Tudo o que é urgente exige soluções imediatas, e, quando a sociedade brada por pressa, é a arte, em seus devaneios, metáforas e até mesmo no modo imperativo, que aponta e discute saídas, despida das pressões da prática. Em Todos os tons da paz, exposição que reúne 30 artistas de diferentes estilos e períodos de produção, a violência que assola Juiz de Fora é contexto e convite para o confronto. Enquanto a cidade se curva aos 163 anos de estrada, pinturas, desenhos, fotografias, objetos, colagens, técnicas mistas e instalações se rendem à política na expectativa de uma nova escrita da história. Entre trabalhos impositivos, que clamam a paz ou apontam a violência sem muitos rodeios, e outros mais indiretos, que sugerem o silêncio de paisagens bucólicas e denunciam as pequenas vilanias do cotidiano, a mostra, em cartaz na Galeria Arlindo Daibert do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), revela o vigor de uma cena disposta a encarar o presente.
Segundo o superintendente da Funalfa Toninho Dutra, diversos artistas da cidade receberam uma carta com o convite para a mostra e a sugestão do tema, o resultado foi uma verdadeira surpresa. A ideia surgiu de um sentimento do mundo. Essa ausência de paz gera um desconforto, e eu resolvi provocar os artistas, explica. Para Daniel Rodrigues, um dos responsáveis pela curadoria da mostra, há um percurso de leitura que parte de imagens mais brandas para retratos da realidade. Os quadros mais impactantes estão no fundo. É o choque com o desejo de uma reflexão mais profunda, comenta.
Subjetividades concretas
Logo na entrada do que mais se assemelha a um salão, pela variedade de formas e discursos, Arlindo Daibert lança suas atenções à palavra e ao próprio artesanato das artes. Em Babel, o artista, morto em 1993, contesta a sociedade imagética que se formou em detrimento do texto. Sob um fundo branco, letras também alvas, com sutis interferências de cor, segundo Daibert em entrevista à Tribuna, em 1990, denunciam a falência da palavra como código, numa sociedade muito visual e pouco reflexiva, que substituiu a literatura pela televisão.
Coisa cara a um dos maiores nomes da arte local e nacional, a palavra também grita em outras obras, como a de Gerson Guedes com seus desenhos de armas seguido da frase mãe, guarde esses revólveres para mim; a de Lúcio Rodrigues, com as figuras de um homem e de um macaco ladeadas por um trecho do filme 2001; a de César Brandão, que expõe uma placa semelhante às marcações com nomes de rua com a inscrição cracolândia e um longo texto sobre o assunto; a de Heloisa Curzio, Open arms peace, com estética hippie e palavras de ordem; e a de Petrillo, que sai de sua zona abstrata para encarar um emaranhado de fio vermelho formando a palavra paz.
Tendo no título o passo para uma força assustadora, a obra Peter Pan, um menino que não cresceu é um dos grandes destaques da mostra. O trabalho de Eliardo França retrata uma mãe tão esquálida como o filho que carrega no colo, feitos em cores frias, contrastando com um fundo obscuro e sombrio em cores quentes. Dramática e até mesmo dolorosa, a pintura aposta na pobreza para falar da violência, mesmo caminho no qual percorrem Tadeu Mattoso e sua família sofredora de Fome vã; Rogério de Deus e seu Trio guerra e paz; e Talarico com sua Gente invisível, na qual retrata um morador de rua encolhido, como um embrulho perdido e banido. Subvertendo o real, Sandra Sato convida para um espelho onde todos aparecem de olhos tampados e com sangue a escorrer. Um espelho que jorra poesia em vermelho.
Sobre sofrimento, mas partindo para um recorte religioso, Wany Alvim apresenta seu desenho da Pietá; Regyna Tortoriello revisita em seu estilo a Santa Ceia; e Daniel Rodrigues evoca o sagrado, conjugando duas asas sombreadas por frases bíblicas e reforçando a ausência do corpo angelical ao separá-las em dois quadros. Versando com o sacro e inspirado em frase de Paul Claudel, Paulo Alvarez instala seus Dez lírios para a paz, conjugando ao barroco, objetos e fotografias que também se referem ao clássico e ao belo. Logo ao lado, Fani Bracher, reconhecida por suas pinturas, expõe um estandarte, símbolo religioso, com flores em temas brejeiros, resultando em trabalho delicado e forte.
Mauro Alvim, inspirado na frase Pai! Eu quero escangalhar essa matadeira, de Os sertões, mostra uma escultura de um canhão, e Sérgio Sabo esculpe e pinta um misto de sensações e lamentos. Já Afonso Rodrigues apresenta objetos da série que discute vida e morte através de sementes, ossos e referências embrionárias encapsuladas. Logo à frente, Ronaldo Couri, exercitando sua arte povera (movimento italiano que trabalha com materiais pouco convencionais) que caracterizou toda a sua trajetória, exibe uma Bandeira branca com colagens de papéis diversos, madeira, corda e plástico, como uma pipa da infância, estilizada na improvisação dos movimentos. Agitação essa que Luiz Gonzaga exalta em seu detalhado desenho de um homem em seu espaço de profusão de imagens e ideias. Na artesania delicada do naquim, o jovem artista se debruça sobre a enorme tela, discutindo o mesmo império das imagens apontado por Daibert.
Sem pombas, mas com campos
Em O silêncio, de Ramon Brandão, um simpático fusca e um céu azul convidam ao bucolismo, mesma aposta que faz Valéria Faria, com seu mosaico de fotografias de nuvens montadas como a sugerir a própria nuvem. Ricardo Cristofaro, reunindo várias imagens de paisagens de morros e céus, também recorre ao belo do palpável para sugerir a paz. Respeitados na cidade, Renato Stehling e Dnar Rocha se fazem presente com suas conhecidas paisagens campestres. Já Leonino Leão e Amaury de Battisti, do lugar do abstrato, sugerem o sensível com base no estelar e no amanhecer, respectivamente.
Outros dois grandes destaques de Todos os tons da paz são os trabalhos de Wagner Fortes e Adauto Venturi. Enquanto Fortes recorre à sua técnica do papel higiênico artesanalmente tratado, pintado e recortado, compondo uma imagem em vermelho, preto e branco, sugerindo a violência das exclusões, as hierarquias sociais ou a indiscutível igualdade entre seres, Venturi é certeiro ao recorrer à história. Mais contido do que Fortes, que se mostra verborrágico em um trabalho de alta sensibilidade técnica e domínio das abstrações, Venturi esquarteja Tiradentes supliciado, de Pedro Américo (a imagem está recortada e, com solvente, apagada em algumas partes), reforçando a ideia de que ainda não alteramos práticas de violência.
Esse quadro e essa história são bastante atuais, além de Tiradentes ser um ícone local, atesta Venturi, adepto da observação da dor. Eu queria mostrar a ferida que ninguém quer ver, faz coro Talarico. Para Toninho Dutra, a predominância de trabalhos mais alinhados com certa agressividade indicam um estado artístico. A gente fala mais de ausência de paz, e isso me dá a sensação de que as pessoas realmente estão muito incomodadas, aposta, certo de que as notícias de um jornal também estão na ordem do dia de nossos artistas.
