Com a proliferação de universidades com ensino de música e a inconstância do couvert, o músico tem cada vez menos no bar a única opção. Para o pianista Leandro Domith (32 anos), formado em filosofia, além da possibilidade de dar aulas, os editais, os festivais e os espaços públicos vêm tomando o lugar dos palcos, e a nova geração, segundo ele, está apostando nessa vertente. Em 2011, Caetano Brasil, aos 17 anos, ingressou no curso livre de sax da Universidade de Música Popular (Bituca), em Barbacena, onde está prestes a obter a primeira formação superior. Rafael Gonçalves, 24 anos, é formado em violão e vai se formar em arranjo na Bituca em 2012.
São os músicos que acordam cedo para estudar, dar aula, compor, uma rotina que muitas vezes o músico ‘da noite’ não aguenta por muito tempo. A maioria, inclusive, gerencia sua própria carreira, não possui produtor e tem que fazer tudo: do edital à produção, diferencia Leandro Domith, que também toca acordeom e, ao lado de Marcelo Mattos (baixo e violão), forma o Duo Peneirando Água. A dupla inaugurou o projeto semanal de música instrumental, no mês passado, no Espaço Cultural Sobrado, com Caetano Brasil. Em Juiz de Fora, Caetano é o representante dessa nova geração, que não está vindo de brincadeira. Esse grande músico já é uma referência, vindo da escola popular do choro e tocando ao lado de importantes artistas desse gênero na região, além do jazz, acrescenta Domith, à frente da proposta.
Esta quinta, o Duo Peneirando Água recebe o violeiro Fabrício Conde no Sobrado. No dia 19, quem assume é o baixista Dudu Lima e o violonista e guitarrista Rafael Gonçalves. Certamente, com tantas escolas e informação, os músicos têm gravado de maneira mais diversificada, porque estão pesquisando mais. E a relação com a canção também mudou, porque não é só tocar por tocar, é um investimento cujo retorno vem a longo prazo, ressalta Rafael.
Profissional com flexibilidade e intuição
O professor do Curso de Música da UFJF e violonista Luis Leite aposta na relação entre o músico e a escola, sobretudo quando o assunto são os mais jovens. É preciso ter um espírito aberto, um ouvido atento, se dedicar muito e seguir a sua intuição sempre que possível, sugere o músico carioca. E ainda aprender com os grandes mestres, interagindo com os artistas de seu tempo. Flexibilidade e adaptabilidade também contam a favor, uma vez que a maioria dos artistas se vê diante da necessidade de se desdobrar em várias atividades, completa Leite, que se apresenta ao lado do violonista gaúcho Yamandu Costa no 23º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, do Pró-Música/UFJF. A atração será no dia 25 de julho no Cine-Theatro Central.
De acordo com Yamandu Costa, a internet seria a grande responsável por esta mudança, na medida em que altera a perspectiva com rapidez. Um vídeo caseiro de um rapaz, hoje, tem milhares de acesso dentro e fora do Brasil. Mas tem ainda a questão do material massificado. Tenho 32 anos, comecei a tirar música no toca-fitas e há pouco tempo toquei no Theatro Municipal (do Rio) com a Orquestra Sinfônica Brasileira. No outro dia, estava no YouTube, diz.
A música popular foi sistematizada e democratizada nas salas de aula. Antes, se você não tinha um tutor, conseguia um acesso precário às informações musicais. A nova geração está vindo com esta bagagem, finaliza o veterano Leandro Domith, certo de que a formação do jovem instrumentista é fruto de um processo em que a música está, de fato, migrando dos palcos para a universidade.
