, estamos num mês que não é muito propício”, pontua Alpheu, que, por ter mudado de endereço recentemente, não consegue comparar o desempenho deste ano com o do passado. “A novidade gera um grande fluxo”, aponta. “Estamos investindo, tentando prever coisas diferentes, ser criativo. A insegurança existe para todo mundo”, conclui o empresário, seguindo o passo mais importante para a sua classe, na opinião do economista André Braz. “Num momento de crise, é preciso buscar alternativas para sobreviver, e geralmente elas são em ganho de eficiência. Um pequeno empreendedor precisa ficar muito atento, porque pode acontecer o fracasso imediato de sua atividade. É mais comum ver os grandes fazerem esse dever de casa melhor, porque são mais organizados e têm um poder de barganha maior”, afirma Braz.
Na casa dos centavos
Esse ano foi diferente. A promoção que reduz o ingresso inteiro de cinema no Cinemais do Alameda durante um dia da semana a R$ 6 não saiu de cartaz no período das férias, como era costume. “Nesses dias era possível ver famílias inteiras nas salas”, conta a gerente geral Cintia Mundim Macedo. Conforme recorda-se, domingo era o dia habitual para as famílias assistirem a filmes, mas o cenário tem mudado nos últimos meses. Diferentemente do que aponta pesquisa da FGV, de uma inflação acumulada em 10,01% em fevereiro para valores de ingressos de cinema, o Cinemais fez seu último reajuste em janeiro de 2015, na ordem dos centavos. Há três anos, segundo a gerente, não é feita uma revisão na tabela que seja significativa.
Na pesquisa realizada pelo grupo Educação, Leitura e Recreação da FGV, livros e CDs e DVDs sofreram os menores aumentos nos últimos 12 meses, em 2,4% e -0,16% respectivamente. Ainda assim, as editoras padecem com índices cada vez mais negativos. Recém-publicada, a pesquisa feita pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros e pela Nielsen aponta queda de 7% na venda de livros de 2014 para 2015. “Não há mais espaço para consumir tudo o que existe pela frente. É preciso maximizar o desejo de consumo, ou seja, consumir o máximo de coisas interessantes com uma renda menor”, identifica o economista André Braz. “A inflação avançou muito e comeu o poder aquisitivo das famílias. Se tenho indivíduos na unidade familiar perdendo emprego e meu orçamento é menor por conta da inflação, vou cortar o supérfluo e vou ser mais seletivo. Não é que vá deixar de ir ao cinema, mas escolher melhor os filmes”, complementa.
Em seu dia a dia, a gerente geral Cintia tem sentido a gradual redução da audiência cultural. “Esse janeiro foi o pior em muitos anos. Há duas semanas, estamos com um movimento muito baixo”, lamenta. Braz, contudo, vê o sinal amarelo, mas não o vermelho. “A redução gradual de consumidores dispostos a frequentar salas de cinema ou teatro pode diminuir o número de espetáculos ou adiar outros. Mas não acho que a situação econômica chegou a esse ponto. Claro que não está confortável, mas isso ainda não está acontecendo”, comenta ele, contrário ao fato de importantes casas de shows no Brasil, como a Miranda, no Rio de Janeiro, e a Tom Jazz, em São Paulo,terem fechado suas portas no último mês. “Podemos até ver alguns negócios mudarem de local, buscando sobreviver, mas não creio que o impacto já seja visível”, finaliza.
