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Saber tudo é infinito

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Aprendeu o valor das palavras. Foram feitas para deixar a vida mais fácil, ensinou o pai. E o menino, esperto, começou a trocá-las por gostosuras e brinquedos. Sabia que os amigos da escola estavam à procura dos significados escondidos na cabeça de seu pai, o homem mais inteligente do bairro. Com essa narrativa, que se desenrola no livro O menino que vendia palavras, o jornalista Ignácio de Loyola Brandão ganhou o Jabuti em 2008. Para escrevê-la, inspirou-se na própria infância no interior de São Paulo durante a década de 1940. Das páginas ilustradas por Mariana Newlands, o protagonista pulou para o palco na peça homônima com Eduardo Moscovis e o juiz-forano Pablo Sanábio. A produção chega à cidade para duas apresentações gratuitas no Cine-Theatro Central, sábado e domingo, com patrocínio da Multiterminais.

Pablo, idealizador do projeto, estava à caça de um bom texto infantil. Apaixonou-se pelo título da obra de Brandão. Achei poético, justifica. Depois, veio a sedução pela história, principalmente por tratar o conhecer como algo infinito. Em meio a muitas descobertas, o não sei surge tão natural quanto qualquer resposta. O ator identificou-se ainda com a curiosidade do menino. Sou um cara que se interessa por tudo. Após um ano e meio de negociações e captação, a proposta começou a ser criada, tendo na direção Cristina Moura, com colaboração de Mariana Lima e Fernanda Félix. Para adaptar o livro, Sanábio convidou Pedro Brício. Mas o trabalho aconteceu de forma coletiva, salienta.

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Ao longo de uma semana, seis horas por dia, o elenco (que conta também com Letícia Colin, Renato Linhares, Luciana Fróes e Raquel Rocha) improvisou para uma plateia. Assim tiveram início os ensaios, sempre documentados e gravados. O texto foi escrito e reescrito de acordo com as experimentações dos atores. O espetáculo estreou no Rio em agosto ainda em processo. Só ficou pronto mesmo quando fomos para São Paulo, conta Pablo, elencando outras capitais visitadas: Belo Horizonte, Porto Alegre e Brasília. Com boas críticas na revista Veja e no jornal Folha de São Paulo, a montagem continua em cartaz no Rio em janeiro e fevereiro. Em 2011, recebeu o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) e quatro indicações no Prêmio Zilka Sallaberry.

Segundo Pablo, um dos segredos para o reconhecimento é descartar o tom infantiloide e mastigado, optando pela interatividade e mesclando referências clássicas e contemporâneas. Não somos atores fazendo crianças, temos energias infantis para criar a história na cara dos espectadores, sem pudor para viver adulto, bicho, gigante. O mineiro valoriza a proximidade com o público, mas sabe que essa questão será dificultada pelo formato do Central. Vamos descobrir a melhor forma, garante.

Aliás, o inesperado é sempre matéria-prima para o grupo, atento à sinceridade infantil. Nossa escuta está aberta. Não excluímos a opinião da plateia, menciona Sanábio, ressaltando a técnica teatral usada pela diretora: o Viewpoints. Cristina Moura acredita no teatro interdisciplinar, aquele que passeia por corpo, texto, imagem e pensamento. Há a tentativa de contar algo com palavras e imagens, da mesma maneira que funciona o pensamento narrativo de uma criança, habilidade que perdemos à medida que vamos crescendo, explica Cristina.

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Desde o começo, Pablo sabia que uma biblioteca estaria no cenário, assinado por Vera Hamburger e Flávio Graff. Com o tempo, o espaço foi ganhando ares de instalação, com mais de quatro mil livros, aberto à visitação dos pequenos após a sessão. Cerca de 200 obras pinçadas por especialistas para diversas idades são espalhadas entre almofadas para uma sessão de leitura com os pais. Pablo destaca o resgate da relação pai e filho trazido por Ignácio de Loyola Brandão. Hoje, poucos adultos têm tempo para ler com as crianças, observa, avisando que o espetáculo costuma divertir toda a família.

Objetos cotidianos adquirem novos usos e significados nas mãos do elenco. Ou nos pés, já que uma bicicleta entra em cena para fazer as vezes de banca de venda, entre outras possibilidades. O artista plástico Franklin Cassaro também participa da cenografia, desenvolvendo um de seus infláveis performáticos para representar a cabeça pensante do pai, onde há projeções de imagens. Utensílios conhecidos aparecem ainda nos figurinos de Thanara Schonardie, em um zigue-zague por imaginação e realidade. Além disso, todas as roupas são brancas no início da peça, como páginas à espera de escrituras e desenhos.

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À frente da trilha sonora, estão Domenico Lancelotti e Pedro Sá. Segundo Sanábio, Adriana Calcanhotto compôs umas das músicas especialmente para a montagem. Desde que trabalhei com o Du (Eduardo Moscovis) no longa ‘Sem controle’, tínhamos vontade de fazer algo bacana reunindo uma equipe legal. De acordo com o juiz-forano, o espetáculo infantil no Brasil precisa ser feito com mais qualidade. É um teatro como outro qualquer, sentencia. O menino que vendia palavras também faz parte do Circuito Cultural Bradesco Seguros.

O MENINO QUE VENDIA PALAVRAS

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Sábado e domingo, às 17h

Gratuito

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Cine-Theatro Central

(Praça João Pessoa)

3215-1400

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