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Gabriele Leite faz show em Juiz de Fora nesta quinta-feira

Gabriele Leite

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Gabriele Leite
“O palco é lugar de compartilhar, de mostrar o meu fazer artístico e representar, mostrar que a gente pode fazer o que a gente quiser, independente da nossa formação”, afirma Gabriele Leite (Foto: Diego Bresani/ Divulgação)
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Gabriele Leite nasceu em Cerquilhos, uma cidade no interior de São Paulo. Próximo do fim dos anos 1990, a cultura do rádio por lá ainda era grande. Na sua casa, quando ele não estava ligado, era porque seu pai estava colocando na TV um DVD de música para que a família toda assistisse. Ou então sua mãe estava fazendo faxina e tinha escolhido alguma coisa específica para ouvir. “Eu cresci rodeada de música.” Esse ambiente fez com que o interesse pela música se aflorasse. Especificamente, pelo violão. Ainda menina, ela pegava os cabos de vassoura e dedilhava na tentativa de imitar o que via os violonistas fazendo. Não teve jeito: aos 6 anos, ganhou seu primeiro violão. Foi um pontapé para um crescimento e um aprofundamento que hoje são exemplo. Ela é revelação brasileira do violão clássico. E apresenta, em Juiz de Fora, seu primeiro álbum, “Territórios”, na Versus, nesta quinta-feira (5), a partir das 20h.

Gabriele teve uma coisa essencial para qualquer artista: o apoio de seus pais. Logo que ganhou o violão, sua mãe foi procurar uma maneira de ela, de fato, aprender a tocar o instrumento. Tinha o Conservatório em Tatuí, mas ela ainda era muito pequena para ir sozinha à cidade. Sua mãe encontrou o Projeto Guri, uma iniciativa gratuita no estado de São Paulo que ensina música. Foi lá sua primeira escola. “Foi quando eu comecei com o violão. E desde então nunca mais parei. Até hoje, nunca pensei em trocar de instrumento. Foi amor à primeira vista. De sentar e tocar uma partitura, e não precisar cantar.”

Crescendo ouvindo música, tinha uma coisa que chamava atenção de Gabriele: todas tinham letras. “Eu ficava me perguntando por qual motivo toda música tinha de falar de amor. E eu queria uma música que era só música, que não falava de nada, que só tinha as notas.” Junto com o violão, a música instrumental foi também amor à primeira vista. Do projeto em sua cidade, ela, já com mais idade, foi, finalmente, para o conservatório. “Eu, com 18 anos, pensava que era feliz porque não tinha, até então, pagado uma aula de música.” Esse ambiente fez com que ela conhecesse ainda outros lugares, vivenciasse as experiências na capital e vivesse, realmente, a música instrumental, de uma maneira que era impossível se afastar disso.

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O mundo é bem maior

Gabriele cursou ainda bacharelado com habilitação em violão clássico na Universidade Estadual Paulista (UNESP), já tocando ativamente em grupos. Essa visão para fora de Cerquilhos fez com que crescesse nela o desejo de sair do país, que foi sendo construindo ainda mais durante sua graduação. “Minha mãe falava para a gente, desde sempre, que o mundo não era só isso, que era maior que essa cidade. Eu sempre tive esse exemplo de ir e ver o mundo, com consciência. Isso ajudou muito.” Ela se tornou mestre pela Manhattan School of Music, em Nova York, sendo a primeira mulher negra brasileira a graduar-se na instituição.

“Foi um ato de coragem morar fora. Mas tem uma coisa muito do artista que gosta de desafios, não basta só o desafio técnico, da música, mas também de morar em um outro lugar e viver outra cultura, e o que se aprende disso. E a música tem essa conexão incrível que possibilita tocar em qualquer canto, mesmo que em línguas diferentes. Mas, pela arte, as trocas acontecem.” Hoje, Gabriele faz doutorado em Performance Musical na Stony Brook University e mora em Nova York. Foi lá também o lugar onde fez seu primeiro álbum, “Territórios”, pela Rocinante.

“Eu gravei no Brooklyn e a minha primeira solicitação foi que eu queria gravar um álbum de violão clássico, mas eu não queria gravar só música brasileira. Eu queria mostrar um pouco do que eu fiz na minha trajetória enquanto violonista clássica.” Cada música escolhida faz sentido com sua história. O trabalho começa com “Cinco Bagatelas”, de William Walton. “O top hit da galera que toca violão clássico no mundo. É uma peça que tem uma densidade, que tem uma coisa do compositor na escrita.” Ela representa o momento em que ela foi para Nova York.

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Já “Ritmata”, de Edino Krieger, foi quando ela foi para São Paulo morar sozinha. “É uma peça mais quebradeira, com técnicas estendidas.” A próxima, “Sonata”, de Sergio Assada, representa bem os territórios. O compositor brasileiro a escreveu a partir de uma encomenda de um outro compositor japonês. A música estreou em Cuba. “É uma música que traz o território. Como a gente viaja por lugares diferentes e a gente pode se apropriar desses espaços.” A última, por fim, “Melodia sentimental”, de Heitor Villa-Lobos, é a única que tem letra e foi grava por Gal Costa e Ney Matogrosso. “Eu coloquei no álbum para trazer um pouco dessa coisa de furar outras bolhas fora do mundo do violão clássico.”

Ouça aqui ‘Territórios’, de Gabriele Leite

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Uma parada no Brasil

Depois de apresentar esse repertório fora, Gabriele chega com “Territórios” no Brasil: mostra para o público como está sendo sua vida em outro lugar, totalmente dedicada à música clássica. “Eu acho que o papel como instrumentista brasileiro é mostrar o quão diverso o nosso país é. Pensando nos regionalismos mesmo. É muito importante trazer o público para entender. Porque essa é a grande crítica das pessoas, que falam que o público de música clássica no Brasil está morrendo. Mas acho que às vezes é pelo jeito que é feito. Acho que se você aproxima o público, explica como funciona, as pessoas têm ouvido para isso. Toda música é válida de ser ouvida, e se você está disposto a usar e mostrar que o fazer é esse, e colocar respeito nisso, as pessoas vão entender e vão começar a apreciar.”

Ali, em cima do palco, sozinha, vulnerável, ela tenta levar um pouco de casa: uma forma de se sentir mais confortável com tanta gente. É que em casa Gabriele é totalmente ela e tudo faz mais sentido. “O palco é lugar de compartilhar, de mostrar o meu fazer artístico e representar também, mostrar que a gente pode fazer o que a gente quiser, independente da nossa formação. É como se eu estivesse na sala de casa conversando com minha família, uma coisa do interior. É isso que eu tento passar, esse diálogo para o público.”

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