
“Peralvo era para ter sido maior que Pelé, Neto. Que merda de vida”, diz o velho Murilo ao filho. No livro que escreve aos 80 anos, o homem que já foi um cronista esportivo de sucesso, nos tempos áureos do futebol brasileiro, defende os poderes sobrenaturais de um jogador que poderia ter feito história, não fosse o final trágico. O processo de criação do personagem é um dos eixos de “O drible”, (Companhia das Letras, 224 páginas), livro que rendeu ao escritor Sérgio Rodrigues o prêmio máximo no Portugal Telecom de 2014, anunciado em meados de dezembro. A história retrata a reconciliação entre pai e filho, ao mesmo tempo em que traça um paralelo entre o filho fracassado e o Peralvo brilhante e promissor. Considerado um dos maiores títulos de 2013, o livro foi finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura, confirmando que o ano que se passou foi um dos mais retumbantes na carreira do mineiro nascido em Muriaé e radicado no Rio de Janeiro.
Jornalista, Sérgio trabalhou nos principais veículos do país, como o “Jornal do Brasil”, “Folha de S.Paulo” e “O Globo”, e é colunista do site da Veja, com seu blog Todoprosa (http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/), que esse ano completa nove anos no ar. Autor de três romances, entre eles o elogiado “Elza, a garota”, de 2009 – sobre Elza Fernandes, morta pelo Partido Comunista durante a Intentona contra o Governo Vargas -, e outras quatro obras, o escritor atinge o ápice de sua carreira falando de futebol justamente no ano em que o Brasil sedia uma Copa. “Acaso feliz”, diz ele, em entrevista por telefone à Tribuna. O ano que começa promete ser de ainda mais visibilidade. Sérgio Rodrigues lança, nos próximos meses, “Jules Rimet, meu amor”, novela publicada originalmente pelo “Le Monde”. “Vivemos um momento muito interessante na literatura brasileira, de muita gente escrevendo ótimos livros. Tem uma geração amadurecendo diante de nossos olhos”, comemora o homem de fala pausada, voz baixa e uma escrita assustadoramente original.
Tribuna – Você saiu de Muriaé com 12 anos. Qual a sua relação com a cidade?
Sérgio Rodrigues – Saí e fui morar em outras cidades do Estado do Rio de Janeiro. Meu pai era do Banco do Brasil e se mudava bastante. Vim para o Rio com 17. Tenho família em Muriaé ainda, minha mãe mora lá hoje. Visito com alguma regularidade. Não cortei relações. Sou mineiro mesmo. Só não me sinto especialmente ligado a Minas porque construí minha vida toda, pessoal e profissional, no Rio.
– Seus livros têm uma relação muito estreita com a realidade. Seria isso resultado da sua formação como jornalista?
– Acho que não é uma ligação com o jornalismo exatamente. O discurso do jornalista é muito diferente do escritor. Encontrar a chave para mudar a voz na hora de escrever é fundamental para um jornalista que queira virar escritor. Mas o modo como eu entendo a ficção é muito impregnado de história, informações, época, música, política e filmes. Tem outras formas de fazer, mas essa é a que sei. Isso vem do tipo de literatura que gosto de ler. É a minha tentativa de compreender uma realidade que tem um lastro, uma experiência real.
– E porque falar de futebol em “O drible”?
– Gosto muito de futebol e sempre achei que esse é um tema que a arte em geral, não só a literatura, poderia explorar mais. É um tema muito forte na cultura brasileira. E como a minha ficção lida com elementos da realidade, isso é parte desse quadro. Não dá para falar e entender completamente o Brasil se, em algum momento, não tratar do futebol no país. Fui repórter esportivo, comecei minha carreira no “Jornal do Brasil” e cobri a Copa do México em 1986, e a minha história tem uma relação forte com a imprensa esportiva, que está muito presente no livro também. Alguns dos personagens que aparecem fazendo pontas, como o João Saldanha, conheci e trabalhei com eles. O livro acabou sendo um acerto de contas com minha própria história. A época em que situo o “O drible” é anterior a isso. Entrei no fim de uma época, quando o Nelson Rodrigues já estava morto, e o Saldanha perto de se aposentar, mas peguei um pouco desse ambiente.
– Acredita que a proximidade com a Copa favoreceu a recepção do livro?
– Acho que sim. Não foi feito para isso, não foi intencional, mas pode ter sido um acaso feliz. Levei muitos anos para fazer, e ele sendo lançado a menos de um ano da Copa. Como as atenções estavam muito voltadas para esse tema, provavelmente ajudou.
– O Portugal Telecom é reconhecido por premiar a linguagem, autores que rompem de alguma forma com a tradição. Recebê-lo teve esse peso?
– Não escrevo pensando em prêmios, até porque, se escrever pensando nisso, é melhor desistir, já que as chances são muito pequenas. Quando acontece, é muito bom e acaba atraindo a atenção de mais gente, pessoas que talvez nem ficasse sabendo desse livro. Espero que isso puxe meus outros livros.
– Você acaba de escrever “Jules Rimet, meu amor”, que a Companhia das Letras publicou agora em formato digital…
– E-book no Brasil ainda é uma coisa quase secreta, para pouca gente. Mas esse ano vai sair em formato físico, junto com outra novela, em um volume fino no primeiro semestre.
– Como é trabalhar por encomenda?
– Não tenho nenhum problema com isso, pelo contrário, até gosto. O “Elza, a garota” fiz por encomenda da editora, e é um dos que mais gosto. Talvez essa seja uma herança positiva do jornalismo. Não tenho nada contra à ideia de fazer literatura com prazo e tamanhos determinados, como foi o caso dessa encomenda do “Le Monde”, que era um folhetim e precisava ter 24 capítulos com tamanhos fixos. Foi um experiência divertida de fazer. Foi uma consequência direta de “O drible”, que já foi traduzido na França e vai ser lançado em março.
– O futebol cria algum imperativo em sua carreira?
– Não tenho a menor intenção de voltar a ele. É possível que criem essa expectativa, mas vou contrariar com muito prazer. Já disse o que tinha para dizer. Nem “Jules Rimet, meu amor” teria feito se não fosse uma encomenda tão tentadora de fazer um folhetim na terra de Balzac.
– Você já navegou pelos contos, crônicas e mantém sua coluna na “Veja”. O romance é especial para você?
– Editorialmente é um gênero que tem mais prestígio, mas, independente disso, sempre quis chegar ao romance. Desde que comecei a escrever, minha ideia era fazer narrativas longas, de fôlego. Meu primeiro romance é de 2006, e antes disso escrevi muitos contos, que são sempre meio grandes. De alguma forma, eles já aspiravam a isso.
– Sua trajetória se assemelha um pouco ao percurso feito pelo Luiz Ruffato, mineiro que também saiu do jornalismo. Ele diz ter um projeto temático muito definido. Você também tem?
– Projeto de tema não. Meu projeto é literário. Acho que existem pontos de contato em todos os meus livros de ficção, há sempre a tentativa de dar conta do Brasil. Que país é este? O que ele tem de específico no mundo? O que ele tem de maravilhoso e horroroso ao mesmo tempo? O país aparece como uma tentativa de entender como chegamos até aqui e para onde podemos ir. Acho que isso pode ser alcançado pelos temas mais variados. Quando digo que não pretendo voltar ao futebol, pode até ser que volte, mas estou falando que não sou um escritor de literatura sobre futebol, sou um escritor. Meu próximo romance, que já comecei a escrever mas ainda é muito vago, acho que não vai passar nem perto de futebol.

