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‘O ator e a plateia num só corpo’

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Quando a escritora romena Herta Müller escreveu "Tudo que tenho levo comigo" certamente não sabia da existência do monólogo "Uma pátria que eu tenho", dos brasileiros Fernando Bonassi e Victor Navas. Escritos em momentos e lugares distintos, os textos guardam muitas semelhanças, dentre elas o olhar incomum para a Segunda Guerra Mundial. Na obra de Herta, prêmio Nobel de Literatura em 2009, um homem resgata as angústias dos campos de trabalhos forçados aos quais os alemães que viviam na Romênia foram obrigados a desenvolver atividades com a finalidade de reconstruir a União Soviética. Já na peça de Bonassi e Navas, um mineiro – morador de um arraial no Norte de Minas, a 20km de uma estação de trem – recorda seu recrutamento pela Força Expedicionária Brasileira e a luta na Itália. Dirigido por Marcos Marinho, com atuação de José Eduardo Arcuri, o monólogo inicia temporada neste domingo e segue até 22 de janeiro, sempre aos domingos, segundas e terças, às 21h, no Espaço Mezcla.

Em cena, as memórias de um pracinha, as experiência e inquietações de um ator e a planejada compaixão e beneficência do espectador. Ambientada num espaço íntimo do personagem (certamente o quarto), a plateia integra, sem cerimônias, o lugar. Num dos últimos ensaios do espetáculo, Arcuri e Marinho discutiam sobre a proximidade das cadeiras. Para o ator, trazia-lhe maior conforto estreitar a distância dele com o público, afinal, os ouvidos atentos completam a história.

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Com o intuito de reforçar o clima introspectivo da narrativa memorialista, o diretor optou por um cenário mínimo, composto por três malas, um abajur, um tapete e um gravador. Segundo Marinho, "os efeitos cênicos foram todos substituídos pela iluminação", sóbria como o figurino. "A questão toda é a plateia estar atenta ao ator, ao texto", aponta o diretor. A proposta minimalista também é produto da relação afetiva que o ator constituiu com o personagem. "Quando eu percebi que o Zé estava interessado nessa peça, pensei em ele não compor um personagem estereotipado", explica, justificando a recusa de maquiagens e trejeitos comuns à idade que o personagem teria nos dias de hoje (cerca de 80 ou 90 anos). "Pensei em trazê-lo para a cena", comenta o diretor.

Primeiro monólogo na carreira de Arcuri, longe dos palcos há oito anos, "Uma pátria que eu tenho" mostra a ingenuidade de um matuto diante da crueldade e ardidez de um processo puramente político. O pracinha em sua extrema delicadeza discorre sobre temas como o sexo e a homossexualidade sem dar a eles contornos polêmicos. "A sexualidade dele é apenas um dado a mais, como a altura e o peso", defende Arcuri, que há três anos fez a leitura do texto no projeto "Teatro lido", coordenado por Marinho. "A ingenuidade dele é moral", aponta o diretor, destacando o fato de o personagem perceber a guerra tanto como separação das pessoas amadas, quanto como possibilidade de elo com novos conhecidos.

"Para o pracinha, a pátria dele é o elo que criou com a humanidade. E eu queria falar sobre isso", responde Arcuri ao ser perguntado sobre os motivos que o fizeram retornar ao teatro. "Essa montagem é o somatório de tudo que fiz. Minhas vivências estão todas aí", emociona-se o ator, que dedica o espetáculo aos amigos Marcelo Gaio, Robson Terra e Nelma Fróes, falecidos em 2012 e com os quais iniciou a carreira teatral, no Grupo Divulgação há 41 anos. "Essas perdas me mostraram a urgência que as coisas têm. Tinha que fazer agora", relata, retomando a parceria com o diretor após "Pela noite", adaptação teatral da novela homônima de Caio Fernando Abreu, encenada em 2002.

Crédulo de que o teatro por si só é uma arte que trabalha com a superexposição do artista, José Eduardo Arcuri se lançou à solidão no palco certo de que contracenaria com os espectadores. "Queria que fosse quase uma fala ao pé do ouvido", conta Marcos Marinho, cuja experiência em monólogos foi sentida na atuação em "Meu dia perfeito", espetáculo que já soma três anos de estrada. Para Marinho, o grande diferencial das peças encenadas por apenas um ator e outras interpretadas por um elenco numeroso é o fato de o artista ser obrigado a dividir sua arte com o público.

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Tendo passado por transformações físicas e emocionais para encarnar um personagem essencialmente forte (o artista plástico mineiro Farnese de Andrade), o ator nascido em Belo Horizonte e radicado no Rio de Janeiro Vandré Silveira concorda com Marinho. Para montar o espetáculo "Farnese de saudade", o ator recorreu a sentimentos e lembranças bastante íntimos, capazes de o levar para um universo que conjugasse a abstração das peças produzidas por seu personagem com a simpatia e a identificação necessárias ao teatro. "O monólogo exige uma entrega absoluta", comenta.

A peça que aborda a relação de Farnese com várias de suas obras – e disseca a temática ligada a memória muito frequentada pelo artista – se passa dentro de uma gaiola (inspirada na obra "Passage dangereux", de Louise Bourgeois), da qual o público abstrai a solidão e o aprisionamento característicos da trajetória de Farnese. Segundo Vandré, apesar da reclusão em cena, foi importante estabelecer uma cumplicidade com a plateia para que ela acessasse as inquietações daquele homem.

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Diretor com grande experiência em monólogos, Victor Garcia Peralta confirma o formato como espaço de grande exposição do ator, mas pondera que não há relação entre a solidão no palco e a entrega do artista. Segundo ele, o princípio fundamental é a interlocução com o espectador. "A primeira coisa que faço quando vou dirigir um monólogo é identificar o papel da plateia. É muito importante saber quem é o público no texto que vai ser encenado", adverte.

Diretor de "Homens são de Marte… e é para lá que eu vou", interpretado por Mônica Martelli; "Não sou feliz mas tenho marido", com Zezé Polessa; "Tudo que eu queria te dizer", com Ana Beatriz Nogueira; "Novecentos", com Isio Ghelman; e "Dorotéia minha", com atuação de Beth Goulart, Peralta está em cartaz no Rio de Janeiro com o monólogo "Também queria te dizer – cartas masculinas", protagonizado por Emilio Orciollo Netto. De acordo com ele, "geralmente os monólogos partem de um quebra da quarta parede, seja a partir do ator, seja pelo próprio espetáculo".

A barreira invisível que divide palco e plateia é, num uníssono entre artistas do palco, pulverizada quando o elenco é composto por apenas um ator. Marcando seus 80 anos de vida e 65 de carreira, Fernanda Montenegro conta apenas com uma cadeira e com uma simples porém eficiente iluminação para encenar o monólogo "Viver sem tempos mortos". Inspirada em cartas e apontamentos autobiográficos de Simone de Beauvoir, a peça, sucesso de bilheteria pelo Brasil, mostra uma atriz em conversa com o público e, apesar de imersa numa personagem, despida de muitos aparatos teatrais. Como a sintetizar a arte do monólogo, Fernanda reflete sobre o formato no programa do espetáculo: "Essa radicalização eu a buscava faz tempo: o ator e a plateia num só corpo e numa só respiração, sem interferências ou apoio de histrionismos e ruídos".

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UMA PÁTRIA QUE EU TENHO

Estreia neste domingo, às 21h. Domingos, segundas e terças, às 21h, até 22 de janeiro

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Espaço Mezcla

(Rua Benjamin Constant 720)

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