Na Bienal de São Paulo de 1998, Leonilson foi homenageado com uma sala especial servindo de tema para a grande exposição. Desde então, o cearense nascido em 1957 e morto em 1993, em São Paulo, para onde transferiu-se ainda criança, tem ganhado uma nova dimensão na arte contemporânea brasileira. Seus bordados com desenhos e frases preocupadas com questões existenciais, bem como suas pinturas, gravuras, colagens e instalações, refletem os discursos mais urgentes do presente, além de evidenciar a postura visionária de um poeta das imagens. Reunidos na elogiada exposição Sob o peso dos meus amores, que já passou pelo Itaú Cultural, em São Paulo, e pela Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, ao longo dos dois últimos anos, os trabalhos do artista vivem um dos maiores contrassensos da cultura nacional. À medida em que aumenta o número de estudos sobre Leonilson e sua relevância no universo artístico, sua produção se dispersa. Obrigados a vender obras para sustentar o restante do acervo, os herdeiros fazem uma pergunta, que frequenta e assombra toda a cultura brasileira: como gerir a herança artística e intelectual de personagens relevantes para o país?
Formado por um grupo de familiares e amigos do artista em 1993, meses após sua morte, o Projeto Leonilson, oficializado dois anos depois, não contava com tantas dificuldades para que a memória e a produção dele se mantivessem vivas. Até hoje não conseguimos nenhum patrocínio que pudesse manter o projeto. Temos ajudas esporádicas, mas tudo acabou se tornando muito familiar, explica Ana Lenice da Silva, irmã do artista e presidente da associação sem fins lucrativos. Localizado num espaço alugado, sem as condições ideais para o acondicionamento de obras de arte, o acervo de Leonilson também reúne cartas e objetos pessoais, tudo sob o risco de um incêndio ou de qualquer outra tragédia.
Bastante emocionada, Ana Lenice lamenta: Tem sido muito difícil. É muito preocupante. Sempre brinco que temos Deus ao nosso lado. Para bancar as despesas da instituição, que incluem o pagamento de três pesquisadoras e dos serviços básicos – não há museólogo responsável pelo acervo -, a verba recebida com direitos autorais não é o bastante e, além dos recursos próprios da irmã, a qual se divide entre o consultório de psicologia, a cinco quadras do lugar, e a presidência do projeto, é inevitável a venda de alguns trabalhos. É lógico que, quando vendemos, tentamos procurar instituições, saber o destino do que vai embora, explica.
Situações como a do Projeto Leonilson não são incomuns, e não é preciso ir muito longe. Alvo de uma discussão aparentemente infindável, o acervo do imortal Antônio da Silva Mello, doado à Funalfa na década de 1970, continua nas mesmas condições apresentadas em julho de 2011 pela Tribuna. Parte do material depositado em um galpão no bairro Vila Ideal, Zona Sudeste da cidade, foi perdida, e a outra parcela, que se encontra nas dependências do prédio da fundação, está acondicionada de forma imprópria, mas sem grandes sinais de deterioração. Nossa intenção é discutir com a família e com a sociedade para partilhar o zelo, comenta o superintendente da Funalfa Toninho Dutra.
Só nós
Apesar de o modelo de gestão praticado por Ana Lenice esbarrar em dificuldades financeiras, para César Oiticica, irmão do mestre do experimentalismo brasileiro e coordenador do Projeto Hélio Oiticica, a via do particular é a de maior êxito no Brasil. Não acreditamos em governo. Tudo é uma porcaria. A gente acredita no particular, brada. Criada em 1981, ano posterior à morte do artista, a associação que gerencia o acervo de Oiticica já passou por imóveis alugados, em condições extremamente precárias, e depois ocupou a própria casa da família no bairro Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.
Em outubro de 2009, um incêndio provocado por um ar-condicionado destruiu parte do conjunto, avaliado em cerca de R$ 200 milhões, o que despertou a sociedade para a necessidade de uma gestão mais segura do acervo, cogitando até mesmo a gerência pública. Deus me livre. É a última coisa que a gente gostaria de fazer. Só nós e alguns estudiosos entendem a obra do Hélio, aponta César, comentando sobre o trabalho e o investimento na recuperação do que foi perdido, cuja expectativa é que se encerre em dois anos. Apesar de sobreviver com a receita gerada pelos direitos de veiculação e exibição de obras do artista, o projeto se vê, de tempos em tempos, diante da obrigação de venda de alguns trabalhos.
Se tiver que abrir mão de algo menor, para ajudar em uma coisa maior, que seja feito assim, pondera Clara Gerchman, filha de Rubens Gerchman e responsável pelo instituto que leva o nome do pai, criado imediatamente após sua morte. Durante muito tempo, o instituto foi gerido com recursos da família. Viemos desenvolvendo projetos culturais para que ele consiga ser sustentável. Mas, evidentemente, são os recursos próprios que fazem a máquina girar, aponta Clara. Passando por um momento de turbilhão e incertezas, como ela mesmo define, o instituto foi surpreendido por um deslizamento no terreno vizinho que atingiu as duas reservas técnicas e dez obras que lá se encontravam – após visitas do Ibram, do Arquivo Nacional e de alguns restauradores, foi constatada a possibilidade de restauro dos dez trabalhos. Tudo aconteceu justamente no término de um importante processo de catalogação das obras do acervo.
É tudo muito lento. O tempo da museologia e do arquivo é muito diferente, analisa Clara, que espera, em um futuro próximo, viabilizar a digitalização de todas as obras, propiciando a tão aguardada difusão e circulação de Gerchman. Talvez eu seja de uma geração mais nova. Quero profissionalizar isso, tornar esse instituto algo muito maior, comenta, certa de que o Estado ainda não detém a consciência necessária para preservar a arte nacional. Ao mesmo tempo, a jovem também vê com descrença os investimentos privados, já que a criação de reservas técnicas e contratação de profissionais ligados às questões patrimoniais não geram marketing, não conferem visibilidade a um investidor.
Uma luz…
Apesar de ainda engatinhar quando o assunto é preservação, governo e iniciativa privada já têm dado sinais de interesse. Criado em 2010, o Prêmio ProCultura de Estímulo às Artes Visuais, da Funarte, foi um dos maiores passos do Governo federal nos últimos anos, distribuindo R$ 3,1 milhões para pesquisas de acervos artísticos. Já tradicional, o incentivo da Petrobras Cultural, presente nas mais diversas áreas da cultura brasileira, divulgou na última semana os dez projetos de memória que receberão patrocínio da estatal. Entre os acervos que encontram a partir de agora uma luz no fim do túnel, estão os guardados do poeta Paulo Leminski, o material do ator Sérgio Britto e toda a obra do músico Jacob do Bandolim.
Segundo Alice Arcuri, filha do arquiteto modernista Arthur Arcuri, morto em 2010, nunca se pensou na criação de um conjunto de registros dos trabalhos do pai e dos materiais de referência que formaram uma trajetória de mais de meio século dedicado à arte. Atualmente, os livros de arte e literatura de Arcuri se encontram no Mamm, já as revistas e os livros sobre engenharia e arquitetura estão sob posse da Faculdade de Engenharia da UFJF, bem como todo o material referente à Construtora Pantaleone Arcuri, que integra o acervo do Museu Mariano Procópio. Meu pai doou suas coleções para lugares que possuem condições de guardar e cuidar de tudo. Não me ressinto de nada, pois, como ele foi diretor do museu, sei das dificuldades de gerir um acervo, pontua.
Concordando com a posição de Alice e contrário ao discurso de César e Clara, Toninho Dutra pondera sobre os desafios de um órgão público preservar a memória de um artista. A Prefeitura tem dificuldades em lidar com acervos pessoais, mas a sociedade também tem. A cultura, o cuidado e o zelo podem ser feitos com parcerias. Para ele, existem conjuntos que não são dados como importantes e, de fato, são muito mais que um ajuntamento de coisas. Confirmando a postura de Dutra, o pró-reitor de Cultura da UFJF Gerson Guedes defende avaliações meticulosas para o estudo de doações que realmente correspondam aos interesses da comunidade. É preciso saber se a família não quer se ver livre ou se, de fato, quer que aquilo se torne domínio público, expõe.
Valores (artísticos)
Prestes a abrir parte do acervo do jornalista Domervilly Nóbrega, previsto para chegar ao público no dia 23 de maio, Gerson Guedes chama atenção para as coleções do ex-presidente Itamar Franco e do poeta Murilo Mendes, que são tratadas de forma exemplar na cidade. O Mamm tem formado uma pinacoteca diversificada. Infelizmente, a universidade não tem condições de acolher todos esses acervos, não há espaço físico para tudo, mas consideramos, como plano futuro, a criação de um lugar da memória literária e pictórica de Juiz de Fora, onde tudo possa conviver, comenta.
Uma das pessoas que esperam por esse momento é Aída Célia de Andrade, viúva do pintor Dnar Rocha. Durante os últimos anos, ela tem feito um esforço quase hercúleo para recuperar os trabalhos que se dispersaram. Já nem tenho paredes mais, diverte-se, calculando ter cerca de 50 pinturas e 150 desenhos, além de objetos pessoais, como terno, gravata, sapatos e pincéis. Em sua caminhada em prol da memória do artista com quem conviveu, Aída já chegou a pagar R$ 3,5 mil por uma natureza morta, valor muito acima do praticado pelo humilde Dnar ao longo da carreira.
As cifras que impedem a manutenção ideal dos acervos também barram a divulgação de muitos trabalhos. A gestão da herança, frutificada como direitos autorais, fez desaparecer das prateleiras as obras de Cecília Meireles e dificulta o acesso a Manuel Bandeira, entre muitos outros artistas vitimados às sombras pela própria família. E são as altas cifras que circulam no Instituto Moreira Salles, com sede no Rio de Janeiro, em São Paulo e na mineira Poços de Caldas, que fazem da instituição um dos espaços de maior êxito na guarda e na preservação de acervos de artistas nacionais.
Hoje em dia, o instituto guarda as fotografias de Marc Ferrez, Marcel Gautherot e José Medeiros; as discotecas de José Ramos Tinhorão e Humberto Franceschi; as bibliotecas de Ana Cristina Cesar, Rachel de Queiroz, Otto Lara Resende, Décio de Almeida Prado e Carlos Drummond de Andrade; além da recente aquisição pictórica de Millôr Fernandes. Acredito que boa parte da preservação e da memória está relacionada à gestão profissional. É uma missão de tempo indeterminado, afirma Sérgio Burgui, coordenador do acervo fotográfico do instituto. Não faz sentido pensar na cultura para frente somente. É preciso pensar e agir no presente, completa.
Segundo Burgui, a recente inauguração da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin serve como exemplo de estrutura adequada e ideal nas mãos de um órgão público, no caso, a USP. Devemos buscar, coletivamente e socialmente, esse porto seguro para as obras de arte. Boa parte dos acervos que não estão em instituições enfrentam situações delicadas. Há vários espaços interessantes pelo país. Estamos todos no mesmo barco, que é a cultura, aponta em forte tom otimista, para logo se atentar para uma realidade, algumas vezes dura demais: Não é possível fazer com que tudo permaneça.
