Sem pensar nos passos já dados, torna-se impossível prosseguir. Nenhuma caminha começa no passo seguinte, mas com os pés firmes no chão. Olhando para esse terreno, o jornalista Eric Nepomuceno lança “A memória de todos nós” (Editora Record, 188 páginas), obra que debate sobre o que foi feito da tragédia das ditaduras militares na América Latina. Escritor consagrado com quatro prêmios Jabuti (o último, para “O massacre”, de 2004), tradutor de autores prestigiados, como Cortázar, e apresentador do programa “Sangue latino”, no Canal Brasil, Eric toca numa ferida que o país ainda insiste em esconder.
Ao revisar a trajetória da Guatemala, Paraguai, Argentina, Chile, Uruguai e Brasil, no período que sucede o retorno da democracia, o autor constata o atraso de seu país em relação aos vizinhos. Enquanto todos conceberam comissões para constatar as verdades ainda na década de 1990 ou início dos anos 2000, o Brasil só conseguiu criar a sua na última década. Mesmo assim, a justiça, como aconteceu em países como o Chile, ainda não se fez presente. Segundo ele, há culpados nessa história. “Sempre que o povo tentou levantar a cabeça, foi logo esmagado. Negaram seu direito de serem pessoas. Depois do processo de difamação, essas classes dominantes liquidaram suas vidas, suas memórias”, escreve. “As elites brasileiras, dizia Darcy Ribeiro, não têm vontade alguma de falar em direitos e se preocupam apenas em assegurar seus privilégios”, completa.
Resgatando personagens representativos da luta pela memória, Eric expõe o pensamento da uruguaia Macarena Gelman, da chilena Marcia Scantlebury e dos argentinos Estela de Carlotto, Adolfo Pérez Esquivel e Juan Cabandié. Apesar de repleto de mártires, sobreviventes e resistentes, o Brasil fica de fora, já que ainda não acertou suas contas. “Os personagens escolhidos são representativos de uma crença de ferro: a que diz que uma democracia só se consolida quando alcança o império da verdade, da memória e da justiça”, avalia. Para Esquivel, os julgamentos são um direito do povo. “A reconciliação é uma coisa vaga. Não pode haver reconciliação se esta não for baseada na verdade, na justiça, na reparação às vítimas, e se não houver arrependimento dos que cometeram os delitos”, afirma o ativista argentino.
Dentre as lembranças escancaradas em “A memória de todo nós”, a mais crua e comovente é a de Marcia Scantlebury, diretora do Museu da Memória e dos Direitos Humanos do Chile. “Jamais esquecerei daquele tempestuoso entardecer do dia 3 de junho de 1975. Nem do gemido da enorme porta de ferro deslizando pelo chão daquela terra maldita. Um par de horas antes, eu estava ajudando meus filhos a fazer suas tarefas escolares, quando uma patrulha da polícia política irrompeu violentamente em minha casa e me forçou a entrar num veículo”, narra ela, uma das 4.500 vítimas da Villa Grimaldi, prisão onde desapareceram cerca de 230 chilenos.
Simbolizando uma das maiores vitórias democráticas, o museu criado pela presidente Michelle Bachelet, como afirma Eric Nepomuceno, é uma espécie de bilhete do passado para o futuro. Uma prova de que os dias que virão podem, perfeitamente, ser melhores que os de grades e silêncios. “‘A vida não é o que a gente viveu, mas o que a gente recorda, e como recorda para contar’, disse o escritor Gabriel García Márquez. E não há dúvida de que os povos constroem sua memória a partir do reconhecimento do vivido, a partir do que contam de si mesmos”, pontua o escritor, certo de que na memória de todos nós não pode existir a borracha.
