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Arte por caminhos diferentes

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A décima edição do Festival Nacional de Teatro de JF chega ao seu penúltimo dia com a apresentação de três espetáculos, sendo que dois deles são inéditos. “Uma irremediável escolha”, dos paulistanos Desembargadores do Furgão, será apresentado às 11h e às 15h no Parque Halfeld, enquanto “O diário de Genet”, da ATeliê VoadOR Companhia de Teatro, tem apresentação, às 19h, no Diversão & Arte. Fechando o dia, a Cia. Cortejo volta a encenar “Antes da chuva” às 21h, desta vez no CCBM. Para o domingo, quando o festival chega ao fim, a Trupe Trabalhe Essa Ideia apresenta “Você volta amanhã?”, também no CCBM, às 19h e 21h.

Criada em 2002 e estabelecida em Salvador desde 2009, a ATeliê VoadOR (nome inspirado na peça homônima de Valère Novarina) vem pela primeira vez a Juiz de Fora – e a Minas – com “O diário de Genet” (2013), dirigida por Djalma Thürler e com Duda Woyda e Rafael Medrado no elenco. Ela encerra a chamada “trilogia sobre o cárcere”, iniciada com “O melhor do homem” (2010) e “Salmo 91” (2011). A princípio, a ideia era levar aos palcos “Diário de um ladrão”, de Jean Genet, mas as pesquisas desenvolvidas pelos seus integrantes resultaram em algo novo, com trechos do texto do escritor francês ligados a ideias de pensadores como Foucault, Derrida e Deleuze, entre outros, além dos próprios integrantes da companhia. Desde sua primeira encenação, o espetáculo já passou por 17 estados, entre eles Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará, Pernambuco, Santa Catarina e Alagoas, além chegar a países como Argentina, Chile, Cuba e Colômbia.

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“Desde que a companhia chegou e se estabeleceu em Salvador, em 2009, nós passamos a pesquisar e criar peças com temas relacionados à marginalidade, os sujeitos marginais. Foi também a partir daí que passamos a querer falar desse discurso mais político”, diz Duda Woyda. “Em 2010, montamos ‘O melhor do homem’, com dois presidiários em uma cela de concreto; depois tivemos o ‘Salmo 91’, sobre o massacre do Carandiru a partir da ótica de dez presos. Quando estávamos pesquisando a respeito dos tipos de aprisionamento, veio o ‘Diário de um ladrão’, mas não queríamos fazer exatamente o texto, estávamos ‘engravidados’ desse discurso e de outros, como os de Deleuze, Foucault, Derrida, quisemos dar mais vozes a esse diário. Saímos então desse aprisionamento concreto, do presídio, e falamos dos aprisionamentos sociais, culturais. Nossa companhia dá voz aos sujeitos subalternos e marginalizados, sejam negros, brancos, mulheres, homens, bichas, travestis, todos aqueles que não estão na normatividade e que são classificados como marginais.”

Um trabalho de ‘apresentação de personagens’

A ATeliê VoadOR apresenta “O diário de Genet” como um espetáculo em que não há um trabalho de composição e representação de personagens, e sim de “apresentação”, entre outras propostas. De acordo com Duda, essa ideia é consequência dos estudos do grupo sobre discursos em áreas como sociologia e psicologia. “Percebemos que não era preciso ter um discurso apenas sobre um personagem, representar alguma coisa, e sim nos apresentar no palco”, explica. “A partir de ‘O diário de Genet’ passamos a sair dessa onda de teatro mais direcionado, de representar. A partir dos espetáculos encenados desde 2013, passamos a colocar nossa voz também. Há textos desses pensadores e também nossos, é a ideia de querer apresentar o nosso discurso.”

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A partir dessa aglutinação de ideias é que passou a existir “O diário de Genet”, a respeito da vida do escritor francês. A obra, porém, não segue uma linha temporal contínua, com começo, meio e fim. “A galera vai assistir à história de Genet sob nossa ótica; vai saber quando ele nasceu, morreu, onde viveu, mas não necessariamente nessa ordem, é um texto não-linear”, antecipa.

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As histórias por trás das máscaras

O Parque Halfeld servirá de palco para a apresentação de “Uma irremediável escolha”, espetáculo dos paulistas da companhia Desembargadores do Furgão. Criado em 2013, o grupo conta com quatro atores e mais dois músicos, e teve como ponto de convergência o trabalho com máscaras. Segundo a atriz Mariana Rhormens, a coisa começou a tomar forma quando sua colega de companhia, Ana Pessoa, voltou da Indonésia com algumas máscaras dos Bondrês (os palhaços do teatro balinês). “Foi a partir daí que decidimos ver o que iríamos fazer com elas. Convidamos a Tiche Vianna para trabalhar conosco e dirigir a nossa primeira peça, que acabou se tornado ‘Uma irremediável escolha'”, conta.

A trama da peça tem como ponto principal o conflito entre a oportunidade e a tradição. Um grupo de artistas mambembes tem a oportunidade rara de se apresentar para o Imperador, mas ao mesmo tempo o ancião do grupo começa a mostrar sinais de caduquice. Reza a tradição que eles devem, então, seguir para a cidade natal do ancião para realizar uma última apresentação com ele, caso contrário serão amaldiçoados. Mas como perder a oportunidade de uma vida? Todo o conceito, explica Mariana, foi montado a partir das próprias máscaras. “Elas foram o ponto de partida. Fomos descobrindo como cada uma delas era, como era cada personagem, como as máscaras se relacionavam… Com essa experiência das máscaras em relação aos personagens é que a história foi sendo criada, desenvolvida. À medida em que fomos pesquisando, ao lidar com essas máscaras tradicionais, é que surgiu esse diálogo entre o moderno e o tradicional, a dramaturgia saiu daí.”

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Além de ter rodado com o espetáculo por toda a capital, do centro à periferia – mesmo onde não havia um teatro -, a companhia levou “Uma irremediável escolha” para o interior paulista e também Minas Gerais, participando de festivais como o Faísca, em Poços de Caldas. O grupo também realizou este ano a expedição Riso Doce, ao lado da Cia. Cromossomos, que passou pela região de Mariana, afetada pelo rompimento da barragem de Fundão. “Eu não pude ir, mas os atores que puderam apresentaram números mais curtos. A ideia era levar arte, um pouco de riso, para quem passou por toda essa situação”, diz Mariana, que ainda explica de onde surgiu o nome da companhia.

“Como nossos espetáculos são de rua e queremos levá-los a outros lugares que não apenas o teatro, o nome simboliza o nosso desejo – ainda não realizado – de ter um furgão para levarmos as peças para esses lugares mais distantes. Quando começamos, os ensaios eram realizados em um espaço na Rua Desembargadores do Vale, então fizemos essa brincadeira do Desembargadores do Furgão.”

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