
Tonil Bras e Elpp Aravena viajam por diversos ritmos da América Latina com o Aldeia Groove, indo de raridades aos nomes da nova geração
Praticamente uma “ilha” de língua portuguesa em meio ao espanhol falado em toda a América Latina, o Brasil há muito parece ignorar a música que nossos vizinhos continentais produzem, ouvem e consomem. E não estamos falando de Julio e Enrique Iglesias, Shakira e outros nomes que abraçam o pop tradicional ou o cancioneiro romântico mais escancarado, que costumam habitar o dial das AMs e FMs, mas sim de artistas com os dois pés fincados nas tradições culturais de suas nações. É essa gente que poderá ser conferida, a partir desta quarta-feira, no Café Muzik, onde a dupla de DJs do Aldeia Groove vai comandar a festa “Mi casa, su casa”, com nomes das novas e antigas gerações dos ritmos latinos.
No lugar das rodas de samba, o evento vai ocupar a pista de dança do local, semanalmente, pelo menos até o final de janeiro. Para os que precisarem de uma ajuda para entrar no ritmo, a professora Luiza Goulart vai oferecer uma aula de ritmos latinos, toda semana, antes de os DJs colocarem a pista para ferver.
O Aldeia Groove é formado pelo acordo bilateral de gêneros musicais promovido pelo brasileiro Tonil Braz e o chileno Elpp Aravena, que desde 2012 estão aliados pela vontade de trazer outros ritmos para a noite dançante de Juiz de Fora. “Fazemos um trabalho de pesquisa que envolve música do mundo inteiro, mas para esta festa estamos direcionados para os ritmos latinos”, diz Tonil, adiantando que o público poderá agitar o corpo ao som de cúmbia, rumba, mambo, salsa, merengue e afrolatino, entre outros, de países como Colômbia, Chile, Peru, Porto Rico, Cuba e até mesmo do outro lado do Atlântico, chegando ao arquipélago de Cabo Verde.
“Nós tocamos artistas de diversas gerações, indo de Celia Cruz, Tito Puente, Cesária Évora, Hector Lavoe a Ondatrópica e Calle 13, uma dupla de Porto Rico de letras politizadas, que mistura o rap ao reggaeton e outros ritmos latinos”, enumera Elpp Aravena. “A música da América Latina é muito diversificada, sensual, dá flexibilidade ao corpo, e as pessoas ficam surpresas porque costumam conhecer apenas aquelas coisas que aparecem nas novelas, que muitas vezes são caricaturais.”
“A festa é feita para as pessoas que gostam de dançar”, acrescenta Tonil. “Elas reclamam que faltam espaços para quem está realmente a fim disso. Desde o início do Aldeia Groove, em 2012, tínhamos vontade de tocar para esse público, e a resposta sempre foi muito positiva. Tocamos para quem quer dançar músicas e ritmos diferentes, mesmo que não conheçam.”
Garimpagem musical global
Apesar de contarem com a mão do mundo digital para garimpar as músicas, o aldeia Groove tem entre 500 e 600 LPs de várias partes do mundo e que são utilizados durante os sets que promovem, tudo fruto das pesquisas feitas durante as viagens ao exterior e da própria cultura do vinil – o que significa não subestimar toda e qualquer loja de vinil que encontrar, por menor que seja, como exemplifica Elpp Aravena. “Nós encontramos muitas raridades nessas lojas, por preços bons e em excelente estado de conservação. Já consegui um vinil da Orquestra Aragón, uma das primeiras a tocar o chá-chá-chá em Cuba, por R$ 5. Na Espanha e Argentina, comprei diversos LPs chilenos, da época da ditadura, que não são encontrados no próprio país. E também fazemos encomendas vindas do exterior e trocamos ideias e músicas com diversos DJs do Rio, São Paulo e Belo Horizonte, entre outros, incluindo aí a galera do Vinil é Arte.”
Além dos embalos latinos, Tonil e Elpp também fazem discotecagens com músicas do mundo inteiro, indo de países como o próprio Brasil à região dos Bálcãs, norte da Europa, Cabo Verde, Etiópia, Senegal, Camboja e outros portos musicais. “Nós fazemos colagens, mixagens ao vivo em dupla, com vários equipamentos, eventualmente com instrumentos, e também com outros artistas”, conta Elpp, destacando o trabalho com o instrumentista Chadas Ustuntas. “O que der para explorar em termos musicais, nós experimentamos.”
O Aldeia Groove é apenas uma das atividades da dupla. Cada um tem sua página no Soundcloud para apresentar os próprios trabalhos autorais, que esperam um dia resultarem em um álbum que leve o nome do projeto. Além disso, Tonil Braz já tocou em algumas bandas da cidade (Aguardela, Findo Fake, Miguelitos) e é professor de artes para alunos do 2º grau. Já Elpp Aravena vive no Brasil desde 1991, quando veio para o país fazer pós-graduação, e trabalha desde 1998 na UFJF como professor no curso de engenharia. “Fazer música acaba sendo o contrapeso da minha racionalidade acadêmica”, diz ele, que ainda encontra tempo para integrar o grupo de maracatu Estrela na Mata.
MI CASA, SU CASA
Com Aldeia Groove
A partir de hoje, às quartas-feiras de janeiro, às 22h
Café Muzik
(Rua Espírito Santo 1.081)

